Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

‘Consolação’ cria um hedonista que age no piloto automático

Estreia do jornalista Carlos Messias na ficção, ‘livro-rolê’ explora padrões masculinos; lançamento é nesta terça-feira, 18, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, em São Paulo

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2019 | 03h00

O protagonista do primeiro romance do jornalista e escritor Carlos Messias, Consolação, começa o livro numa situação infeliz: um término de namoro doloroso e a demissão sumária da redação de jornal em que trabalhava. O que se desenvolve nas 300 páginas seguintes são a imaginação e as tentativas de um paulistano de 30 anos tentando se adaptar aos tempos de redes sociais e aplicativos de relacionamentos, além de uma reflexão sobre a masculinidade tóxica – e como ela age sobre as relações sociais.

Publicado pela nova editora Prosaica (também criada por Messias), o livro será lançado nesta terça-feira, 18, na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915), às 18h30.

O romance foi bancado num sistema de “party-funding”: o escritor produziu edições de “uma festa libertária no Centro que dialoga com o universo do romance”, e o dinheiro arrecadado pagou todas as despesas. O livro já está disponível em “pontos estratégicos” de São Paulo, como a Livraria da Vila, e na Estante Virtual – em breve, também, no Submarino e na Amazon – e no dia 28 de junho, uma nova festa, dessa vez a de lançamento, será realizada no Espaço Nobre, no Anhangabaú.

Inspirado pelas portas abertas pelo Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, Messias fabrica um personagem que também leva o hedonismo como filosofia de vida, e que aqui – nos muitos “rolês” que faz pela cidade – encontra questões contemporâneas. “Construí o narrador como uma espécie de esquerdomacho alegórico. Como grande parte de quem comete atos terríveis, ele não é péssima pessoa. Muitas vezes tem boas intenções, mas é tão desconectado de si mesmo e, principalmente, do outro, que se mostra incapaz de demonstrar sensibilidade e empatia. Minha intenção foi mimetizar como os padrões de masculinidade tóxica são demonstrados e perpetuados no piloto automático.”

Como não poderia deixar de ser, as redes sociais desempenham papel fundamental nessa construção. “Mais do que uma mulher, eu havia me apaixonado por um perfil das redes sociais”, diz o narrador em um momento.

“Uma das finalidades de Consolação foi registrar o seu tempo, ou ao menos um recorte dele”, explica o autor. “É difícil pensar em um relacionamento hoje em dia que, pelo menos em algum momento, não tenha passado pela esfera virtual.”

Leia entrevista com Carlos Messias, autor de Consolação:

Queria que você comentasse o processo editorial desse livro... Foram as festas, aí você criou uma editora, é isso? Você está lançando sozinho? Como vai ser a distribuição?

Como alguém que cresceu ouvindo punk, valorizo muito o princípio do "do it yourself". Quando criei o selo Prosaica, a ideia era fazer uma campanha de crowdfunding para pagar os custos de capa, projeto gráfico, preparação de texto, revisão e impressão do livro.  Mas como eu morro de preguiça de qualquer procedimento burocrático, me pareceu mais divertido e eficiente criar a Sheela, uma festa libertária no Centro que dialoga com o universo do romance. Ela pagou todas as despesas após seis edições e trouxe visibilidade para a obra. Agora dia 28 de junho vai rolar uma Sheela de lançamento de Consolação, no mesmo Espaço Nobre, com DJ Nuts. Quanto a distribuição, o livro já está disponível em pontos estratégicos de São Paulo, como a Livraria da Vila, a Mercearia São Pedro e o Sebo Clepsidra, além do Estante Virtual. Em breve estaremos no Submarino, na Amazon e teremos uma edição para o Kindle. Em julho terei um lançamento na Travessa, no Rio, de modo que o livro deve ficar disponível por lá. Estaremos também na programação paralela da Flip, com mesas e estandes na Casa da Porta Amarela e no barco da Flipei. A Prosaica ainda integra a Coesão Independente, uma associação com 90 editoras que colaboram em eventos e ações para driblar a crise das grandes livrarias e que, em breve, deve funcionar como distribuidora, num modelo de cooperativa.

O narrador do livro vive numa espécie de limite geracional, concorda? No sentido de estar nos limites da "vida millenial": tanto que durante o livro ele compra um smartphone, por exemplo. Como você vê esse lugar entre gerações? É um desajuste incorrigível (no caso do narrador)?

Sim, ele com certeza vive num limbo geracional. Nasceu no início dos anos 80, o que pode ser considerada a primeira safra dos millennials, se identifica muito com os valores e a obra da geração X, romantiza o mundo analógico, no qual cresceu, mas, ao mesmo tempo, se vê obrigado a aderir às tecnologias digitais para conseguir levar uma vida funcional. E sente-se um tiozinho em meio aos millennials mais novos. Não acho que seja um desajuste incorrigível, mas uma espécie de atrito geracional, o que causa estranhamento e exije adaptação.

Como você definiria o espírito do narrador sobre suas relações com as mulheres? O que me pareceu é que ele nunca tem más intenções, mas existe uma certa ausência de superego nessa "caçada" contínua que ele mantém, não?

Construí o narrador como uma espécie de esquerdomacho alegórico. Como grande parte de quem comete atos terríveis, ele não é péssima pessoa. Muitas vezes tem boas intenções, mas é tão desconectado de si mesmo e, principalmente, do outro, que se mostra incapaz de demonstrar sensibilidade e empatia. Minha intenção foi mimetizar como os padrões de masculidade tóxica são demonstrados e perpetuados no piloto automático. Não que ele não tenha superego, mas, sim, um superego machista, que o controla sob valores patriarcais arcaicos, dentro dos quais foi criado, como desempenho e resultado. Conforme a narrativa avança, essa ficha começa a cair para o personagem e o leitor pode entender como a masculinidade tóxica oprime não só as mulheres, como também os homens.

O livro tem uma pegada inspirada no Reinaldo Moraes, concorda? Como você pensou nisso durante a escrita? Quero dizer, estabelecer conversas e influências na literatura (pelo menos paulistana) contemporânea? (E mesmo outros autores/autoras).

Em 2014, quando estava começando a escrever o livro, ainda experimentando possibilidades narrativas, uma amiga me deu de presente Pornopopeia, que eu nunca tinha lido. Fiquei arrebatado pelo ritmo, pelo humor, pela densidade, pelo contraponto constante entre o erudito e o coloquial e, principalmente, pela liberdade transgressora da obra. Ao atravessar uma porteira que o Reinaldo Moraes tinha aberto na sola, enxerguei um caminho para narrar a história que eu queria contar com a minha própria voz. Quanto às demais influências, hoje consigo perceber traços de de Dalton Travisan na aborgem realista, na linguagem despida, nos cortes bruscos e na repetição constante; de Nelson Rodrigues no cinismo do narrador; de Ivan Ângelo ou de Loyola Brandão na estrutura do romance. E, claro, de Nick Hornby no apelo e na intersecção pop. Mais do que contemporâneos, eu diria que os autores que mais me influenciaram têm em comum o experimentalismo. Minha intenção não foi estabelecer nenhuma espécie de diálogo com eles, mas, como autores que admiro, fazem parte do meu repertório e muitas vezes podem ser evocados de maneira orgânica.

"Mais do que uma mulher, eu havia me apaixonado por um perfil das redes sociais", diz ele, a certa altura do livro. Como você a diferença entre fazer e ler literatura sobre relacionamentos/amor em tempos de redes sociais VS. fazer e ler a literatura de amor sem as redes sociais? O que muda aí?

Uma das finalidades de Consolação foi registrar o seu tempo, ou ao menos um recorte dele, e, atualmente, amor e relacionamentos estão intimamente ligados às redes sociais. Não só pelo selfão do amor no Dia dos Namorados, mas pelo fato de que Instagram, Facebook etc. tornaram-se vitrines para atrair e ferramentas para desenrolar encontros. É difícil pensar em um relacionamento hoje em dia que, pelo menos em algum momento, não tenha passado pela esfera virtual. 

CONSOLAÇÃO

Autor: Carlos Messias

Editora: Prosaica (344 p., R$ 

Lançamento: 18/6, 18h30 às 21h30, Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo).

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