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Coquetelaria afetiva

Um livro de cartas expõe 40 anos de papo entre os escritores Murilo Rubião e Otto Lara Resende

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2017 | 03h00

Gosto de misturar pessoas. Empreitada temerária, admito. Tanto pode dar certo como acabar em desastre. Acontece, mas nem assim desisto, na esperança de que sejam compatíveis dois ou mais afetos meus. Chamemos de coquetelaria afetiva, guiada que é por ambição semelhante à da coquetelaria pura e simples, na qual a associação de bebidas, além de ressaltar as virtudes de cada uma, tenta criar uma terceira, não menos deleitável.

É nisto que penso, uma vez mais, ao terminar a leitura de Mares Interiores, recém-lançada coletânea da correspondência que dois ótimos escritores mineiros trocaram por mais de 40 anos, entre 1945 e 1991. 

Um deles, o contista Murilo Rubião, eu conheci bastante bem, pois sob seu doce e estimulante comando trabalhei, de maio de 1968 a maio de 1970, no Suplemento Literário por ele criado como encarte semanal do diário oficial de Minas Gerais. Com o outro, Otto Lara Resende, tive menos contato direto, o suficiente, porém, para sedimentar em mim enorme admiração pela pessoa e pelo escritor. 

Agora há pouco, ao fechar Mares Interiores, me dei conta de que, tendo convivido com um e outro, nunca os vi juntos, naquilo que, não tenho dúvida, teria sido um momento alto de minha coquetelaria afetiva. Resta-me o consolo de encontrá-los papeando no papel. 

Não é pouco. Em seu conjunto, observa Cleber Araújo Cabral, que organizou o livro para a Autêntica e a editora da UFMG, as cartas podem ser lidas, também, como romance de formação de dois escritores. Temperamentos diferentes, Murilo mais reservado, Otto exuberante, mas unidos, além da amizade vitalícia, pela mesma obsessão do texto interminavelmente trabalhado. 

Murilo, como se sabe, em toda a sua vida publicou apenas 51 contos, dos quais peneirou 33 para estar em livro, e até o fim, em 1991, relutou em dar qualquer deles por pronto e acabado. Nos meus anos no Suplemento Literário, eu o vi voltar a histórias antigas, mais de uma vez editadas, como O Ex-Mágico, e seguir varrendo lascas e serragem de uma perpétua carpintaria literária. 

Quanto a Otto, siderado pela necessidade de “despiorar”, como dizia, textos que o mais exigente leitor daria por irretocáveis, basta lembrar que ao morrer, em dezembro de 1992, ainda se debatia com o último capítulo de O Braço Direito – seu único romance, de 1963, que ele, de tanto reescrever, por pouco não transformou num outro livro. Ou transformou? Eis aí uma proposta de investigação para estudiosos da literatura: comparar os dois braços direitos de Otto Lara Resende. 

Já contei que meses antes de morrer ele me mandou um exemplar de O Elo Partido, coletânea de contos organizada após muita insistência do amigo Dalton Trevisan, e que, ao folheá-la, ainda fresca das máquinas, me deparei, nas entrelinhas de Mater Dolorosa, com intervenções garatujadas no afã de aperfeiçoar a escrita.

A correspondência dos dois escritores registra a estreia de Murilo, em 1947, com os contos de O Ex-Mágico, livro que Otto, em seus começos mais inclinado a ser crítico do que ficcionista, examinou com lente fina numa carta. Em outra, mais adiante, ele deixa saber como vai nascendo seu primeiro livro, também de contos, O Lado Humano, que, lançado em 1952, até hoje não teve reedição, em grande parte por padecer o autor de severa inapetência editorial. 

Parêntese ilustrativo de um lado humano de Otto Lara Resende. Em 1979, no que terá sido um raro descuido, ele me deu um exemplar desse livro, para em seguida arrepender-se: até o fim da vida, pelejou para que eu lhe devolvesse o presente. No escritório que tinha perto de casa, na Gávea – “garçonnière literária” onde regalar-se com Madame Bovary, Anna Kariênina ou Thérèse Desqueyroux, brincava eu, “cela de monge pobre”, contrapunha ele –, Otto mais de uma vez mostrou-me um exemplar cheio de emendas, horrendamente encadernado em tecido jeans, prometendo que seria meu “em breve”, com a condição de que eu restituísse desde já o que me dera em 1979. Pois sim...

As cartas de Mares Interiores registram também os meses em que Murilo Rubião e Otto Lara Resende dividiram apartamento em Copacabana, de maio de 1949 a janeiro de 1950, quando o primeiro retornou (ou “regrediu”, disse maldosamente um amigo) a Belo Horizonte. Otto lá estava instalado e não acolheu Murilo sem antes advertir, com graça, para os riscos de “avacalhamento da amizade” numa coabitação mal administrada. 

Já Murilo, também com bom humor, duas décadas depois me falou da angústia que lhe dava conviver com um companheiro cujas obrigações incluíam redigir um texto de bom tamanho a cada fim de mês. Durante 29 dias, Otto o atormentava com lamúrias: era um incapaz, uma fraude prestes a ser desmascarada. Na última hora, sentava-se à máquina e desovava, lampeiro, a sua quota mensal de prosa – ainda por cima, lembrava Murilo, numa datilografia de dez dedos e nenhum erro.

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