Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Crítica: Novo livro de Don DeLillo é um romance de catástrofe com matizes apocalípticas

Em 'O Silêncio', ambientado em 2022, dois casais abastados assistem juntos ao Super Bowl quando a energia elétrica misteriosamente cai no mundo inteiro

Dwight Garner, The New York Times

14 de outubro de 2020 | 10h00

Num certo do dia do século passado, um colega do The New York Times Review, D. J. R. Brucker, conhecido como Don, perambulava pelo meu cubículo. Ele era muito alto, ligeiramente encurvado, tinha mãos e pés enormes e estava na lista dos inimigos de Nixon. E estava visivelmente inquieto. Apontou para a sua direita. “Se eu tiver de ler mais duas mil palavras para a resenha de um livro de John Updike vou me atirar daquela janela”, disse ele. E concluiu com algumas palavras obscenas.

Don DeLillo, ao contrário de Updike, não nos deixou estupefatos com uma superprodução literária. Seu novo romance, O Silêncio, seu 17º desde que o primeiro, Americana, foi publicado há quase 50 anos. Mas no caso dele sinto um pouco o que meu antigo colega sentia com relação a Updike: tenho um curioso desinteresse em ler (ou analisar) um livro de reflexão minuciosa sobre sua obra. Estou escrevendo este artigo perto da minha própria janela.



O novo livro de DeLillo é um romance de catástrofe com matizes apocalípticas. É um romance de Stephen King adaptado por Philip Glass em vez de Chuck Berry. Um avião de Paris para Newark, Nova Jersey, faz uma aterrissagem forçada. Dois dos principais personagens sobrevivem ao acidente. A rede elétrica parou de funcionar no mundo inteiro. Alienígenas? Os chineses? O Coringa? O movimento conspiracionista?

DeLillo, que previu um “acontecimento tóxico transmitido pelo ar” em Ruído Branco (1985) é um escritor com experiência em cenários deste tipo. Com a eletricidade cortada, um homem diz uma frase que poderia aparecer em qualquer dos livros dele: “A semiescuridão. Está na mente das massas. A pausa, a sensação de ter vivido isto antes. Algum tipo de colapso natural ou intrusão estrangeira. Uma sensação de advertência que herdamos dos nossos avós ou bisavós, ou anteriores a eles. Pessoas em meio a uma grave ameaça”.

O Silêncio está ambientado no futuro, num domingo de Super Bowl em 2022. Os apostadores tomam notas: DeLillo prevê que os Titans vencerão os Seahawks. Dois casais abastados, velhos amigos, pretendem se reunir para assistir ao jogo na super tela da sua TV num apartamento em Manhattan.

A boa notícia sobre O Silêncio é que é um livro interessante e que, aos 83 anos, DeLillo continua tão instigador como sempre em termos da sua sintaxe. Sou atraído por histórias de voos fatais e sinais do fim do mundo e DeLillo na maior parte das vezes me deixa fascinado.

A má notícia, além de excessivas caixas pretas, malhas pretas de gola rolê, e da pretensão que é a marca do fim da carreira de DeLillo, é que O Silêncio nos primeiros dois capítulos é visto como um romance de catástrofe. Com 117 páginas, acaba antes de começar. É como se um cineasta colocasse dois casais dentro de uma casa de fazenda distante para passarem o fim de semana, cortasse a eletricidade, soltasse os cachorros do inferno e em seguida rodasse os créditos.

“Metade do mundo está refazendo suas cozinhas, a outra metade está passando fome”, escreveu ele em Zero K (2016). Os personagens neste livro estão reformando sua cozinha. O jogo é um fórum para o escritor abordar um tópico familiar: os caprichos do consumo de massa.

O jogo transcorre no que um personagem chama de Benzedrex Nasal Decongestant Memorial Coliseum. Diane, uma médica, diz, referindo-se ao seu marido: “Max não consegue parar de assistir. Ele é um consumidor que não tem nenhuma intenção de comprar alguma coisa. Centenas de comerciais nas próximas três a quatro horas”.

Diane e Max aguardam Jim e Tessa, que estão vindo de Paris. Seu avião perdeu potência em pleno voo, como ocorreu com o avião de William Hurt, depois da queda de um satélite nuclear sem controle, no filme de Wim Wenders Até o Fim do Mundo.

Até a aterrissagem forçada, DeLillo é um observador urbano dos rituais de voo. Jim e Tessa ocupam assentos na primeira classe e discutem a pronúncia da palavra “scone”. E ele fala sobre como  ninguém lembra o que diz nos aviões. “Muito do que as pessoas falam entre si parece ser um processo automático, observações geradas pela natureza mesma da viagem aérea”.

O comentário de DeLillo me trouxe à mente uma frase do livro de Elif Batuman, Os Possuídos. A viagem aérea é como a morte: tudo é levado de você”. Jim e Tessa sobrevivem à aterrissagem de emergência apenas com danos sem importância; e conseguem caminhar através de ruas escuras, algo implausível, para chegar à festa do Super Bowl.

O Silêncio foi concluído por DeLillo antes do surgimento da covid-19, mas se ajusta psicologicamente ao nosso momento atual. Segundo escreve, “estamos todos acompanhando um ao outro através da insônia das massas deste tempo inimaginável”.

Um quinto convidado na festa do Super Bowl é Martin, um ex-aluno de Diane. É um especialista em física de Einstein e acrescenta outra nota, de baixo cantante, ao coro pop da alienação. “Este universo se tornou nosso”, diz ele falando de Einstein. “Buracos negros. O ponto de não-retorno. O relógio atômico. Vendo o invisível”.

Martin roda o pensamento de Einstein como se fosse um espeto  em meio às chamas gêmeas da sua imaginação. A epígrafe deste romance vem de Einstein: “Não sei com que armas a Terceira Guerra Mundial será travada, mas a Quarta será com paus e pedras”.

O Silêncio é um romance menor, curiosamente sem atritos, de DeLillo. Em termos da sua carreira não é uma catarata, mas um spray. A posteridade será gentil com ele, mas prestará relativamente pouca atenção a esta produção.

O romance funciona como uma espécie de verificação de disco do que está alojado em nossos pensamentos que fervilham no meio da noite. A existência é um estoque amaldiçoado naquilo que investimos, sugere o autor. Mas ele nos lembra que: “A vida pode ser tão interessante que esquecemos de ter medo”.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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