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David Foster Wallace, o escritor da solidão

Sete anos após sua morte, ele ganha filme sobre a turnê de 'Infinite Jest' e continua mais atual do que nunca

Alexandre Ferraz Bazzan, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2015 | 00h38

"Pra biblioteca, e pé na tábua". A frase está logo no primeiro capítulo de Infinite Jest, obra traduzida por Caetano Galindo em 2014 e rebatizado de Graça Infinita no Brasil. A brincadeira explica bem a personalidade de David Foster Wallace, que se enforcou há exatos sete anos. Certa vez, perguntaram a esse devorador de livros como ele conseguia ser tão inteligente. "Eu leio", respondeu ele.

O autor escreveu seu primeiro livro, The Broom of the System (ainda sem tradução), quando estava na faculdade de Filosofia. O romance com escrita inteligente e cheio de ironia já mostrava seu talento, mas foi na coleção de contos Girl With Curious Hair que ele começou sua experimentação pós-modernista. Quando o colega Charlie McLagan o emprestou O Leilão do Lote 49, de Thomas Pynchon, sua escrita mudou completamente. "Como Bob Dylan descobrindo Woody Guthrie", disse seu antigo companheiro de quarto na universidade, Mark Costello (ver nota de rodapé 1). Foram várias tentativas de escrever seu segundo romance, a primeira delas em 1986, também por isso o livro tem três estilos distintos ao longo das mais de mil páginas.

Quando sua editora se mostrou hesitante em trabalhar o manuscrito gigantesco no começo dos anos 1990, Michael Pietsch (2), editor da Little, Brown, disse que tinha mais vontade de publicar Infinite Jest do que respirar. A parceria duraria até o fim da vida de Wallace, assim como a representação da agente que o acompanhou durante toda sua carreira literária, Bonnie Nadell.

Wallace tinha outra característica marcante: o uso de notas de rodapé, uma ideia que teve lendo T.S. Eliot. "É como se houvesse uma segunda voz conversando com você", explicou ele em uma entrevista. Entretanto, essa prática se consolidou como uma trapaça para ganhar espaço. Como Pietsch insistia que ele fizesse mais cortes em Infinite Jest, Wallace sugeriu que alguns trechos virassem apêndices colocados ao final do livro e com uma fonte menor, assim, a editora poderia economizar papel.

A obsessão por notas era tão grande que, quando a tatuagem de um coração com o nome de uma antiga namorada, Mary Karr, começou a desbotar, ele fez questão de tatuar um asterisco sobre o que restou de Mary. Outro asterisco foi tatuado logo abaixo do coração com o nome da noiva e futura esposa, Karen Green. Como se fosse uma retificação.

A trapaça com os apêndices deu certo. O "tijolo" foi lançado em 1996 e ele fez uma série de leituras pelos EUA. Era pouco provável que uma obra tão extensa, e por isso cara, se tornasse um best-seller, mas, ao fim da turnê (3), o livro já tinha vendido 45 mil cópias.

Viciado em TV. Ele deixou de ter um aparelho em casa para conseguir fazer outras coisas e não ficar somente na frente da tela. Foi pensando em uma sociedade cheia de vícios e que busca o prazer a qualquer custo, que ele conseguiu prever em 1996 alguns dos rumos do mundo atual. Coisa que não foi valorizada na época por alguns críticos. "O livro, como toda verdadeira obra inovadora, teve seus detratores mesmo entre gente de grande porte", explica Galindo.  O tradutor diz que Wallace desde o começo foi um "escritor de escritores" e que isso nem sempre é compreendido por todos. "Como no caso do Ulysses, o estatuto de 'clássico' levou algum tempo pra se estabelecer", afirma.

Ter se tornado um clássico não é a única similaridade com Ulysses, a epopeia de James Joyce. Galindo enxerga a diversidade de estilos, a presença de dois personagens "centrais" e o evidente desafio que é ler as duas obras. É "o livro-mito muito mais mencionado do que lido...uma pena imensa nos dois casos".

Um gênio inseguro. Ele construiu uma prosa que obriga seus contemporâneos a correrem atrás, transformando uma geração de leitores e escritores, mas mantinha constante insegurança. Nesses momentos, ele se escorava em seus correspondentes, antigos colegas, mas também pessoas que ele admirava. Certa vez, ele escreveu para Jonathan Franzen elogiando um livro e os dois se tornaram amigos e competidores na literatura, como quem torce para que o jogador do mesmo time vá bem, mas não melhor que ele. Em uma dessas cartas, logo após finalizar Infinite Jest, ele disse ao amigo: "Estou triste por terminar algo tão longo." Foi também em uma conversa, tentando chegar ao núcleo do sentido da literatura, que ele sentenciou: "A função da ficção é combater a solidão."

A ansiedade e depressão fizeram Wallace deixar a faculdade de Filosofia por duas vezes. Na primeira, ele começou a tomar o remédio que o manteria vivo por mais de 20 anos, o Nardil. Na segunda, ele tenta pela primeira vez o suicídio depois de parar de tomar o antidepressivo. Foram várias internações ao longo da vida para tentar se livrar do álcool e do consumo excessivo de maconha. Em uma delas ele ficou em uma clínica que foi inspiração para personagens de Infinite Jest e tema de boa parte do livro.

Em 2007, ao passar mal durante um jantar, ele resolveu novamente parar de tomar o Nardil. Os médicos diziam que era uma droga antiga e que existiam medicamentos melhores. Ele tentou mais uma vez o suicídio, mas continuou lutando pela vida por mais um ano com outros antidepressivos.

No dia 12 de setembro de 2008, Wallace sugeriu que sua esposa, a artista plástica Karen Green, fosse até seu ateliê resolver questões sobre uma exposição. Sentindo que ele estava melhor, ele havia consultado um quiroprata dias antes, Karen concordou.

Wallace foi até a garagem, seu escritório improvisado na residência, e acendeu todas as luzes. Ele escreveu uma carta de duas páginas para a mulher e foi até o pátio do imóvel. Beijou (4) os dois cachorros adotados, Werner e Bella, na boca e pediu desculpas antes de subir em uma cadeira, enrolar uma corda no pescoço e pular para a eternidade.

NOTAS DE RODAPÉ

1-Mark Costello seria, ao lado de Jonathan Franzen, o melhor amigo e correspondente constante de Wallace. Os dois chegaram a escrever um livro com comentários sobre hip-hop quando o estilo musical estava arrebentando nos EUA: Signifying Rappers.

2-Michael Pietsch teve a desafiadora tarefa de editar postumamente The Pale King, livro ainda sem publicação no Brasil(2b). Pietsch disse em entrevista para a rádio pública NPR que entre manuscritos, arquivos digitais e papéis datilografados foram achadas por volta de 3 mil páginas com textos e ideias para o romance. Dessas, Bonnie Nadell disse que 200 se encontravam imaculadas em sua mesa de trabalho, como se fosse um desejo de que elas fossem publicadas.

2b-Caetano Galindo diz que acaba de traduzir de City on Fire (Garth Risk Hallberg, 930 páginas), mas que pretende retomar The Pale King ainda este ano e, se tudo der certo, entregar o trabalho pronto para a Companhia das Letras em 2016.

3-O diretor James Ponsoldt lançou este ano o filme The End of the Tour com Jason Segel interpretando David Foster Wallace. O longa-metragem é baseado no livro Although of Course You End Up Becoming Yourself de David Lipsky. Lipsky acompanhou Wallace durante 5 dias na turnê de Infinite Jest. A entrevista deveria virar um artigo para a revista Rolling Stone, mas só foi publicada depois da morte de Wallace e eventualmente virou o premiado livro.

Trailer do filme The End of the Tour

4-Amy Wallace, irmã do autor, disse em uma entrevista que tinha certeza que David tinha beijado os cachorros na boca e pedido desculpas antes de se matar. Essa versão obviamente não pode ser confirmada.


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