Daniel Pennac trata da relação do homem com seu próprio organismo

Daniel Pennac trata da relação do homem com seu próprio organismo

'Diário de um Corpo' foi lançado agora no Brasil pela Rocco

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 Março 2017 | 05h00

O homem mantém uma relação singular com seu próprio corpo - ignorando-o quando saudável, buscando medicação no momento de doença e em êxtase completo ao sentir prazer. É justamente essa massa formada em sua maioria por carne e ossos que trata o livro Diário de um Corpo, escrito pelo francês Daniel Pennac e lançado agora no Brasil pela Rocco.

Pennac é um célebre educador francês e autor de obras de enorme sucesso, como Diário de Escola e A Fada Carabina. Dono de uma prosa original, ele apresenta agora o relato das transformações físicas sofridas por um personagem entre os 12 e os 87 anos, ou seja, de um acidente humilhante em um campo de escoteiros durante a infância aos últimos estágios de uma doença terminal. Mas não é o mundo exterior que interessa ao personagem (obviamente inspirado no autor), mas sua intimidade.

Como se trata de um mundo muito restrito, situações habitualmente incômodas (como necessidades fisiológicas básicas e prazeres íntimos) são descritas com naturalidade. Sobre o assunto, Pennac, que está com 72 anos, respondeu ao Estado por e-mail.

Como foi a experiência de escrever um diário no qual você é ao mesmo tempo o sujeito e o objeto?

Sou o sujeito, mas não o único objeto. O diário trata de outras pessoas além do narrador, que também não sou eu (Diário de um Corpo é um romance e o narrador, um personagem). É uma mistura de observações que fiz sobre a evolução do meu e de outros corpos, em todas as idades.

 

Não se trata de um diário “íntimo”, pois o protagonista é contra a ideia de escrever um diário. Para você, o que é intimidade?

Não é um diário íntimo no sentido psicológico e sentimental do termo; no entanto, é um diário MUITO íntimo. Nós acreditamos que a intimidade do corpo seja nosso jardim mais secreto, quando, na verdade, é nosso território mais comum. Todos temos um corpo, homens e mulheres, mas cada um o considera particular. Intimidade é essa relação com o corpo, que consideramos uma relação particular, mas não é.

Por que, em sua narrativa, há uma certa repugnância na descrição do funcionamento fisiológico do corpo?

Não há repugnância nenhuma. O leitor, às vezes, pode sentir isso em função dos próprios preconceitos, dos próprios bloqueios, dos próprios medos ou repulsas. Pessoalmente, não sinto nenhuma repugnância pelo funcionamento do corpo.

É verdade que a descrição cirúrgica do corpo do herói de seu romance deixou você completamente neurótico com o próprio corpo?

De modo algum. Tenho afeição pelo personagem e meu corpo não me intimida. Mais genericamente, aprecio a realidade física da aventura humana. A degradação progressiva de um corpo que envelhece - do meu, entre outros - não me deprime. Um sintoma pode me dar medo, mas não é um medo que eu procure sempre controlar. Com a evolução de meu corpo, “vejo” o tempo passar. Trata-se apenas de aceitar essa passagem, estudá-la com uma curiosidade tranquila. Gosto da aventura física da vida. O ideal seria nascer e morrer curioso.

 

Que pensa você das pop stars que hoje se apresentam quase nuas? Será que conseguiram dominar melhor seus corpos?

Elas são objetos de consumo visual. São parte do comércio do corpo. O corpo vem sendo cada vez mais exposto, uma mercadoria para o olhar. No entanto, a relação que cada um mantém com seu corpo continua muito secreta.

 

O sexo está muito presente no livro, mas é descrito de um modo tão físico (ou mecânico) que não tem nada de sensual, como no episódio da masturbação. Por que você optou por descrevê-lo dessa forma? 

Meu personagem adolescente se diverte em descrever a masturbação da maneira mais técnica e precisa possível, exatamente porque nunca leu ou ouviu essa descrição em nenhum lugar. Isso é seu “diário de um corpo”: ser o mais preciso possível ali, onde todos fecham os olhos. Por outro lado, não acho que as cenas de amor do 10 de outubro de 1946, do 12 de março de 1950 ou do 16 de março de 1998 sejam tão mecânicas quanto essa. Pessoalmente, eu as acho emocionantes.

 

A tecnologia devastou o corpo, com a revelação de falsas qualidades psíquicas?

 

Não entendi exatamente sua pergunta. De que tecnologia e de quais “falsas qualidades físicas” você fala? As tecnologias cinematográfica e médica revelaram o corpo como objeto de consumo visual e como objeto de estudo científico. Mas elas nada nos dizem sobre as relações íntimas de cada um de nós com o próprio corpo. 

DIÁRIO DE UM CORPO

Autor: Daniel Pennac

Tradução: Bernardo Ajzenberg

Editora: Rocco (336 págs.,R$ 49,50)

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