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Debret político que redescobriu o Brasil é reeditado

Reedição do livro 'Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil', publicado pelo artista francês em 1835, revela um país que a Biblioteca Imperial não queria ver

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2016 | 04h00

Ao ser lançado na França, em 1835, o livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil foi um fracasso, mesmo sendo seu autor um artista respeitado, o parisiense Jean-Baptiste Debret (1768-1848), um dos integrantes da Missão Francesa chefiada por Lebreton, trazida pela Coroa portuguesa em 1816. As razões desse fiasco não estavam ligadas à capacidade artística do discípulo e primo do pintor neoclássico Jacques-Louis David (1748-1825), mas ao projeto político que alimentava o autor, um jacobino que, cooptado pelo império napoleônico, acabou desapontado com a restauração da monarquia. Seu livro ganha nova reedição no Brasil e será lançado hoje, às 11h, na Pinacoteca, com debate coordenado por Valéria Piccoli.

O exílio de Debret durou 15 anos, de 1816 a 1831. Durante esse tempo ele conviveu com índios, africanos, aristocratas e colonos portugueses – de uma crueldade comparável ao gesto dos traficantes franceses, de atirar escravos ao mar com a aproximação dos navios ingleses que controlavam o tráfico.

Debret também era um caucasiano orgulhoso, ainda que não fosse um racista extremado como Gobineau (1816-1882) – no entanto, acreditava igualmente que os negros fossem inferiores aos brancos em inteligência. A título de comparação, Voltaire pensava o mesmo. Mas, como um francês cultivado, Debret denunciou os maus-tratos que os colonos portugueses infligiam aos seus escravos. No livro, ao lado de cenas chocantes para um jacobino europeu, retratadas em aquarelas reproduzidas em nossos livros escolares, seus textos não deixam dúvidas sobre isso. Debret critica os castigos públicos dos escravos e a forma como eram “mediocremente alimentados” pelos colonos.

O fiasco do lançamento dos fascículos de Debret sobre sua passagem pelo Brasil não foi registrado apenas na França. Aqui, a Biblioteca Imperial, após ter acesso ao primeiro tomo, sobre os indígenas, intuiu o que viria a seguir e, ao ler o segundo, sobre os colonos e seus escravos, recusou sua publicação, passando a desqualificar o pintor, reduzido à condição de caricaturista. Obviamente, Debret estava longe disso – não por outra razão, D. João VI trouxe o pintor ao Brasil para registrar a vida na Corte e ser o que seu primo David foi na França, o pintor oficial da corte.

D. João VI não sabia, ou fingia ignorar, que Debret tinha uma vida clandestina, registrando nas ruas cenas de um Brasil que se formava à custa do sangue e suor dos negros e índios escravizados. Seu projeto político não era o de uma “viagem pitoresca” para retratar costumes exóticos, mas o de entender o processo embrionário de uma civilização nos trópicos.

Anos mais tarde, Paulo Prado, herdeiro da aristocracia cafeeira e autor de um livro seminal, Retrato do Brasil, financiaria a caravana dos modernistas de 1922 para construir o projeto de uma Brasiliana, capaz de concluir o trabalho iniciado pelo francês. Encomendou ao antropólogo e crítico de arte Sérgio Milliet a tradução de Viagem Pitoresca, que virou uma “referência incontornável”, segundo o sociólogo e filósofo francês Jacques Leenhardt, responsável pela primeira reedição francesa da obra de Debret, que, aliás, descobriu no Brasil.

O Brasil deprimiu Debret – e isso fica claro em dois autorretratos, um em que aparece sentado, melancólico, bebendo vinho numa taverna, e outro, também sentado, mas no meio-fio, tendo na cabeça um chapéu de jornal. Ele confrontou o atraso político do País nas aquarelas. Mas, na vida real, as cores costumam ser ainda mais sombrias.

VIAGEM PITORESCA E HISTÓRICA AO BRASIL

Ed.: Imprensa Oficial (652 págs., R$ 250). Lançamento hoje (18), 11h, na Pinacoteca (Praça da Luz, 2).

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