Claudio Sforza
Claudio Sforza

David Grossman explora a narrativa do trauma em 'A Vida Brinca Muito Comigo'

Escritor israelense fala sobre seu novo romance, que é baseado na história de Eva Panic Nahir e retrata uma família lidando questões silenciadas do passado

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2022 | 05h00

Em Israel, conta o escritor David Grossman, as pessoas costumam ligar umas para as outras para dar conselho, criticar, contar uma história. Há cerca de 25 anos, ele recebeu uma ligação de uma mulher com um sotaque diferente. Eva queria contar tudo o que tinha vivido em seu país, a Croácia, e ele mordeu a isca direitinho. A cada ligação, ela revelava novos fatos e cortava a conversa num momento crucial. “Ela era como a Sherazade, e essa conversa durou 20 anos”, diz o escritor em entrevista ao Estadão, por videoconferência.

Nascida em 1918, Eva Panic Nahir não viveu para ver pronto o livro que ela queria que Grossman escrevesse. Ela, que já tinha sido tema de outras obras biográficas e até de um documentário, morreu em 2015, às vésperas de fazer 97 anos. A Vida Brinca Muito Comigo foi lançado em 2020, em Israel, e chega agora ao Brasil.

Trata-se de um romance baseado na vida desta mulher firme, fanática por seus ideais e fiel ao marido. 

A história resumida: presa pela polícia de Josip Broz Tito, na antiga Iugoslávia, no início dos anos 1950, ela se recusou a assinar um documento em que reconheceria que o marido, que tinha acabado de se suicidar após ser torturado, era um traidor da pátria – ou seja, era informante de Stalin. Sabia que não assinando seria mandada para Goli Otok, um dos gulags de Tito, na Croácia, e sua filha de seis anos seria jogada na rua. Para ela, porém, não havia escolha.

Empurrando pedra e fazendo outros serviços sobre-humanos, sem a menor condição de higiene e dignidade, ela sobreviveu por mais de dois anos no inferno. Depois da experiência traumática, se muda com a filha para um kibutz em Israel. Lá se casa com um viúvo e cria também o filho dele. O menino e a menina se envolvem. 

A história de Grossman é narrada por Guili, a filha dos dois – abandonada pela mãe e criada pelo pai. Eva, no livro, é Vera.

No aniversário de 90 anos da matriarca, os quatro viajam para a ilha, para conhecer o lugar cujas marcas ecoam em cada membro daquela família quebrada, que silenciou perguntas e traumas. Da viagem, sairá um filme, feito pelo pai e pela filha.

Grossman, um dos melhores escritores de sua geração, autor de obras como A Mulher Foge e O Livro da Gramática Interior, diz que tem um interesse especial por histórias de indivíduos enfrentando governos ditatoriais. Ele se interessa, também, pela forma como histórias são recontadas. É disso, afinal, que trata A Vida Brinca Muito Comigo

“Contar a história de novo e de novo – porque queremos impressionar o outro, queremos que gostem ou tenham pena da gente – nos torna prisioneiros desse nosso jogo. Usamos as mesmas palavras repetidas vezes e, porque fazemos isso, acreditamos que ainda estamos presos lá na nossa infância ou na adolescência, ainda achamos que não somos compreendidos por nossa mãe ou nosso pai, que ainda somos muito solitários e miseráveis”, diz. 

Ele segue: “Se olhássemos para a nossa própria história por meio de palavras diferentes, talvez compreendêssemos que estamos num outro lugar, que somos mais fortes, mais corajosos, mais flexíveis com relação ao modo como olhamos para o passado. Assim talvez nos permitíssemos ver que papai e mamãe são pessoas diferentes daquelas que conhecemos e que aprisionamos por causa de nossas histórias congeladas. Talvez possamos entender que até nossa mãe tem uma mãe e que até o pai tem o direito à psicologia – e não apenas nós. Que os pais podem ter múltiplas camadas”. 

David Grossman está falando sobre indivíduos, mas diz que o raciocínio se aplica a nações. Porque toda nação, ele afirma, precisa de uma mitologia que vai descrever sua origem, vai falar sobre os inimigos e sobre como somos corajosos. “Mas, depois de algumas décadas, talvez seja hora de nos perguntarmos se essas histórias são atuais e se ainda precisamos delas do jeito que contamos. Elas podem ser diferentes hoje e talvez a gente seja diferente e, por isso, podemos olhar para elas de um outro jeito e deixá-las se infiltrar em nossa história nacional. Nada de errado vai acontecer com nossa história pessoal se deixarmos a narrativa do inimigo se infiltrar e se virmos nossos erros pelos olhos do inimigo.” 

Ele conclui: “Se permitirmos que isso aconteça, não estaremos em contato apenas com os nossos medos, pesadelos, medos imaginários e desejos, mas também com a complexidade e as várias camadas da realidade”.

No livro, Vera diz que não podemos consertar o passado e que não há nada pelo que se desculpar. Que a única coisa a fazer é entender e viver com isso. E, no entanto, sem uma conversa franca – algo que esta família adiou por décadas – e sem as perguntas certas, fica mais difícil compreender, elaborar, seguir adiante.

“É preciso conversar, discutir e trazer à tona os traumas porque eles continuam a nos influenciar mesmo que não falemos sobre eles. Eles continuam a irradiar seu caráter destrutivo em nossa vida, em nossas personalidades, no relacionamento que temos com outras pessoas. A questão é: como falar sobre trauma sem nos tornarmos, de novo, vítimas dele, sem sermos sugados novamente por ele, sem usá-lo de uma maneira manipuladora e sem nos tornarmos surdos à voz dos outros?”

Grossman, judeu nascido em Jerusalém em 1954, menos de uma década após o fim da Segunda Guerra, sabe bem o que é viver sob a sombra de um trauma. Sabe também o que é viver com medo – um medo que vem se alastrando pelo mundo nos últimos anos.

“É, o mundo está uma bagunça. Putin não é o tipo de pessoa que vai parar no ponto que não é o ponto dele. Vamos ver mais e mais violência”, ele diz, sobre a mais recente guerra – e comenta que é difícil prever o que vai acontecer com a Finlândia e a Suécia. “Mas você tem razão: por ser israelense e viver em Israel, o medo me é familiar. E o que aconteceu na Ucrânia encorajou muitos israelenses a mudar de ideia e voltar a ser de direita porque eles estão vendo do que o mundo é feito, e o mundo é feito de violência, ódio e suspeitas. Mas se você odeia, você não é uma pessoa em liberdade e a realidade parece para você como uma ilusão, não como a realidade da guerra.”

O escritor comenta, ainda, os 55 anos da ocupação da Palestina e diz que tanto tempo depois não há nenhum sinal de mudança e nenhuma tentativa de fazer alguma coisa diferente que garanta, aos filhos e netos de israelenses e palestinos, um lugar melhor para se viver. 

“Toda a nossa vida é de luta e esse é um jeito horrível de olhar para a vida e para o futuro das nossas crianças. E nós nos acostumamos, o que é o pior de tudo. Por isso precisamos de arte. A arte pode atuar contra a gravidade desse desespero. A arte pode nos lembrar que dentro de nós há instinto de liberdade. E que ainda podemos, em nossas vidas, nós e os palestinos, começar uma vida normal, simplesmente digna.” 

A Vida Brinca Muito Comigo

Autor: David Grossman

Trad.: Paulo Geiger

(298 págs.; R$ 99,90; R$ 44,90 o e-book)

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