Cortázar, um audaz libertador das formas

A lição que o autor deixa ao escritor latino-americano talvez seja a da ruptura e da libertação formal - e da recusa a compactuar com ordens externas, extemporâneas e arbitrárias

Julián Fuks, Especial para O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2014 | 02h06

Num ensaio de Julio Cortázar de meados do século passado, o escritor parece oferecer, de modo um tanto furtivo, um contrapeso possível para estimar seu legado. Propondo-se a falar da Situação do Romance, elogiava com alarde os romancistas que décadas antes haviam se lançado numa direção inesperada, pregando o rompimento com as técnicas antiquadas do realismo, prezando a riqueza infinita da linguagem, realizando uma "audaz libertação das formas". Referia-se a Joyce, a Proust, a Woolf, a todos os que haviam devolvido à prosa uma "expressão mais imediata", "uma atitude poética", aos que haviam realizado o tão necessário "fuzilamento pelas costas de Descartes".

A si mesmo Cortázar não mencionava, por modéstia decerto, mas também porque acabava de iniciar sua carreira literária e ainda não se entregara ao ofício de romancista. Tinha já alguns bons contos rabiscados, estava prestes a surpreender Borges com a peculiaridade perfeita de seu Bestiário, mas seu romance absoluto, O Jogo da Amarelinha, o livro que obteria êxito automático e o alçaria à posição temporária de maior autor latino-americano, só viria a público treze anos mais tarde. Cortázar parecia, nesse instante, ainda ponderar qual seria sua contribuição pessoal à literatura, a essa imensa máquina de conquista verbal da realidade.

Em seus ensaios, já precocemente se insinuava sua capacidade de aliar à potência crítica um vigor estético, uma exuberância linguística posta a serviço do humor, da ironia, num perpétuo convite à cumplicidade. Insinuava-se também, e sobretudo, sua liberdade, o desembaraço de seus pensamentos quase erráticos, saltando da poesia de Keats ao suicídio de Artaud e mais tarde aos tangos de Gardel, enriquecendo cada assunto com inúmeras metáforas e anedotas de um gato chamado Adorno. Mais que para o raciocínio lógico, seu gosto parecia derivar para a associação insólita, tantas vezes iluminadora.

Em seus contos, sem se fazer menos livre, a liberdade ganhava ordem. Não a ordem das coisas exatas, embora ele desempenhasse tão bem a contenção necessária ao conto, a condensação extrema de tempo e espaço. Nos textos curtos de Cortázar, o que desponta é a suspeita de outra ordem mais secreta e menos comunicável - território da excepcionalidade, onde os desvios falam mais alto do que as leis da razão. Na estranha história de um homem que vomita coelhos, ou de um congestionamento interminável, o acontecimento se irradia de tal modo que vai se tornar, como diz o autor em outro ensaio, "o resumo implacável de certa condição humana, ou o símbolo candente de uma ordem social ou histórica".

Foi no romance, entretanto, que Cortázar desferiu seu golpe mais forte contra a realidade cartesiana e o realismo óbvio. No mosaico em dez passos de O Jogo da Amarelinha, associavam-se com extrema soberania as referências de uma época ardorosa: o questionamento da autoridade, a sexualidade desvelada, a ebulição cultural das vanguardas. O jogo em questão é o jogo do acaso e da aleatoriedade. No passeio de Oliveira pelos caminhos da loucura e da degradação, o que se revela é algo diferente, como diz Beatriz Sarlo: "o sem sentido e o absurdo que corroem toda pretensão de construir sentidos plenos".

A audácia desse romance talvez tenha sido mal interpretada. Exalta-se a possibilidade que Cortázar teria dado ao leitor de escolher o caminho que lhe agradasse: ler apenas a intriga ou entremeá-la às muitas citações, às digressões, aos comentários. Evidentemente a opção é falsa, não passa de provocação. Ali se ironizava, e ainda se ironiza, o leitor preguiçoso ou limitado, o que só se interessa pela história, pela dimensão factual. Ali se criticava a literatura convencional, imperante ainda em dias atuais, tão apegada ao regime da narração fácil e clara, ignorante de que a evolução das formas já há muito a fuzilou.

Cortázar era um escritor excêntrico, alguém poderia afirmar. Argentino radicado na Europa, sua versão diferia um pouco: "só descentrado aqui posso alcançar um centro, uma harmonia, mas ao custo de uma ruptura". A lição que Cortázar deixa ao escritor latino-americano, sempre descentrado ou excêntrico, talvez seja a dessa ruptura, dessa libertação formal - dessa recusa a compactuar com ordens externas, extemporâneas, arbitrárias, ordens que não sejam rigorosamente as suas. Eis talvez a dimensão de seu legado: muito mais que suas belas obras libertas das formas arcaicas, o exemplo maior de sua liberdade.

Julián Fuks é escritor, crítico literário e autor de Procura do Romance, entre outras obras

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