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Dentro da baleia

Impressiona a alta estima de Orwell pela ‘coragem intelectual’ de Henry Miller

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2021 | 03h00

Descobri com certo atraso a existência da Fundação George Orwell. Ela fica, como esperado, em Londres. Instituição sem fins lucrativos e mantida por doações, The Orwell Foundation dedica-se, precipuamente, a cuidar do legado do autor de 1984 e A Revolução dos Bichos e torná-lo acessível ao maior número de leitores possível. 

Patrocinar palestras e bolsas de estudo para jovens, promover os valores de integridade, decência e outros predicados amiúde atribuídos ao escritor também fazem parte de suas atribuições. Em 26 de novembro, às 17h (Brasília), poderemos assistir ao vivo pelo canal da fundação no YouTube a uma conferência especial, que terá lugar no Conway Hall londrino. Nada mau fechar uma sexta-feira ouvindo as reflexões de um romancista do nível de Ian McEwan sobre o tema Política e a Imaginação, a partir de um dos ensaios mais conhecidos de Orwell, Dentro da Baleia.

Vinte dias antes chegará às livrarias de lá mais um romance gráfico de inspiração orwelliana. Desta vez, não se partiu de uma obra de ficção, mas de um longo texto memorialístico, Such, Such Were the Joys (Tamanhas Eram as Alegrias), parte da coletânea Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios. São lembranças dos folguedos e agruras que o menino Eric Blair (verdadeiro nome de Orwell) enfrentou na Escola de São Cipriano, onde entrou aos 8 anos, ainda fazendo xixi na cama, o que era considerado um “crime repugnante, cometido de propósito”, e para o qual o remédio adequado era uma surra. 

Voltemos à palestra de McEwan. Dentro da Baleia foi publicado em 1940. Ensaio movido a digressões sobre o próprio Orwell, os ficcionistas que testemunharam a 1.ª Guerra, a marcha literária nos anos 1930 e a alienação dos ingleses face à montante do comunismo e do fascismo. A baleia em questão não é Moby Dick, mas o cetáceo bíblico que engoliu Jonas naquela lenda sobre desobediência, castigo e arrependimento. 

Henry Miller, por motivos tão subjetivos quanto obscuros, comparou a escritora e amante Anaïs Nin a Jonas; Orwell simpatizou com a ideia, mas preferiu inverter, comparando Miller a Jonas – e as vísceras da baleia, supostamente aconchegantes, ao útero materno. Impressiona a alta estima de Orwell pela “coragem intelectual” de Miller, por sua prosa fluente e intensa, por seu apreço por gente comum e pelas tolices cotidianas. Ler Trópico de Câncer foi como conversar “com uma voz americana amiga, sem falsidades, sem propósito moral, apenas na presunção implícita de que somos todos iguais”. Onde e como entra a política nessa mélange? McEwan nos dirá daqui a 34 dias. 

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