Nilton Fukuda/ Estadão
Nilton Fukuda/ Estadão

Crítica: Eva Furnari continua a surpreender os leitores e também a si mesma

Pela primeira vez, ela apresenta ao seu público uma obra recheada de contos autônomos que funcionam sem suas marcantes ilustrações

Bia Reis, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2019 | 06h00

Tantãs não é apenas mais um livro entre os quase 70 que Eva Furnari publicou desde 1980. É um marco no amadurecimento do texto de uma das mais importantes autoras da literatura infantil brasileira, que nasceu ilustradora e se tornou escritora. 

Neste lançamento, Eva apresenta aos leitores pela primeira vez contos autônomos, que funcionam sem suas marcantes – e deliciosas – ilustrações.

Eva estreou na literatura com a coleção Peixe Vivo, idealizada pela Editora Ática para leitores não alfabetizados. Sem texto, os quatro livros tinham na imagem sua força narrativa. Ainda no início do anos 1980, passou a colaborar como ilustradora para diversas publicações e criou as tirinhas da Bruxinha, personagem que conquistou as crianças e pela qual ainda hoje é reconhecida.

Com o tempo, as palavras foram ganhando espaço no trabalho de Eva até chegarem a ter um peso equivalente ao das imagens. Em Felpo Filva, de 2006, texto verbal e visual se inter-relacionam na construção da história do pessimista coelho poeta.

Em Tantãs, Eva domina o texto como há muito tempo domina as imagens. E ele funciona sozinho. Não que as ilustrações sejam dispensáveis. Mas antes Eva pensava em como articular as duas linguagens. Agora, se debruçou sobre as palavras como nunca. 

Em textos curtos – às vezes bem menores do que uma página –, a autora de Marilu e Drufs mostra sua habilidade em contar histórias e tecer imagens surpreendentes. 

A precisão está nas palavras que escolhe, na verossimilhança que cria mesmo trocando os substantivos de lugar. Eva nos faz acreditar que é possível, sim, entrar numa loja de armarinho e comprar “20 minutos de flanela azul” ou “50 metros quadrados de linha de pescar peixe azul” para costurar um pijama com botões amarelos que ajudam a parar de fazer xixi na cama.

A autora, que encanta sucessivas gerações com personagens inesquecíveis, podia, aos 70 anos, ter mantido sua receita. Afinal, anos a fio, continua vendendo e arrastando crianças e adultos em seus lançamentos – nos dois eventos que a Moderna fez em São Paulo para lançar Tantãs, autografou livro após livro por quase quatro horas. Mas Eva gosta de surpreender: os leitores e a si mesma.

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