Acervo Estadão
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De Sylvia Beach a José Olympio, livreiros fizeram história para além das vendas

No dia do livreiro, conheça a trajetória de profissionais que inovaram no mercado editorial e na literatura

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2022 | 08h00

Livreiro bom é aquele que lê, indica, comenta e, às vezes, contra indica livros. Neste dia do livreiro, 14, comemora-se a profissão que é porta de entrada para a literatura. De nomes lembrados na literatura mundial, como Sylvia Beach, a fundadora da Shakespeare and Company, em Paris, aos livreiros de bairro, a conversa com esses personagens das livrarias se revela, quase sempre, de muito bom proveito.

Sylvia Beach topou publicar Ulisses, de Joyce, que completou 100 anos da primeira edição neste 2022, à contragosto do mercado editorial da época. Ela arriscou e da relação entre os dois nasceu um dos romances mais cultuados da literatura em língua inglesa. Sua livraria virou um reduto boêmio de escritores, editores e artistas que frequentavam a capital francesa. Foi cenário de filmes, livros e se mantém aberta, desde 1919, até os dias de hoje. 

Cá nos Trópicos, um nome comparável à Beach é o do livreiro José Olympio, que criou a editora e livraria homônima, colocando no mercado obras antológicas como Macunaíma, por exemplo. Dono da casa que por anos abriu espaço no mercado editorial para poetas e cronistas, o selo continua na ativa, hoje via editora Record. Publicou também escritores estrangeiros como John Fante, Jane Austen, Dostoievski, entre outros. Olympio, além de livreiro, foi editor, dos maiores do país, e sua casa editorial no número 110 da rua do Ouvidor virou ponto de encontro de intelectuais cariocas. 

Vizinha de Olympio, Vanna Piraccini, que faleceu recentemente aos 95, a dona Vanna, abriu as portas da livraria carioca Leonardo Da Vinci em 1952, uma das mais tradicionais do país, no subsolo de uma galeria na Av. Rio Branco. Por lá, dona Vanna manteve contato com escritores, jornalistas, artistas que encontravam só lá revistas estrangeiras, novidades do mercado editorial internacional e obras raras, bem como muito material da cultura alternativa. Cativante, o espaço inspirou o poeta Carlos Drummond de Andrade em um poema, dedicado à Da Vinci e sua criadora,  A livraria, de 1973: “... a loja subterrânea expõe os seus tesouros / como se defendesse de fomes apressadas. / Ao nível do tumulto de rodas e pés / não se decifra a oculta sinfonia de letras e cores enlaçadas / no silêncio dos livros abertos em gravura…”.

Em São Paulo, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional faz parte do circuito literário da cidade, desde que foi fundada por Eva Herz, que veio fugida da guerra na Europa em 1939, ela e o marido Kurt começaram a operação com uma biblioteca circulante. Do aluguel de livros, Eva aos poucos construiu a identidade do espaço que leva seu sobrenome e hoje é dirigida por Pedro Herz, seu filho. Movimentada, a livraria é palco de lançamentos de escritores importantes, de nomes como Lygia Fagundes Telles a Ignácio de Loyola Brandão, com personagens conhecidos ali, como o antigo livreiro José Carlos Honório, às  sessões de autógrafos marcadas na memória, como o último lançamento do livro Ovelhas Negras, de Caio Fernando Abreu, em 1995. 

Vizinha da cultura, a livraria Martins Fontes, fundada em Santos em 1960, ganhou a unidade na avenida paulista nos anos 1980. Waldir Martins Fontes, além de impulsionar a venda de livros portugueses no Brasil, abriu sua editora, a WMF, importante passo para um livreiro que, como Beach e  Olympio, sonhava ser editor. 

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