Dez anos depois, ‘2666’ é símbolo da literatura latino americana no século 21

Obra de Roberto Bolaño foi publicada um ano após sua morte

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2014 | 02h00

Pouco antes de morrer de insuficiência hepática, aos 50 anos em 2003, Roberto Bolaño disse a um jornal chileno que era o terceiro na fila para o transplante de fígado, operação que possivelmente teria salvado sua vida e dado mais tempo ao escritor. Porém, a morte veio antes. No ano seguinte, 2004, se deu a publicação de seu último romance, quer dizer, aquele em que ele trabalhava com cuidado nos últimos dias e dizia ser sua obra mais ambiciosa: 2666. Em 10 anos, o livro vem desconcertando críticos e leitores, contribuiu muito para a lenda que se criou ao redor de Bolaño e levou seu nome e obra para as mais diversas partes do mundo, inclusive para o Brasil.

Por aqui, a Companhia das Letras publicou 11 livros de Roberto Bolaño, inclusive 2666, em 2010, com tradução de Eduardo Brandão. Para 2015, está prevista uma edição de El Gaucho Insufrible, livro de contos póstumos, publicado em 2003.

Editadas originalmente pela Anagrama de Barcelona, as 1125 páginas de 2666 o colocaram num panteão literário difícil, muito difícil de alcançar. O livro é o romance dos romances: composto de cinco partes separadas, ele leva em si, de acordo com o crítico, editor e amigo Ignácio Echevarría no posfácio à primeira edição, “um tecido sutil de motivos recorrentes”. Quais? “Se for necessário desvendar o motivo recorrente do livro, diria que é o dos caçadores versus caçados e vice-versa”, diz o escritor e crítico literário Silviano Santiago em uma troca de e-mails com o Estado

“É preciso, no entanto, tomar ‘caçador’ e ‘caçado’ num sentido múltiplo e amplo”, ressalta. Críticos versus escritores, escritores versus a construção de suas vidas, o serial killer versus as mulheres assassinadas (motivo recorrente do 2666). “Gosto de Bolaño porque mais do que García Marquez ele é o autor por excelência do novo milênio, cuja obra resume e se espraia por todas as artes”, desenvolve Santiago. “Bolaño trabalha fronteiras: geográficas e nacionais, ideológicas e poéticas, humanas e sensoriais.”

Em 2666, um grupo de críticos literários parte em busca de um escritor alemão recluso, mas que construiu uma obra sólida, cotada inclusive para o Prêmio Nobel de Literatura. A trama que corre a partir daí passa pelo México e pela Europa da Segunda Guerra na permanente tentativa da construção do mundo próprio de Bolaño por meio da linguagem. 

É possível arriscar que toda a sólida obra de Bolaño em vida (portanto, anterior a 2666) constrói andaimes, escadas e acessos que culminariam, sem se resumir a isso, neste livro. Em Amuleto, de 1998, o anúncio mais óbvio. Os dois detetives selvagens Ernesto San Epifanio e Arturo Belano caminham pela Avenida Guerrero na Cidade do México, seguidos por Auxilio Lacouture, narradora, que diz: “A Guerrero, a essa hora, se parece mais que tudo com um cemitério, mas não com um cemitério de 1974 nem com um cemitério de 1968 nem com um cemitério de 1975, mas com um cemitério do ano de 2666, um cemitério escondido debaixo de uma pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo.” (Na tradução de Eduardo Brandão, Companhia das Letras, 2008).

E talvez tudo que tenha sido esquecido seja, exatamente, o assassinato de mulheres que compõe a parte mais extensa de 2666, e de alguma forma, a mais obsessiva: A Parte dos Assassinatos, que narra com uma monotonia bem delineada uma série assombrosa de assassinatos de mulheres no México, nos arredores de Sonora, esse lugar em que a maioria dos leitores de Bolaño nunca esteve, mas que conhece tão bem.

“Se me fosse dada uma bola de cristal, diria que, de maneira geral, a obra de Bolaño é sobre a viagem, a morte e o anonimato”, diz, em sua contínua releitura de Bolaño, Silviano Santiago, que publicou no Sabático de O Estado de S. Paulo uma resenha quando o livro foi traduzido e publicado no Brasil.

Publicação. Desde 2004 no mundo hispânico, e desde 2008, aproximadamente, nos mercados de língua inglesa e no resto do mundo, o livro é uma das coroas da carreira literária de Bolaño. Já ciente de sua doença hepática e numa corrida contra o tempo – que guardava esperanças no transplante que nunca veio – o autor orientou os herdeiros a publicar a obra em cinco volumes separados. Decisão revertida pela família em comum acordo com o editor Jorge Herralde e com o crítico Ignacio Echevarría, que Bolaño havia indicado para consultas sobre seus assuntos literários.

É Echevarría o autor da nota ao final da primeira edição do livro, que de maneira elegante oferece chaves de leitura e justifica a decisão pelo tomo maior. 

Outro leitor atento da obra do chileno (mexicano, espanhol) é o escritor Joca Reiners Terron. “Bolaño é um escritor de linhagem romântica, e a desaparição do escritor – as metamorfoses da identidade – é um tema caro à poesia francesa (Rimbaud), na qual Bolaño bebeu e se embebedou”, diz, quando questionado sobre o permanente véu que tenta omitir o objeto procurado nos romances de Bolaño. Como, em 2666, é o escritor alemão fictício Benno von Archimboldi.

Em uma resenha publicada no jornal espanhol El País em outubro de 2004, o escritor argentino e amigo Rodrigo Fresán escreveu que, ao lado dos também póstumos e não concluídos Em Busca do Tempo Perdido (de Marcel Proust) e O Homem Sem Qualidades (de Robert Musil), este livro de Bolaño seria um big bang. “É quando o 2666 se consagra como artefato sem limites onde o que vale não é a passageira solução do mistério, senão sua eterna e intacta permanência.”

Santiago arremata: “Bolaño é por aptidão, posse e desejo um romancista que tem prazer em perambular às cegas pelo mundo. Cruza fronteiras. Bolaño é como o nosso Riobaldo. Sai à caça de Diadorim e encontra ao final o signo do infinito.” 

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