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Contemporâneo, livro de Paula Glenadel tenta capturar o mundo de hoje

Um olhar lúcido para o crepúsculo das vanguardas

Sérgio Medeiros , Especial para O Estado de S. Paulo

11 Abril 2015 | 03h00

Livro breve, Rede, de Paula Glenadel, é absolutamente contemporâneo, ao descrever com lucidez o crepúsculo das batalhas vanguardistas e o advento do reino dos estereótipos, no qual todos estaríamos agora vivendo, segundo a autora.

Não por acaso, um enigmático homem com máscara de cão afirma, num dos capítulos iniciais, chamado As Férias do Saber: “O mundo já acabou, você não sabia? Desde o tempo da vanguarda. Tem pelo menos um século. Mas estamos aqui assim mesmo. Ainda estamos aqui”. Porém, o que é o “aqui”, para esse personagem cínico que parece reencarnar Diógenes? A rede crítico-poética lançada por Glenadel nas páginas humoradas desse livro inclassificável, nem poema filosófico nem conjunto de ensaios críticos, mas as duas coisas juntas, vai tentar capturar o mundo de hoje, seja lá o que isso for, como lemos, aliás, na irônica dedicatória da autora.

Professores, tradutores, artistas, espectadores e críticos (ou pós-críticos) são os personagens desse texto que se estrutura, na sua totalidade, sobre diferentes diálogos, alguns coloquiais, outros reflexivos, e que inclui também uma receita para fazer um prato de cogumelos, “que são criaturas ambivalentes, na fronteira entre vegetal e animal”. Aparentemente, em meio a tantos equívocos, hesitações e incertezas, tanto nas galerias de arte quanto na cozinha, há contudo um mistério certo a ser elucidado, e ele é fundamental para se entender o escopo da reflexão da poeta, que é também tradutora e professora na Universidade Federal Fluminense, além de pesquisadora do CNPq.

Um certo Gottwald lê e relê em voz alta para os amigos uma carta que encontrou num sobretudo comprado num brechó; trata-se, na verdade, de um velho paletó “chiquérrimo, bárbaro, totalmente vintage”, como somos informados. O misterioso signatário da carta enumera as coisas que ele gosta de olhar, mas admite depois que “elas me dão uma inexistência rara”, pois são para ninguém, e ele mesmo se torna, em consequência, ninguém. Espécie de parábola, essa mensagem anônima anuncia a ínfima satisfação que certos signos e certas ideias muito usados e surrados ainda podem nos proporcionar, num mundo coberto de estereótipos e de clichês. Daí a importância que o brechó assume no livro, como centro irradiador de tendências requentadas, ou de antigos modismos críticos e artísticos.

A decifração dessa mensagem gera acalorado debate, em que até Heidegger é invocado, ao lado de Tupã, pois os personagens envolvidos no assunto estão ao mesmo tempo num bosque germânico e numa floresta tupiniquim. Tudo se revolve aparentemente quando Gottwald retorna ao brechó, para discutir a carta com o seu dono, que adota este curioso slogan: “O que foi sucesso não vai embora nunca!”. Mais importante do que saber que o paletó pertencera a uma travesti é, para o personagem e para o leitor, descobrir que o brechó tem uma galeria subterrânea, repleta de telas de valor duvidoso, onde qualquer artista poderia se ocultar do público e dos críticos como se estivesse morto, para que o preço de suas obras aumentasse nos leilões de arte. Um pintor e estudante de arte, Judas Nefasto, acabou sendo trancado ali por algum tempo, entre quadros surrealistas, e foi nessa ocasião que escreveu a famosa carta borrada, pedindo socorro.

O centro secreto do mundo da arte, espécie de inferno delicioso (a comida e a bebida são excelentes, sem considerar que as regalias no porão são incontáveis!), situado num brechó, é uma das imagens mais reveladoras desse livro tão surpreendente quanto oportuno, por esboçar um modelo de reflexão inventiva que, a meu ver, abre um caminho para a crítica brasileira atual que questiona os paradigmas críticos popularizados e explorados nas últimas décadas.

Entre outros conceitos submetidos à crítica implacável da autora está o de performance, que pressupõe, no campo artístico, conforme se lê em Rede, o papel ativo do receptor, pois sem ele a obra não existe, como enfatiza, aliás, Maria Rima, uma personagem que, depois de defender a “floração” dos espectadores como autores, conclui que a obra de arte, atualmente, “se torna um campo magnético de relações, mais do que um objeto...”. O próprio livro de Paula Glenadel discute ironicamente, algumas páginas à frente, os limites da “rede”, ao falar de uma performance antropofágica, pois os índios é que dormem (e sonham) nela.

Quando concluí a leitura de Rede, imediatamente senti vontade de reler um famoso conto de Jorge Luis Borges, intitulado Ragnarök, palavra que significa crepúsculo dos ídolos. Apresentado como o relato de um sonho que se desenrola na Faculdade de Letras, o conto em questão termina com esta frase: “Sacamos os pesados revólveres (de repente houve revólveres no sonho) e alegremente demos morte aos Deuses”. Está no livro O Fazedor. 

No conto de Borges, os deuses pagãos são abatidos, e é como se toda a parafernália clássica viesse abaixo sob disparos dadaístas; já no livro de Paula Glenadel, são os ídolos e os símbolos modernos que se retiram momentaneamente de cena e passam a abarrotar o porão de um brechó galeria, de onde só poderão sair de novo quando a lei do mercado da arte o permitir. São, por enquanto, múmias muito bem preservadas.

SÉRGIO MEDEIROS É POETA, TRADUTOR E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE O FIM DE TARDE DE UMA ALMA COM FOME, POEMA DRAMÁTICO 

REDE

Autora: Paula Glenadel

Editora: Confraria do Vento (72 págs., R$ 37)

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