Arquivo pessoal
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Daniela Arbex narra a vida da pioneira espírita Isabel Salomão de Campos em livro

Jornalista faz sua primeira incursão na biografia ao relatar vida de médium com pano de fundo da história do Brasil

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 05h00

Os Dois Mundos de Isabel é um ponto de virada na carreira da jornalista Daniela Arbex. Após três longas reportagens tratando de temas pesados – a morte de 60 mil internos em um hospício brasileiro, o assassinato de um jovem pelas Forças Armadas e o incêndio na Boate Kiss –, seu novo livro é, estranhamente, leve. Sua primeira incursão no gênero biográfico trata da vida de Isabel Salomão de Campos, uma das principais lideranças do espiritismo no País.

“Em relação à temática, ele é bem diferente de tudo o que eu fiz até agora”, reconhece a escritora em entrevista ao Estadão. “Mais leve nesse sentido de não ser uma tragédia, de não ser um tema pesado. Mas foi um dos mais difíceis pela dificuldade de estar falando de uma mulher quase centenária com uma história de vida tão rica.”

Descendente de imigrantes libaneses, Isabel cresceu em uma área rural e desde cedo lutou para auxiliar as pessoas menos favorecidas. Começou como uma benzedeira, tratando desde dor de dente a outros problemas cotidianos das pessoas que viviam no entorno da roça em que morava e trabalhava. Com apenas 14 anos, concebeu uma escola para os filhos dos trabalhadores do campo e chegou a ser nomeada professora pelo prefeito, alfabetizando pessoas na região de Rochedo de Minas, perto de Juiz de Fora. Depois de se tornar uma liderança espírita, Isabel passou a acolher pessoas de todo o País, ajudou centenas de crianças, fundou escolas e até hoje realiza trabalhos com populações carentes.

A narrativa de Arbex entremeia a instigante vida de Isabel com os fatos históricos do Brasil. “Como a gente está falando de uma vida de quase 100 anos, são 100 anos de história do Brasil também”, diz a autora. “Apesar de ter uma temática diferente, esse livro dialoga com todos os meus outros, porque tem um papel de construção da memória coletiva do Brasil”, acrescenta ela.

Nesse sentido, a longevidade da personagem retratada em Os Dois Mundos de Isabel é um trunfo e um obstáculo ao mesmo tempo. Daniela aproveita a trajetória de Isabel para, em meio ao livro, desfilar figuras como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Chico Xavier. Mas a idade avançada da biografada fez com que muitas das entrevistas realizadas com ela fossem feitas enquanto a protagonista usava um respirador. “A maior dificuldade foi conseguir reconstruir o cenário da vida dela na infância e na adolescência, localizar as pessoas que ainda estão vivas e mergulhar nessas memórias afetivas. Muitos são octogenários, nonagenários, centenários, não estão nas redes sociais.”

Para isso, o esforço de coleta de informações empreendido por Daniela contou com mais de 100 entrevistados, entre pessoas que aparecem na narrativa e outras que apenas fornecem dados para embasar sua história. No entanto, há uma barreira intransponível para a apuração: Isabel é uma das maiores médiuns brasileiras, e uma parte muito grande da obra trata do plano espiritual, indetectável para a repórter.

“Eu tinha um receio inicial de contar essa história por conta da questão religiosa. Eu ficava preocupada sobre como abordar isso de uma maneira isenta, com ética. Mas depois fui percebendo que o jornalismo está aberto para tudo e que seria preconceito meu deixar de contar essa história por causa da religião”, afirma Daniela. “Acho que venci isso usando o que aprendi ao longo de 25 anos de jornalismo, que é dar voz para as pessoas. É claro que tem coisas que não tenho como provar. Independente do contato dela com o mundo invisível, o que ela fez para o mundo material é fantástico. Ela ajudou milhares de pessoas e, só por isso, ela já seria uma grande personagem”, complementa a repórter.

Por essa habilidade de dar voz às pessoas, Daniela se considera mais jornalista do que escritora. Para ela, sua escrita tem o objetivo de humanizar histórias e colocar o leitor na cena. “É uma delícia usar a potência da palavra para focar o outro”, comenta a repórter.

É exatamente por isso que, em meio à pandemia da covid-19, embora Daniela tenha dois projetos novos em mente, ela não consegue dar continuidade às apurações. “Eu preciso sentir o lugar, olhar tudo, entrar nas casas, então estou meio impedida de fazer”, lamenta ela. “Esse livro vem em um momento em que precisamos muito de esperança. E o amor é revolucionário.”

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