George Ruhe/The New York Times
George Ruhe/The New York Times

Crítico literário Harold Bloom morre aos 89 anos

Apesar de sofrer muitas críticas ao longo da carreira, Bloom era o mais celebrado crítico literário americano

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2019 | 17h19
Atualizado 14 de outubro de 2019 | 19h27

O crítico literário norte-americano Harold Bloom morreu aos 89 anos em um hospital em New Haven, de acordo com informações da sua esposa, Jeanne, para agências internacionais. Jeanne disse que o professor de Yale estava em condições deterioradas de saúde, apesar de continuar dando aulas.

Bloom ficou célebre ao emplacar diversos livros nas listas de mais vendidos, defendendo um cânone das letras americanas e também com estudos sobre nomes globais da literatura, como Shakespeare, Chaucer e Kafka. Ele deu sua última aula na Universidade de Yale na quinta, 10.

Apesar de sofrer muitas críticas ao longo da carreira, Bloom era o mais celebrado crítico literário americano, talvez do mundo, mesmo com muitas reclamações sobre o estado da literatura contemporânea.

Ele era o autor de A Angústia da Influência, O Cânone Ocidental e outras dezenas de livros. Bloom era conhecido pelos seus estudos de como os artistas eram influenciados e por seu criticismo da cultura e das teorias literárias modernas. Ele se denominava um elitista orgulhoso. Outro motivo de orgulho era transformar questões acadêmicas complexas em textos acessíveis para o leitor geral.

O professor ainda  foi finalista do National Book Award e membro da American Academy of Arts and Letters. Uma enquete com os leitores encomendada pela Modern Library apontou O Cânone Ocidental como número 58 de uma lista com os melhores livros de não ficção em inglês do século 20.

Seu maior legado, porém, poderá sobreviver ao seu próprio nome: o título do texto que o lançou ao estrelato no mundo das letras, A Angústia da Influência. Bloom argumentava que a criatividade não era uma reverência grata ao passado, mas uma luta freudiana na qual artistas negavam e distorciam seus ancestrais literários enquanto produziam um trabalho que revelava uma dívida evidente.

Ele se referia à poesia na publicação de 1973, mas a “angústia da influência” passou a significar como os artistas de qualquer tipo respondem a suas inspirações. A teoria de Bloom foi debatida um sem fim de vezes, parodiada e desafiada, inclusive pelo próprio. O título do texto entrou na cultura ocidental de maneiras que o crítico nunca imaginaria ou mesmo desejaria, como em uma manchete do The New York Times que dizia “Jay-Z confronta a angústia de ser influente” ou como a banda de rock canadense que se nomeou Anxiety of Influence.

O mais novo de cinco filhos, Harold Bloom nasceu em 1930 no East Bronx, em Nova York, de pais judeus ortodoxos que nunca aprenderam a ler inglês. Sua jornada literária começou com a poesia iídiche, mas ele logo descobriu o trabalho de Hart Crane, T.S. Eliot, William Blake e outros poetas. Ele afirmava que conseguia ler mil páginas de uma vez quando era mais jovem. “O senso de liberdade que eles promovem”, escreveu sobre seus livros favoritos, “me liberaram para uma exuberância primitiva”.

Ele se formou em 1951 na Cornell University, onde estudou com o celebrado crítico M.H. Abrams, e viveu na Inglaterra com uma bolsa Fullbright, em Cambridge. Depois do doutorado em Yale em 1955, em Connecticut, ele se juntou ao departamento de inglês da universidade. Bloom casou-se com Jeanne em 1958, com quem teve dois filhos.

Nos anos 1950, ele se opôs ao rígido classicismo de Eliot. Mas ao longo das décadas seguintes, Bloom condenou o “afrocentrismo”, o feminismo, o marxismo e outros movimentos que ele classificava como a “Escola do Ressentimento”. Ele dizia não gostar dos livros de Harry Potter e da poesia slam, e ficou publicamente bravo quando Stephen King recebeu um National Book Award honorário. Ele também classificou como “pura correção política” o Prêmio Nobel de Literatura para Doris Lessing, autora do clássico feminista O Carnê Dourado.

Em uma entrevista ao Estado em 2013, Bloom disse que três ciganas, em três países diferentes, leram sua mão e previram que ele viveria 89 anos, 3 meses e 11 dias. Bloom morreu aos 89, 3 meses e 3 dias. “No fim das contas”, ele disse na ocasião, “o que eu faço é salvar as aparências, no sentido mais decente da palavra. É tentar preservar a continuidade da literatura e do pensamento do Ocidente”. / COM AGÊNCIAS

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