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Convidado para a próxima Flip, Bill Clegg prossegue em novo livro a saga de recuperação das drogas

Escritor foi indicado para importantes prêmios

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2016 | 03h00

NOVA YORK  - Escreva sobre o que conhece, é o clichê do conselho a aspirantes a romancista. No caso de Bill Clegg, poderiam esperar que ele estreasse na ficção escrevendo sobre o mundo editorial de Nova York, suas festas e pequenas traições. Ou a vida dupla que levou como um dos mais bem-sucedidos agentes literários da cidade e assíduo frequentador de bocas de crack. Mas ele se deslocou para longe das multidões insensatas. Clegg é conhecido no Brasil por dois volumes de memórias, Retrato de Um Viciado Enquanto Jovem (2011) e Noventa Dias (2013), em que narra sua descida ao inferno da dependência de drogas e o começo da recuperação. Uma recuperação que incluiu uma volta à cidade natal, em Connecticut, e inspirou o recém-lançado primeiro romance, Você Já Teve Uma Família?.

O livro foi indicado para os dois mais importantes prêmios literários da língua inglesa, o Man Booker Prize, da Inglaterra, e o National Book Award dos Estados Unidos. Você Já Teve Uma Família? começa com uma tragédia na véspera de um casamento que consome vidas caras à protagonista, numa cidadezinha como a bela Sharon, onde o autor cresceu. A segunda parte da trama se passa do outro lado do país, na costa Noroeste do Pacífico. A trama se instalou na imaginação de Clegg quando ele escreveu a frase “Ela vai embora”. A protagonista parte, sim, e o romance não sofre de nenhum triunfalismo sobre a adversidade. É uma meditação quieta sobre escolhas, consequências e a busca pelo perdão. Como diz uma personagem na conclusão, “o que se espera de nós, é ficar aqui e cumprir o nosso papel”. Bill Clegg recebeu o Estado em sua agência literária, num edifício da Quinta Avenida.

Como você conciliou o trabalho de escrever o romance, ao longo de sete anos, com a rotina de tocar projetos dos seus autores que são seus clientes?

Não tive que fazer um esforço consciente ou deliberado. Desde o primeiro dos dois livros de memórias, o que eu escrevia me chegava como uma surpresa. No começo da minha recuperação, ainda no hospital, eu ainda experimentava o tipo de paranoia induzida por drogas, tinha dificuldade de distinguir memórias de fatos dos delírios. Então comecei a tomar notas para tentar formar algum sentido daqueles anos e esta foi a origem das memórias. Mas quis também visitar a pequena cidade onde cresci. Saí de lá com 21 anos, quando meus pais venderam nossa casa, e dei as costas para a cidade. De repente, eu tinha 35 anos e um olhar adulto sobre aquele lugar que me parecia tão triste, mas é, de fato tão bonito. Quando eu morava lá, havia cerca de 30 fazendas, hoje não há nenhuma, a valorização imobiliária transformou a cidade em lugar de fim de semana e férias para afluentes. Então, há essa tensão de classe, entre as famílias que foram deslocadas e os novos habitantes ricos para quem muitos trabalham. 

“Ela vai embora.” A frase abre o segundo capítulo sobre June, uma dos três personagens centrais. Por que diz que o romance partiu daí, depois da sua visita à cidade?

É um mistério para mim. Sabia que June não era dali, tinha que partir e haveria algum drama. E a cidade ia falar muito dela. Foi uma experiência que eu tive, como os rumores de cidade pequena se calcificam. Fui atropelado por um viciado em heroína, quando era garoto, ele perdeu o controle do carro e subiu na calçada. Eu quebrei dois braços, duas pernas e passei meses em recuperação. Até hoje, se você voltar à lanchonete local, vão dizer, ali é onde o Billy foi atropelado porque estava brincando no meio da rua. Então, depois da frase “Ela vai embora” passei um bom tempo escrevendo sobre as fofocas que faziam de June.

Como escolheu a estrutura do romance, em capítulos curtos e a trama contada por múltiplos pontos de vista?

A estrutura é o método e gênese do livro. As vozes iam chegando, era divertido mesmo escrever o que diziam. A personagem Edith, a florista, é um amálgama de muita gente que conheci crescendo. Fofoqueira, cheia de opiniões, julgadora, mas com profunda fluência sobre a história do lugar. Quando trabalho com autores que são meus clientes, eu recomendo não impor muitas expectativas narrativas no começo. Quando sento para escrever, o que me move é a curiosidade, não uma intenção. Por exemplo, joguei fora centenas de páginas escritas sobre a outra protagonista, Lydia, porque me dei conta de que ela não poderia falar tanto, era acostumada ao isolamento, então o que pensava sobre June devia ser narrado na terceira pessoa. Foi aí que a narrativa “clicou” e pude desenvolver melhor o terceiro personagem central, o jovem Silas.

Silas, o maconheiro que corta grama nas casas dos outros, é baseado em experiências comuns?

Sim, era o que eu fazia, o Silas não precisou de muita pesquisa. Ele foi criado com a mãe dura, e atormentado na escola. Sofre uma grande perda e não tem equipamento emocional para responder, a não ser pela maconha. Mas nenhum dos protagonistas é uma extensão da minha pessoa. Sinto montanhas de compaixão pelas duas mulheres também.

Um tema do romance é o perdão, algo que fez parte da sua trajetória de recuperação da dependência de drogas.

Sim, durante muito tempo, eu pensei que o objetivo era ser perdoado, já que decepcionei tantas pessoas. Quando comecei a ficar sóbrio, estava desesperado para me desculparem, mas compreendi que não era tudo. Passei dez anos sem falar com meu pai, um alcoólatra com muitos problemas, que me rejeitou como gay. Mas ele veio ao hospital, disse que tinha sido negligente e me pediu perdão. A partir dali, passamos os 11 anos seguintes, até a morte dele, em julho passado, muito próximos. Entendi que, se não perdoasse meu pai, não ia me aceitar. Meu pai morreu três semanas antes do lançamento do livro. Mas leu o manuscrito. “É um livro desgraçado de bom”, disse, o que se tratando de meu pai, era um elogio extravagante. Eu tinha tanta raiva. Exploro isso no romance. Há personagens que fazem mal ou são negligentes com outros e a raiva é também uma escolha. 

No capítulo final, a personagem Cissy reflete sobre a necessidade de seguir adiante apesar de tudo.

O livro começou com uma obsessão minha pelas diferenças entre as pessoas, questões de classe e privilégio. Os três principais personagens são de classes diferentes, mas vivem perda, arrependimento e perdão de maneira similar. A referência final ao oceano é uma forma de dizer que, diante de sua força, temos algo em comum na textura da vida. 

Mesmo nos Estados Unidos, um país com tradição de leitura, o livro sofreu com a revolução digital e a indústria enfrentou cortes. Como quem vive de representar autores, você se sente confiante?

Cresci numa casa isolada, numa cidade de 1.500 habitantes, gay numa família conturbada, sem referências sobre o resto do mundo. Os livros me mostraram o que era possível, encontrei outra família neles. Sem livros não teria partido para ter novas experiências e depois reencontrar minha família. Num mundo como o de hoje, onde os nossos problemas vêm de longe, toda parte, outras mídias contribuem. Mas nada substitui a experiência de ocupar a consciência do outro pela palavra escrita.

VOCÊ JÁ TEVE UMA FAMÍLIA?

Autor: Bill Clegg

Tradução: Rubens Figueiredo

Editora: Companhia das Letras (264 págs.,R$ 44,90)

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