Daniel Alarcón volta ao seu país imaginário em novo romance

Peruano que vive nos Estados Unidos lança, na Flip, À Noite Andamos em Círculos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2014 | 20h01

Nelson é um ator de 20 e poucos anos que passou a adolescência numa capital latino-americana evitando vínculos porque sua mudança para os EUA era iminente. Sua família tinha vivido lá até pouco antes de ele nascer, e seu irmão mais velho teve a sorte de nascer um cidadão americano. Por causa desse dado em seu passaporte, mudou para lá tão logo pôde, e cuidaria para que Nelson se juntasse a ele. Contando com isso, o garoto termina o namoro com Ixta. Mas eis que seu pai morre e ele se vê sozinho com a mãe, e não se permite outra opção a não ser abandonar o sonho e ficar em casa. Ou seja, tudo vai mal.

Um alento: uma tradicional e extinta companhia teatral anuncia turnê pelo interior do país e está à procura do terceiro elemento. Nelson, que conhecia de cor a peça que seria remontada, O Presidente Idiota, se candidata e leva o papel.

Essa é, em linhas gerais, a situação de Nelson, o protagonista de À Noite Andamos em Círculos, romance que o peruano Daniel Alarcón lança na Festa Literária Internacional de Paraty. 

Foi a história dos dois irmãos, que é um pouco a sua trajetória – suas irmãs mais velhas nasceram em Baltimore e ele, em Lima, em 1977, mas todos (Alarcón a partir dos 3 anos) foram criados nos Estados Unidos onde os pais, médicos, escolheram viver. Àquela época, o Peru passava por uma guerra civil e um dos tios de Alarcón é desaparecido político – questão tratada em seu primeiro romance, Rádio Cidade Perdida.

Mas esse drama de irmãos que têm acesso a coisas diferentes não se sustentou, conta o autor, e ele jogou a primeira versão fora. “Era importante ter duas fontes de tensão narrativa. Ali era só a descrição de uma relação. E para ter tensão é preciso ter personagens, drama e problemas.” Foi quando conheceu a peça El Mandatario Idiota, de Walter Ventosilla, do grupo Setiembre, e mudou o rumo do romance. Adaptou o trabalho de Ventosilla, criou a trupe Deciembre e botou seus personagens – Nelson, Henry (preso como terrorista durante a montagem original) e Patalarga – a viajar pelas províncias desse país imaginário cheio de belezas e contrastes. 

Sabemos que algo aconteceu a Nelson durante a turnê e depois – mas não sabemos se foi uma grande tragédia ou se o narrador dará uma boa risada da cara do leitor ao final da história. O romance é narrado por um jornalista que tem acesso ao diário de viagem de Nelson e vai montando o quebra-cabeça por entrevistas com os envolvidos na trama e vai alimentando o suspense dessa história – que é a de Nelson, mas também a de Henry e do narrador. 

Trata-se de um livro sobre amor, os efeitos da guerra, atuação e acasos. “E é muito sobre ecos, padrões que se repetem e movimentos circulares na vida”, completa o autor. Não vem, porém, desse movimento o título da obra. “Eu andava lendo Guy Debord e fui atingido pelo que ele dizia sobre o espetáculo, nossa alienação de nós mesmos, da mídia. Achei muito relevante e descritivo da situação do Nelson.” Depois, enquanto escrevia, foi visitar presídios em Lima – primeiro, para falar sobre seus livros; depois, para dar um workshop e fazer uma reportagem. “Numa dessas visitas, uma imagem que vi ficou ecoando a frase de que eu tinha gostado: ‘À noite andamos em círculo’. Depois do jantar, os presos saem para uma caminhada no pátio. E eles andam em círculo. Eles estão andando, mas não vão a lugar algum. Achei isso triste e poético”, conta.

Para o romance, o autor criou o Coletores, onde Henry fica preso por causa da peça e que assombra os demais personagens. “Eu não teria a coragem de inventar uma prisão; eu tinha que ver com os meus olhos para ser capaz de escrever sobre elas. E a experiência foi surpreendentemente engraçada. Fiquei muito interessado no processo que acontece quando se vai visitar um lugar que não tem nada a ver com você e você desaparece lá dentro.”

O país em que o livro é situado não tem nome. “Eu queria criar uma versão minha do Peru. Me sinto menos distante de lá quando estou escrevendo sobre ele. Passo muito tempo na minha cabeça, no meu mundo imaginário, na minha versão imaginária de Peru e de Lima e me sinto muito confortável lá. Vou continuar voltando a essa cidade imaginária nos meus livros”, conclui.

À Noite Andamos em Círculos

Autor: Daniel Alarcón

Tradução: Rafael Mantovani.

Editora: Alfaguara (320 págs., R$ 39,90; R$ 27,90 o e-book)

Confira trechos da obra: 

"Durante a guerra - que o pai de Nelson chamava de os anos de tensão - alguns estudantes radicais do Conservatório fundaram uma companhia de teatro. Liam os surrealistas franceses e improvisavam mitos quíchuas; fumavam tabaco barato e cantavam canções de protesto com letras vulgares. Riam em público como se isso fosse um ato político, mostrando os dentes e assustando as crianças. Eles eram provenientes, de um modo geral, dos seguintes círculos não excludentes da juventude: os cabeludos, os trabalhadores, os sedentos de sexo, os posudos, os provincianos, os alcoólatras, os carentes emocionais, os agitadores, os oportunistas, os punks, os grudentos e os obcecados. Nelson naquela época era só um menino: taciturno, pensativo, crescendo num subúrbio da capital com a cabeça enfiada num livro."

(...)

"Quando saíssem em turnê, iriam apresentar-se em igrejas, garagens, campos, praças, parques de diversões e oficinas. Um espetáculo seria realizado sob as trêmulas luzes fluorescentes de um auditório municipal quase congelado; outro no pátio de um matadouro, lavado com magueira - mas nenhum num teatro de verdade."

(...)

"Quando falei com Patalarga, fiquei curioso para saber como Nelson lhe parecia estar; afinal, Ixta lhe contara a notícia ainda na noite anterior.

'Parecia bem', disse Patalarga. 'Um bom humor surpreendente, na verdade. Nós realmente não fazíamos nenhuma ideia de por que tínhamos ido àquela cidadezinha, e a novidade daquilo lhe dava algo para focar."

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