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'Contos de Kolimá': O imperativo moral de contar a verdade por mais terrível que seja

Obra de Varlam Chalámov que começa a ser lançada agora no País traz 33 narrativas; os outros cinco volumes estão no prelo

André de Leones, Especial para O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2015 | 03h00

Em um pequeno “epílogo” à edição espanhola dos Contos de Kolimá, o tradutor Ricardo San Vicente traça uma diferença importante entre as literaturas de Varlam Chalámov e Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Lembremos que o autor de Crime e Castigo também amargou um período como prisioneiro na Sibéria, condenado sob a acusação de conspirar contra o czar Nicolau I, e que essa experiência nos foi contada em uma de suas obras-primas, Recordações da Casa dos Mortos. No entanto, San Vicente chama a nossa atenção para o fato de que, em Dostoiévski, os sofrimentos são encarados como “um caminho de purificação”, ao passo que Chalámov “observa em cada passo, em cada minuto, em cada sopro de ar do campo de trabalho, um degrau a mais no caminho da desumanização do homem”. 

Em vida, Chalámov era mais conhecido como poeta. Não é difícil perceber em seus contos uma carga lírica acentuada, que, no entanto, não camufla a crueza extrema do que é narrado. A pesquisadora Irina P. Sirontiskaia (que conviveu com o escritor em seus derradeiros anos de vida e assina o prefácio do primeiro volume) cita o próprio Chalámov: “É necessário e possível escrever um conto que seja indistinguível de um documento. (...) A nova prosa contemporânea só pode ser criada por pessoas que conheçam perfeitamente o próprio material”.

Os “documentos” são, assim, indistinguíveis do homem que os produziu e do que ele vivenciou na “escola negativa” que eram os campos de trabalhos forçados. Adentramos com ele a tarimba do oficial Naúmov para acompanhar um jogo de cartas que termina mal (em Na Fé), seguimos a trilha de um penhasco com dois detentos que procuram um cadáver a fim de lhe furtarem a camisa e as ceroulas (em De Noite), somos informados sobre como os prisioneiros mensuravam o frio em Os Carpinteiros (o pior é abaixo de 53 graus negativos, quando “o cuspe congela no ar”), vemos como o narrador assume a missão de contar a história que deveria ser de responsabilidade de outro escritor, morto nos campos, como que para honrá-lo (em O Encantador de Serpentes), lemos uma belíssima descrição da morte do poeta Óssip Mandelstam, outra vítima dos campos (em Xerez), e nos perdemos com o narrador nos labirintos da burocracia stalinista (em A Trama dos Juristas). 

São, ao todo, 33 narrativas, e em todas vislumbramos “esse embotamento da alma, esse frio espiritual”, o “frio cortante, aquele mesmo que transformava o cuspe em gelo no ar”, atingindo “a alma humana”. E, com isso, até para que pudessem sobreviver, os homens se viam obrigados a prescindir de qualquer esperança e a viver “como vivem a pedra, a árvore, o pássaro, o cachorro”, e, no entanto, mais apegados à vida e mais resistentes às intempéries do que eles.

Depois de sobreviver ao “chamado do Norte” e a fim de dar o seu testemunho, uma vez que, lá, tudo “o que lhe era caro se transforma em cinzas, a civilização e a cultura o abandonam no mais curto período de tempo”, Chalámov recobre com a verdade de suas palavras a vida nua daqueles desgraçados e a sua própria.

Não há, em suma, nada que se assemelhe a uma purificação nos Contos de Kolimá. Há, sim, o recrudescimento de tudo o que é espúrio e inumano, alimentado pela selvageria tanto da natureza, quanto dos indivíduos nela abandonados. O homem é gradativamente reduzido à animalidade mais básica, até se tornar um mero feixe de nervos, reagindo quase instintivamente ao que acontece ao redor. Para dar conta de tamanha obscuridade, só mesmo a clareza brutal, para não dizer brutalista, desse gênio literário.

Leia também a matéria sobre a edição de 'Contos de Kolimá' e trechos da obra 

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DO ROMANCE TERRA DE CASAS VAZIAS (ROCCO), ENTRE OUTROS

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