Ana Basbaum
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Conto de Clarice Lispector inspira monólogo com Sandra Pêra

À Procura de uma Dignidade traz a atriz no papel de uma mulher que reavalia sua vida

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

04 de agosto de 2021 | 08h55

Lançado por Clarice Lispector (1920-1977) em seu livro Onde Estivestes à Noite (1974), o conto À Procura de uma Dignidade sempre foi um dos favoritos da atriz, produtora e diretora carioca Ana Beatriz Nogueira que, após estrelar um solo baseado na obra da escritora, voltou a mergulhar nos contos e crônicas lançados por Lispector em mais de 20 anos de trajetória literária.

O conto foca um dia decisivo na vida de Sra. Jorge B. Xavier, uma mulher de classe média alta de 70 anos de idade e frequentadora de eventos culturais e sociais que se perde nos corredores do Estádio do Maracanã após perder o caminho para uma palestra.

Já fora dos corredores escuros do estádio, a personagem busca, desnorteada, o caminho de casa e, a muito custo, chega ao lar onde reavalia sua vida, sua sexualidade e intensifica sua paixão platônica pelo cantor Roberto Carlos. “Sempre adorei esse conto, e ele andava perdido nas prateleiras da minha cabeça. Revisitando a obra da Clarice, fui pensando em como seria bacana isso no teatro”, diz Nogueira, que imediatamente consultou o ator, diretor e dramaturgo carioca Leonardo Netto em busca de uma adaptação.

“O Leonardo escreve muito bem, e era preciso um texto muito delicado para adaptar essa história para a primeira pessoa”. Assim nasceu o espetáculo homônimo que estreia online no dia 7 de agosto estrelando a atriz, cantora e ex-Frenética Sandra Pêra sob a direção de Ana Beatriz Nogueira e codireção de Clarisse Derzié Luz.

“Foi tudo muito natural. Um dia eu me encontrei com a Sandra, olhei pra ela e propus a leitura do texto. Ela gostou e aqui estamos, tudo muito simples e direto”. Pêra estreia o primeiro monólogo em cinco décadas de uma carreira tão vasta quanto diversificada. 

A artista despontou para o estrelato em meados da década de 1970, quando compôs a formação original do grupo As Frenéticas, com o qual emplacou hits como Perigosa, Dancin Days e A Felicidade Bate à sua Porta, e, desde então, vem conciliando as carreiras na música e no teatro com uma sucessão de êxitos. 

Só neste 2021, a artista encerrou hiato de mais de 30 anos sem gravar um disco solo com o lançamento de Sandra Pêra em Belchior (Biscoito Fino), álbum no qual, como o título entrega, aborda o repertório do compositor cearense Belchior (1946-2017). Agora mergulha no universo intenso de Lispector ao dar vida a uma figura introspectiva e de gestos contidos e delicados. Totalmente o contrário de sua personalidade expansiva. 

“Eu tenho um metro e oitenta, sou uma pessoa de gestos largos, então eu tô penando com essa mulher que é contida, que fala baixo, que se descobre de dentro pra fora”, diz sob os elogios de Nogueira, que vê na montagem um exercício tanto para a atriz quanto para si própria. “Eu brinco que sou uma diretora amadora, então essa peça nos dá a oportunidade de exercitar nosso ofício num momento de tantos desafios”.

À Procura de uma Dignidade é a estreia de Pêra no universo online, abarcando assim dois desafios: o monólogo e a ausência do público. “Eu sinto muita falta, porque eles vão moldando o espetáculo, e eu não vou tê-los, é bastante novo. Mas, na verdade, tudo é muito novo, e muito desafiador. Não só pela linguagem, mas pelo cenário que a gente vive. Nós não sabemos para onde vai o Brasil, e a cultura então nem se fala. Mas seguimos porque não temos como parar”.

Nesta linha de pensamento surgiu o Teatro Com Bolso que abriga o espetáculo. O projeto é o resultado de um período em que Nogueira idealizou e encabeçou, ao lado do produtor André Junqueira, a produção e programação digital do Teatro PetraGold, no Rio de Janeiro. Daí, surgiu o desejo de, utilizando recursos próprios, construir e equipar um teatro dentro de sua casa, também no Rio. Nasceu assim o Teatro com Bolso.

Nogueira investiu em luz, som e equipamento para transmissão online. Com preços populares, a programação tem como principal objetivo a democratização do acesso ao teatro, ainda que de uma forma remota. “Eu gostaria mesmo de poder fazer de graça para o Brasil todo”, diz.

“Existem muitas pessoas que nunca foram a um teatro na vida, então elas teriam algum contato com o teatro, ainda que através de um aparelho de telefone. Elas teriam essa chance de conhecer o teatro, mesmo que respirando por esses aparelhos todos, porque dificilmente você vai chegar com sua peça no Piauí, mas online você exibe lá, e tem a chance de dar uma contrapartida de verdade, entende?”.

“É um projeto com prazo de validade, e o que fica dele são as pessoas que eu fico amolando para fazer as coisas. Eu tento estimular, mas acho que acabo amolando”, graceja. “Porque quando pudermos voltar a fazer teatro presencialmente vai ser essencial você já ter um espetáculo desenhado, com personagem, marcas, texto, então você já tendo um trabalho para estrear é um bem enorme que ninguém pode tirar”.

“À Procura de uma Dignidade” cumpre temporada de 7 de agosto a 26 de setembro, aos sábados e domingos, sempre às 21h. A transmissão acontece via Zoom e os ingressos custam R$ 10.

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