Câmara Brasileira do Livro
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Curador do Jabuti renuncia depois de críticas por compartilhamento de informações falsas

Pedro Almeida causou polêmica no meio editorial ao divulgar informações incorretas sobre a pandemia em seu perfil nas redes sociais; grupos pediram seu afastamento

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2020 | 18h03
Atualizado 27 de maio de 2020 | 18h34

O curador do Prêmio Jabuti, Pedro Almeida, renunciou ao cargo nesta quarta-feira, 27. O jornalista havia sido criticado pelo meio editorial depois de ter publicado informações falsas sobre a pandemia do novo coronavírus no domingo, 24.

Depois de intensos debates nas redes sociais, inclusive abaixo-assinados que reuniram mais de 8 mil adesões, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o Jabuti, acatou o pedido de demissão de Almeida. "A Câmara agradece seu trabalho e contribuição para o prêmio durante a edição passada, em uma atuação reconhecida por todos", diz uma nota oficial.

Almeida causou polêmica neste domingo, 24, ao escrever um post em seu perfil no Facebook em que minimizava as mortes pelo coronavírus. Editor da Faro, ele começou o texto com a frase "Alguém está mentindo para você" e passou a questionar os números da covid-19 e a comparar o número de mortes este ano e no ano passado. Ele apagou o post quando a repercussão negativa começou, dizendo que fez isso motivado pela "patrulha".

Na segunda, 25, ele fez nova postagem em que pedia desculpas pelas informações erradas que compartilhou e fazendo uma "retratação".

Diversos escritores, editores e editoras também usaram as redes sociais para mostrar insatisfação sobre o posicionamento do jornalista, mesmo após a retratação.

"O posicionamento de Pedro Almeida é incompatível com a responsabilidade do curador de um prêmio que celebra a produção científica brasileira, bem como a obra de escritoras e escritores que hoje se encontram vulneráveis à Covid-19", diz uma das petições online, criada pelo jornalista Afonso Borges, e assinada e divulgada por nomes como Milton Hatoum, Ricardo Lísias, Verônica Stigger, Sérgio Rodrigues, Lira Neto,  e outros.

Um dos grupos mais ativos, pedindo o afastamento de Almeida do Jabuti, foi o Coletivo Virginia, composto por 213 mulheres que atuam no mercado editorial. 

"Pela memória de Sérgio Sant’Anna — ganhador não de apenas um, mas de quatro prêmios Jabuti — e de outros grandes expoentes do mercado editorial, como Fernando Py, Olga Savary, Aldir Blanc, personificando aqui, em conjunto, as 24.512 vidas brasileiras ceifadas pelo novo coronavírus (Covid-19), chamamos a Câmara Brasileira do Livro (CBL) a reavaliar sua postura diante das declarações levianas e desumanas emitidas pelo atual presidente do Conselho Curador do Prêmio Jabuti em suas redes sociais", diz uma carta divulgada pelo grupo.

A CBL havia lamentado as declarações de Almeida, mas decidiu por não afastá-lo num primeiro momento.

"Na destrambelhada tentativa de justificar-se, em um primeiro momento, o presidente do Conselho Curador tenta desqualificar os que se sentiram ofendidos por suas declarações, contra argumentando serem ressentidos que tiveram originais recusados por sua editora, o que coloca sob suspeição a neutralidade na condução do prêmio. Meros equívocos ou práxis? Em quaisquer dos casos, claro está que o prestígio e legitimidade do Prêmio Jabuti está em risco", prossegue a carta.

"Eu acho que é uma vitória do livro, do mundo do livro, das pessoas do livro, das mulheres do livro", disse a editora da Nós, Simone Paulino, ao Estadão. "Uma vitória de quem está nessa que é uma das últimas trincheiras civilizatórias que temos neste tempo de barbárie. Representatividade institucional e simbólica é uma coisa muito séria. Quando se ocupa um lugar de destaque na representação de um grupo de pessoas, é preciso ter responsabilidade, decoro, um olhar justo e honesto sobre cada palavra pronunciada. Do mesmo jeito que um escritor pesa cada palavra que coloca em um livro, um curador do maior prêmio literário do País tem que saber usar as palavras justas em qualquer manifestação pública.”

Procurado pela reportagem, Pedro Almeida não quis se manifestar.

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