Rodolfo Buhrer
Rodolfo Buhrer

Dalton Trevisan: Os 97 anos de um grande ficcionista

Ao ‘Estadão’, o tradutor Roberto Muggiati traça um perfil do recluso autor do ponto de vista de sua amizade de 60 anos

Roberto Muggiati, Especial para o Estadão

14 de junho de 2022 | 05h00
Atualizado 14 de junho de 2022 | 15h50

Dalton Jérson Trevisan completa 97 anos neste 14 de junho – dois dias antes do Bloomsday, ele que é fã ardoroso de James Joyce. Sou seu “amigo” desde as noites boêmias da Curitiba dos anos 1950. Tínhamos discussões homéricas, um verdadeiro Atletiba literário – ele tentando me convencer a ler Ulisses, eu tentando convencê-lo a ler J.D. Salinger. Ele tateou Nove Estórias. Ateu como eu, achou que havia um ranço religioso no zen-budismo de Salinger. Expliquei que zen-budismo não era religião, mas uma filosofia de vida antenada com o nonsense, o absurdo existencial. 

Deixei Curitiba para correr o mundo. Acabei lendo Joyce – Ulisses, partes do Finnegan’s, traduzi até Os Mortos para uma antologia de contos que editei. Vi também que o Dalton leu e absorveu o Salinger: num de seus contos mais recentes, ele cita a epígrafe do Nove Estórias, aquela charada zen “qual é o som de uma só mão batendo palmas?”. Confiram esse trecho do conto Marishka, do Desgracida (Record, 2010), parodiando a letra de You’re The Top, de Cole Porter: “Marishka transcende o tempo. É um diálogo de Platão, broinha de fubá mimoso, um poema de Rilke, o coração da alcachofra, girassol de Van Gogh, o cantiquinho da corruíra, um conto de Chekhov, o som de uma só mão que bate palmas.” E, igual ao autor de O Apanhador no Campo de Centeio, tornou-se um eremita, trancou as portas para a mídia numa defesa furiosa da sua privacidade. 

 Em 2011, de volta à cidade para participar de mais uma Oficina da Música, resolvi sair à caça do vampiro. Sua pequena casa no alto da Ubaldino do Amaral fica na quina de um vasto gramado. Pelo vão das pilastras do muro vi ao longe um homem pilotando um cortador de grama. A casa não tinha campainha, gritei “Dalton! Dalton!” várias vezes – e não é que ele apareceu? Abriu o portão da rua e me deixou avançar um metro para dentro do alpendre que antecede a porta da casa. E ali ficamos de pé conversando – como fazíamos há 50 anos nas calçadas da noite – por quase uma hora. Não tinha cadeira por perto, não me ofereceu sequer um copo d’água. Dalton comentou uma matéria recente minha no  – o caderno cultural da Gazeta – sobre Otto Maria Carpeaux. Contou-me que Otto foi o único crítico que falou mal do seu Novelas Nada Exemplares, por achar equivocadamente que Dalton fosse o autor de um texto contra ele no Joaquim, a revista literária curitibana do final dos anos 1940.

Conheci Dalton na redação da Gazeta do Povo, onde eu trabalhava. Ele ia lá ouvir histórias do Mario de Melo Leitão. Corpulento, com feições porcinas que faziam jus ao sobrenome, era um protético dentário com alma de cronista, saudado como o “Rubem Braga curitibano”. Sua vivência boêmia nos tempos de estudante no Rio deu caldo às melhores Novelas Nada Exemplares do Dalton. Segundo as más línguas – e em Curitiba elas abundam –, Dalton se desinteressou do Mário depois que a fonte secou. Desminto essa versão. Foi o Mário quem, numa recaída moral, se deixou sequestrar pelo avião da campanha do general Juarez Távora, que disputava a Presidência da República em 1955 com JK.

Com a roupa do corpo, sem sequer uma escova de dentes, Mário embarcou numa maratona cívico-etílica que só o devolveria a Curitiba depois de três meses de comícios em lugares deste Brasil que ele jamais se lembraria de ter passado.

Minha rodada de conversações com o Dalton encerrou-se no Rio em 1960, eu já a caminho de uma bolsa de estudos em Paris. Fomos almoçar no Lucas, restaurante da Avenida Atlântica com atmosfera de brasserie alemã, toalhas e cortininhas xadrez vermelho e branco. Pois não é que o Dalton pinçou justamente do cardápio o acepipe que Leopold Bloom come no café da manhã em Ulisses, rins de carneiro grelhados?

Nossa afinidade tem muito a ver com o jornalismo. Dalton é um escritor com alma de repórter. Do primeiro conto até o último, ele acompanhou a evolução da cidade, cuja qualidade de vida não é lá tudo isso que cantam. Curitiba cresceu de 150 mil habitantes em 1950, para os três milhões atuais da Grande Curitiba, com seus 26 municípios que, numa visão “daltesca”, se assemelhariam a 26 pragas bíblicas da degradação urbana. 

Com seu faro de repórter, acompanhou as transformações da cidade, registrando toda a loucura da periferia, com seus viciados em crack e suas meninas da vida, anti-heróis e anti-heroínas esmagados entre a truculência policial e a violência do tráfico. 

Os anti-heróis de Dalton são unidimensionais apenas na aparência. Ele mesmo os analisou nesta cáustica autocrítica em Quem Tem Medo do Vampiro?: “Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João, a mesma bendita Maria, peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens. Aqui o eterno João: ‘Conhece que está morta.’ Ali a famosa Maria: ‘Você me paga, bandido’”.

Sua escrita é ao mesmo tempo fragmentada e fluente, rica em sugestões e alusões. Há pouco tempo, sugeri que se instituísse em 14 de junho o Daltonsday, espécie de Bloomsday curitibano, percorrendo os locais mencionados em seus contos. Um de seus fetiches é “a Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo”, cenário do conto Debaixo da Ponte Preta, uma fina paródia do filme japonês Rashomon: “Na noite de 23 de junho, Ritinha da Luz, com 16 anos, solteira, prenda doméstica, ao sair do emprego, dirigiu-se à casa de sua irmã Julieta, atrás da Ponte Preta. Na linha do trem foi atacada por quatro ou cinco indivíduos, aos quais se reuniram mais dois. Então violada por um de cada vez e abandonada entre as moitas. Seu choro atraiu um guarda-civil, que a conduziu até a delegacia”.

O ponto da Marechal Floriano onde ficava o sórdido bar Buraco do Tatu seria outra parada no roteiro: “Garçom do Buraco do Tatu, trabalhava até horas mortas; uma noite voltou mais cedo, as duas filhas sozinhas, a menor com febre. João trouxe água com açúcar e, assim que ela dormiu, foi espreitar na esquina. Maria chegava abraçada a outro homem, despedia-se com beijo na boca. Investiu furioso, correu o amante. De joelho, a mulher anunciou o fruto do ventre”. 

O crítico do Boston Globe Robert A. McLean escreveu: “O dom de Dalton Trevisan é a habilidade de escolher e destacar um único momento, um lampejo, poucas linhas de diálogo, e projetar artisticamente esse microcosmo de vida”. Esta observação me leva a uma comparação com a fotografia de Henri Cartier-Bresson, mestre na arte de congelar para sempre um instante de vida.

Nem incidentes de sua própria vida escaparam ao crivo de Dalton. Durante muito tempo, ele foi infernizado por uma seita que tinha seus cultos animados por um rock heavy metal ensurdecedor. Registrou em Lamentações da Rua Ubaldino: “No princípio era o silêncio na Rua Ubaldino, eis que o número 666 da Igreja Central Irmãos Cenobitas ergueu cartazes anunciando sinais e prodígios, não a flauta doce e harpa eólia para louvar o Senhor, mas a caixa de ressonância da buzina do Juízo Final e o amplificador dos agudos desafinados de Gog e Magog, além da mão esquerda não saber o que faz a direita, as duas juntas rompem no batuque iconoclasta do bombo, nunca tal se viu na Rua Ubaldino de hospital escola gente calada”.

Passado o terror cenobita, instalou-se nos últimos anos na casa vizinha da Amintas de Barros, uma sauna gay com música de discoteca. 

Depois de insistentes queixas, o escritor reconquistou seu direito sagrado ao silêncio. Não peço desculpas pelo clichê, adoro clichês, como a frase de Leon Tolstoi: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Dalton seguiu à risca.

Nos últimos meses, círculos culturais de Curitiba iniciaram um movimento para a indicação de Dalton Trevisan ao Prêmio Nobel de Literatura. Já imaginaram? O primeiro Nobel para um escritor brasileiro entre os caninos do Vampiro de Curitiba?

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