Crítica: Antologia de autores argentinos é cartão de visita acanhado

'Contos em Trânsito', publicado pela editora Alfaguara, oferece conta-gotas da produção literária da Argentina

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 16h00

Contos em Trânsito é, em primeiro lugar, uma contribuição para o intercâmbio entre as literaturas brasileira e argentina. A publicação concomitante de uma coletânea argentina de contos no Brasil e de uma brasileira na Argentina soa simpática; segundo os editores da Alfaguara, o objetivo é “celebrar uma amizade e dar conta da riqueza conformada por suas notáveis singularidades”. 

Perguntar-se sobre os critérios de uma antologia é sempre revelador. A última coletânea argentina publicada no Brasil data de 2010, a cargo da Iluminuras: Os Outros – Narrativa Argentina Contemporânea. O escritor Luis Gusmán, seu organizador, reuniu 28 escritores que seriam “os outros” em relação a Borges, Cortázar, Saer e Puig. Dizia ele, no prefácio, que “é possível que uma antologia só se justifique pelo fato de apresentar-se como um testemunho para os dias que virão daqueles escritores que vão desaparecer e daqueles que persistirão.”

Tanto no caso da antologia da Iluminuras quanto no da Alfaguara, a maior parte dos autores é inédita em livro no Brasil, à exceção de Martín Kohán e Alan Pauls em Os Outros e Claudia Piñero e Eduardo Sacheri em Contos em Trânsito. Assim, as duas coletâneas funcionam como cartões de visita. No caso da Iluminuras, bastante adequado, pois ela tem sido tradicionalmente a porta de entrada de autores argentinos no Brasil, como Piglia, Gusmán, Alan Pauls, etc.

Já a atual iniciativa da Alfaguara – presente em 20 países, com um alcance estimado de 400 milhões de leitores e detentora de um catálogo rico e diverso – é bem outra. Lê-se no prefácio, sobre a Alfaguara brasileira e a Argentina, que “reuniram sob um mesmo selo, durante as últimas décadas, autores contemporâneos representativos e fecundos de ambas as culturas”. Em seu próprio país, seria preciso acrescentar. 

O intercâmbio que Contos em Trânsito propõe, de certa forma, é fruto de uma política editorial isolacionista. Autores que há anos figuram no catálogo da editora e cuja publicação de Contos em Trânsito não traz nenhuma menção a ser mais que um gesto isolado.

Um desinteresse que se espelha no ineditismo brasileiro dos contos de Fogwill (1941-2010), autor de um dos melhores romances sobre a Guerra das Malvinas, recentemente falecido. De toda forma, é bom ver finalmente em português um conto seu, Dois Fiozinhos de Sangue – sobre a experiência de andar de táxi em Buenos Aires, com motoristas que sangram. Certamente, sua leitura vai produzir no leitor a necessidade de continuar conhecendo o autor.

Entre os jovens, está o portenho radicado em Montevidéu Manuel Soriano (1977), com seu Cabine Dupla, um conto de estrada com um soturno motorista brasileiro, no qual se consegue manter o suspense e um clima que remetem ao Hemingway de The Killers. Há ainda, da velha guarda, Hebe Uhart (1936), cujo conto Leonor traz uma visão delicada sobre a educação sentimental no Chaco argentino e a migração à cidade grande. 

Embora a aparição de Contos em Trânsito deva ser celebrada, mostra-se bem menos interessante do que à primeira vista, por ser tão acanhada. Tal produção, traduzida em conta-gotas, mostra que um dos maiores grupos editoriais que publicam literatura de língua espanhola no Brasil parece ignorar a importância do seu papel cultural de difusão das literaturas latino-americanas no continente. Sobretudo é marca viva de que os intercâmbios culturais entre Brasil e Argentina são inexplicavelmente muito, muito acanhados. 

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