Deborah Levy escreve ecos de guerra e morte à beira de piscina

Situado no verão de 1994, novo romance, perturbador, usa os conhecimentos dramatúrgicos da autora inglesa

Entrevista com

Deborah Levy

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2014 | 03h00

Deborah Levy iniciou a carreira como dramaturga, mas logo enveredou para a narrativa ficcional – medida que logo se revelou certeira, pois, com Nadando de Volta para Casa, que a Rocco lança agora, ela foi finalista do Man Booker Prize de 2012, o mais prestigioso prêmio da literatura britânica.

Ela perdeu para Hilary Mantel e seu O Livro de Henrique (Record), mas Deborah Levy, mulher de olhar vigoroso e beleza contundente, foi uma forte concorrente. Nadando de Volta para Casa é um romance estranho, desconfortável. A trama acontece ao redor de uma piscina escavada na pedra do jardim de uma casa de férias, na Riviera Francesa. Por ali, circulam personagens invulgares, como Joe Jacobs, famoso poeta britânico adúltero, sua mulher Isabel, ex-correspondente de guerra, e sua filha Nina, de 14 anos. Completam o grupo Laura, velha amiga de Isabel, que vem acompanhada de Matthew, seu marido brutamontes, que adora caçar para abstrair o pensamento.

Deborah utiliza seus conhecimentos dramatúrgicos para elaborar um texto bem encadeado, em que os personagens se sentem presos à piscina, especialmente quando descobrem uma garota, Kitty, nadando nua – sua presença imprime tensão e carga sexual à história. Ela também é responsável pelo desfecho, inesperado e perturbador, quando a leitura de um de seus poemas, que tem o mesmo título do livro, se revela a peça-chave para o ponto final do romance. Deborah veio ao Rio em férias, mas, mesmo assim, aceitou responder por e-mail às seguintes questões.

Por que você ambientou o romance em 1994? Por que foi o ano da guerra civil em Ruanda e do subsequente genocídio?

Sim, a personagem feminina Isabel é uma correspondente de guerra. Por causa de seu trabalho, ela é enviada para os mais variados pontos de conflitos. No verão de 1994, ela está em férias na França com a família, por isso não é mandada para Ruanda onde seus colegas, traumatizados, escrevem sobre o genocídio. Portanto, procuro contrastar o mundo aparentemente pequeno e claustrofóbico destas férias na Riviera Francesa com o horror dos acontecimentos em outras partes do mundo. Também escolhi uma data perto do fim do século 20 por motivos que têm a ver com o passado de Joe.

Ele é um poeta e, segundo o clichê, poetas supostamente falam de amor. Isabel (sua mulher) aparentemente está mais preocupada com a guerra. Mas, no romance, vemos que é exatamente o contrário – será que Joe esteve mais próximo da guerra e da morte do que Isabel?

Suas personagens femininas são muito interessantes – em geral são centrais na sua obra?

Dou a mesma atenção a todos os meus personagens. Mas é sempre complicado escrever sobre personagens femininos porque as mulheres conseguem apagar seus desejos pessoais e atender aos desejos dos outros. Então, onde é que isto nos deixa quando decidimos viver de maneira diferente? Nadando de Volta para Casa faz esta pergunta.

“O livro é construído como uma peça: tem um palco central, um elenco e desenrola-se como um drama em cenas curtas e fortes”, escreveu há dois anos ao Los Angeles Review of Books. Acho a ideia interessante: além de romancista, você também é dramaturga e o livro se assemelha a uma peça detalhada. Como você define se uma história será em prosa ou uma peça?

Estudei dramaturgia e minhas peças me deram destaque como escritora. Entretanto, o teatro como forma artística não tem semelhança com o romance. No teatro, não são apenas as palavras que narram, mas também cenário, luzes, música. Por exemplo, quero escrever uma peça na qual toda vez que os personagens dizem alguma coisa constrangedora, vergonhosa ou íntima, suas palavras são encobertas por apito acionado pelo técnico de som. O público fica interessado naquelas palavras, mas elas estão encobertas pelo apito. O que é ouvido de sua conversação são banalidades. Então, imagino uma peça com ressonâncias em vários níveis, pessoal, político – em razão das coisas que não podemos falar livremente. Não poderia fazer isto num romance. Nadando tem mais a ver com cinema do que com o teatro.

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A propósito, a piscina é a metáfora central do livro: um lugar para relaxar, mas Joe observa que uma piscina parece uma tumba. Qual é sua opinião a respeito?

De fato, uma piscina é como um teatro. Há entradas e saídas e todos vestem um costume. Joe é um poeta e ele destaca que, em termos arquitetônicos, uma piscina é só um buraco no chão – como uma tumba coberta de água. Por que ele observa isto, por que usa esta metáfora? Ah, é preciso ler para descobrir...

Os romancistas têm alguma obrigação moral em relação aos seus personagens e leitores?

No que me diz respeito, minha obrigação é seguir a verdade da história e ver o que acontece ao longo do caminho.

David Slone Wilson, em seu ensaio Evolutionary Social Construction, observa que nós nos construímos e nos reconstruímos continuamente de acordo com as situações com que nos deparamos. Ele acredita que fazemos isto obedecendo à orientação das nossas memórias e esperanças e nossos temores.

Nadando de Volta para Casa fala de como o passado vive em nós no presente. Em geral, precisamos continuar vivendo, pagando o aluguel e alimentando os filhos. Mas todos temos pesadelos, sonhos e devaneios. Homenageio esta vida inconsciente em todos os meus escritos porque acho que nos aproxima muito mais das coisas que queremos para o mundo e nós mesmos.

NADANDO DE VOLTA PARA CASA

Autora: Deborah Levy

Tradução: Léa V. de Castro

Editora: Rocco (160 págs.)

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