Royal Shakespeare Company
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Curso explica a atualidade das peças de Shakespeare

Professor José Garcez Ghirardi demonstra as semelhanças da época em que o Bardo viveu com o século 21

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 06h00

Como podem as peças de William Shakespeare, escritas há mais de 400 anos, ainda despertarem paixões nas plateias do mundo inteiro? Desde o ano passado, mais de uma dezena de montagens, releituras e espetáculos inspirados na obra do Bardo estrearam nos palcos paulistanos, e clássicos como Romeu e Julieta, Macbeth e Hamlet continuam sendo referenciados, seja na academia, seja na cultura pop. O professor José Garcez Ghirardi, que ministra o curso Amor e Política em Shakespeare, explica como um autor pouco prolífico (por volta de 40 peças são escritas por ou atribuídas a Shakespeare) se tornou uma das forças literárias mais influentes da humanidade.

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“Shakespeare fala de um mundo de sujeitos modernos em uma estrutura medieval. Hoje nós somos sujeitos pós-modernos vivendo em instituições modernas”, afirma Ghirardi em entrevista ao Estado. “No mundo medieval, as instituições solicitavam que as pessoas abrissem mão de seus desejos. As virtudes medievais são negativas: castidade, continência, pobreza, humildade.” O professor explica que as personagens shakespearianas se constituem a partir justamente do desejo: Romeu, Julieta, Macbeth e outros têm desejos que vão contra as instituições vigentes na época. 

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As peças do Bardo são atuais porque, assim como na Inglaterra elizabetana havia um descompasso entre o que o indivíduo queria e o que a sociedade exigia dele, hoje também vivemos uma situação semelhante. “As instituições modernas dizem que, se eu me submeter a elas, terei uma autonomia ampliada. Mas, para isso, preciso seguir regras durante um tempo”, diz o professor, exemplificando como a escola demanda a atenção das crianças por anos para que elas possam ser livres para decidir seus rumos após o término desse período. “Hoje é muito difícil as pessoas aceitarem fazer algo que não estão afim. Essa relação marca uma ruptura na pós-modernidade muito parecida com a ruptura da modernidade para a Idade Média”, conclui Ghirardi. 

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Outra questão contemporânea, a polarização política, seria entendida como natural por Shakespeare, de acordo com o estudioso. “Um cara que escreveu Macbeth entende perfeitamente o quão longe pode te levar o desejo pelo poder. Ele vê, como Maquiavel tinha apontado, que tanto na política quanto nas relações amorosas, os homens, para conseguir o que querem, mentem descaradamente e aqueles que acreditam nas lorotas deles se dão mal”, acrescenta.

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Quanto ao amor, se Shakespeare retrata em suas obras um sentimento visceral e profundo, hoje as relações sentimentais efêmeras que surgem no mundo virtual parecem muito distantes do que ocorria no século 16. Mas não são tão diferentes assim, segundo Ghirardi. “No final de Muito Barulho por Nada, o Benedict fala: “Man is a giddy thing”, ou seja, o ser humano é algo que muda o tempo todo. Shakespeare entenderia essas relações fugazes e superficiais embora não tivesse noção de redes sociais.”

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O curso Amor e Política em Shakespeare ocorre às quartas-feiras de maio, às 19h30, até 23/5, na livraria Blooks, e consiste em quatro encontros que destrincham a atualidade do Bardo nas peças Romeu e Julieta, Muito Barulho por Nada, Macbeth e Hamlet, partindo do livro O Mundo Fora de Prumo (ed. Almedina, 2011), do professor José Garcez Ghirardi.

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