Ubiratan Brasil/Estadão
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Destaque de domingo na Flip, Sophie Hannah se consolida como poeta e autora de policiais

Escritora inglesa divide mesa sobre literatura policial com o cubano Leonardo Padura

Ubiratan Brasil, Enviado Especial - O Estado de S. Paulo

04 Julho 2015 | 04h00

PARATY - A britânica Sophie Hannah aceitou, há alguns anos, um convite que autores mais experientes certamente pensariam duas vezes antes de dizer “sim”: escrever um livro policial como se fosse Agatha Christie. A iniciativa partiu dos representantes da chamada Rainha do Crime e o resultado, contido no livro Os Crimes do Monograma (Nova Fronteira), foi tão positivo que o nome de Sophie aparece, na capa, ao lado do de Agatha. E, consagração suprema, a obra foi bem recebida pelos fãs da venerada escritora. “Deu tudo certo porque eu simplesmente estava determinada a não copiar o estilo dela, o que é impossível. Se fizesse isso, estava condenada ao fracasso”, comentou Sophie ao Estado, antes de participar da Flip, no domingo, 5, ao lado do cubano Leonardo Padura.

Ela veio a Paraty para lançar A Vítima Perfeita, lançado pela Rocco, obra em que o mistério está basicamente centrado no terrível segredo de Noemi Jenkins, que é obrigada a revelar quando seu amante, Robert Haworth, um motorista de caminhão, desaparece sem deixar vestígios. Quando a polícia começa a investigar o sumiço, Naomi inventa que o amante é, na verdade, um psicopata sexual. Relata então seu segredo, uma agressão que ela própria vivenciara, com requintes de crueldade e teatralidade, e que estava relatada em um site de ajuda a mulheres que sofreram com abusos sexuais e estupros.

Sophie Hannah em nada se parece com alguém que trata de assuntos tão violentos – em Paraty, passeou pelas ruas irregulares com trajes relaxados e, não fosse pelo crachá de convidada da Flip, seria confundida com os estrangeiros que circulam pela cidade. “Gosto de histórias de crime e mistério desde garotinha”, conta. “Quando tinha 11, 12 anos, já devorava o livros de Enid Blyton (especialmente Secret Seven, cujo tom de suspense é brilhante), Ruth Rendell e, claro, Agatha Christie, que foi minha principal inspiração – quando completei 14 anos, já tinha lido toda sua obra.”

Tamanha familiaridade permitiu que Sophie identificasse uma importante mudança na preferência do leitor de romance policial ao longo do tempo – segundo ela, enquanto Agatha Christie e seus contemporâneos se preocupavam essencialmente em contar bem uma história, hoje o ingrediente básico é o realismo da trama. “Daí o motivo de os livros daquela época serem hoje vistos com uma certa nostalgia, ainda que a estrutura literária de Agatha continue notável.”

Sophie acredita que uma das regras básicas para o sucesso de uma trama policial é apresentar um personagem cujo desespero pela solução do problema contagie o leitor a ponto de ele também se descobrir incomodado. “Muitas vezes, o mais divertido para quem lê policiais é estar preso pelo suspense e não ficar na simples busca da resolução do crime”, acredita.

Ao longo dos anos, Sophie descobriu diversos caminhos estilísticos apontados por outros autores policiais até identificar caminhos seguros para criar o próprio estilo. A motivação dos personagens, por exemplo, é essencial para sustentar um romance. "Não me interesso por situações envolvendo chantagem em busca de dinheiro, por exemplo, pois é uma situação comum em tramas desse tipo”, explica. “Acredito que o interesse, de fato, está naquele crime que só foi cometido por uma determinada pessoa e em uma determinada situação. Algo que certamente não aconteceria com outra pessoa e em outro lugar.”

A inglesa, cuja obra já foi traduzida para 32 idiomas, segue no sentido contrário dos filmes de suspense e policias, em que a violência física, exibida de forma explícita, tornou-se ingrediente necessário para agarrar a atenção dos fãs. “Sou contra a presença da violência, tento colocar o menor número possível de cenas assim em minhas histórias”, conta ela, que prefere o recurso do suspense e até do horror.

A escritora inglesa descobriu o caminho ideal para escrever o livro de Agatha Christie quando optou por criar um novo personagem e não simplesmente utilizar o famoso detetive Hercule Poirot, como parecia ser a opção mais correta. Ela sabia das consequências do desafio, encarado inicialmente com muita desconfiança pelos fãs de Agatha Christie. “Como fã, entendo perfeitamente a reação negativa dos leitores, mas escrevi esse livro como se fosse uma carta de amor para Agatha e para Poirot. Foi isso que me convenceu a aceitar o projeto.”

“É óbvio dizer isso, mas apenas Agatha poderia escrever como Agatha, assim decidi colocar um narrador em primeira pessoa que não se assemelhasse a nenhum personagem criado por ela mas que, de uma certa forma, também não fosse tão estranho. Acho que foi a solução mais sensata a ser tomada”, disse Sophie, que também é poeta – uma coletânea de seus poemas foi indicada pela Poetry Book Society, sociedade fundada por T. S. Eliot, como obra de referência da nova geração de poetas britânicos. Na noite de ontem, aliás, ela declamou versos próprios, em evento na Casa Rocco, em Paraty, onde explicou as duas preferências aparentemente tão distantes.

“A explicação é simples: ambas necessitam de regras, algo que gosto muito”, disse ela, que se diverte com o espanto das pessoas por gostos distintos. “Versos pedem controle das sílabas, encadeamento, rimas. Já um romance policial necessita de alguém misterioso, pistas falsas ou não, personagens com álibis nem sempre factíveis e, finalmente, um desfecho que só funciona depois de tudo isso ter sido bem usado. Enfim, regras para o sucesso.”

PROGRAMAÇÃO

Mesa 12 – 10 h

Turistas aprendizes

Beatriz Sarlo

Alexandra Lucas Coelho

Mesa 13 – 12 h

Encontro com David Hare

Mesa 14 – 15h

De balões e blasfêmias

Riad Sattouf

Rafa Campos

Plantu

Mesa 15 – 17h15

Os homens que calculavam

Artur Ávila

Edward Frenkel

Mesa 16 – 19h30

Jornalismo de Guerrilha

Ioan Grillo

Diego Osorno

Mesa 17 – 21h30

Desperdiçando verso

Arnaldo Antunes

Karina Buhr

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