Acervo pessoal/Sesc
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Conheça os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2022

Em entrevista, Taiane Santi Martins e Pedro Augusto Baía falam sobre seus livros que tratam de memória e devastação; leia trechos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2022 | 08h00

Responsável por revelar uma nova geração de escritores, o Prêmio Sesc de Literatura anuncia os vencedores de sua 19ª edição. A gaúcha Taiane Santi Martins, de 34 anos, ganhou na categoria romance com Mikaia. O paraense Pedro Augusto Baía, de 35, venceu em contos, com Corpos Benzidos em Metal Pesado

Os dois livros vencedores do Prêmio Sesc 2022 serão publicados pela editora Record em novembro.

Foram inscritos, ao todo, 1.632 livros inéditos de autores estreantes na categoria escolhida. Pela primeira vez, houve mais inscrições de contos do que de romances - 844 ante 788. Criado em 2003, o prêmio, que já recebeu mais de 20 mil originais, foi o pontapé inicial para a carreira de escritores e escritoras como Luisa Geisler, André de Leones, Rafael Gallo, Lúcia Bettencourt, Marcos Peres e Sheyla Smanioto, entre outros.

Nascida em Vacaria, no Rio Grande do Sul, e editora da revista literária Travessa em Três Tempos, Taiane Santi Martins levou seis anos (quatro de escrita e dois de revisão) para finalizar seu romance escolhido por um júri final composto por Itamar Vieira Junior e Luciany Aparecida. Mikaia narra a história de três gerações de mulheres que viveram e fugiram da guerra civil moçambicana.

A autora explica, nesta primeira entrevista, que o romance surgiu da personagem que, por sua vez, surgiu, em 2012, de um desenho do viajante Louis Choris retratando a dança e a música em Santa Catarina, no século 19. Um contexto histórico completamente diferente do que decidiu seguir depois, mas que deixou sua marca. “Quando fui escrever meu projeto de doutorado, resgatei a imagem de uma mulher dançando ao som de um carimba e o nome Mikaia. A ideia era trabalhar, por meio da ficção, conceitos que venho estudando teoricamente desde minha primeira graduação, em História - em especial a construção da memória”, comenta.

O mote inicial, ela explica, foi colocar memórias em disputa. Enquanto Mikaia, uma dançarina de balé que sofre uma amnésia repentina, quer lembrar, sua irmã, Simi, quer esquecer e sua avó, Shaira, decide silenciar.

Taiane, que foi aluna da famosa e pioneira Oficina de Criação de Luiz Antonio de Assis Brasil e viveu por um tempo em Moçambique, conta que há pelo menos 12 anos faz pesquisas no campo dos estudos africanos e que, por isso, era fundamental que esse fosse o coração de sua história. Quanto à sua formação, ela diz que a oficina foi fundamental. “Uma coisa é sua família e amigos acreditarem em sua escrita, outra é o Assis Brasil acreditar”, brinca. 

Para ela, mais do que oferecer teoria e prática, esse tipo de curso permite a convivência com pessoas comprometidas com a prática da literatura. “As oficinas que fiz me deram a base necessária não só para que eu acreditasse que poderia escrever, mas também para que eu encontrasse minha voz”, diz - e acrescenta sua longa formação como leitora neste percurso.

Quanto a ter seu livro escolhido pelo autor de Torto Arado, um dos maiores sucessos da literatura brasileira contemporânea, a escritora se disse muito emocionada e honrada. “Li Torto Arado e vi o amor de minha família pela terra retratado no romance. Sou filha de pequenos produtores rurais, cresci num sítio, em meio à lida do campo e, embora exista um país inteiro entre o sul onde nasci e o sertão de Belonísia e Bibiana, me senti muito próxima das personagens de Itamar Vieira Junior - às vezes mais do que em relação a grandes personagens da literatura gaúcha. E, nesse sentido, é muito significativo para mim saber que ele fez parte do júri.”

O melhor livro de contos do Prêmio Sesc 2022

Do sul ao norte. Pedro Augusto Baía, vencedor do Prêmio Sesc na categoria Contos, nasceu e vive em Abaetetuba, no Pará, um município às margens do Rio Maratauíra. É psicólogo, trabalha como analista judiciário no Tribunal de Justiça do Estado do Pará, tem doutorado em Psicologia Forense na Universidade de Coimbra e faz, este ano, sua estreia na literatura. 

Sua relação com o mundo dos livros, porém, começou muito antes - na infância, com os livros que a mãe levava para casa, com a literatura dos escritores locais que vendiam suas obras de porta em porta, com a ajuda da irmã e de professores; continuou na adolescência, com as muitas idas às bibliotecas da cidade, e segue como parte importante de sua vida. 

“A literatura é um ecossistema de humanização para mim. E, de agora em diante, espero que a literatura opere em minha vida como uma arte de comunicação com o mundo, como um processo de diálogo humanizador, para que por meio da literatura possamos refletir sobre afetos, meio ambiente, direitos humanos”, conta o novo escritor, também em sua primeira entrevista sobre seu livro premiado. 

Os primeiros contos de Corpos Benzidos em Metal Pesado nasceram a partir da segunda metade do ano de 2018. “Eu me encontrava bastante mobilizado pelo cenário político e social brasileiro; era o ano das eleições presidenciais, o sentimento de despedaçamento da democracia aflorava em nossos corpos. Eu ainda não sabia muito bem o que estava produzindo, mas precisava escrever para refletir sobre os meus sentimentos, sobre a Amazônia, o Brasil e o mundo”, conta.

Ao longo dos anos, foram surgindo novos contos, que ele foi reescrevendo em busca de sua voz narrativa. Em 2020, durante a pandemia, Pedro percebeu que seus contos possuíam, de alguma forma, um fio condutor e isso sugeriu a organização de um livro. Ele poderia ter se chamado Ano do Delírio ou então Estética da Ruína, mas os novos textos criados entre 2021 e 2022 levaram ao título definitivo: Corpos Benzidos em Metal Pesado.

“Inicialmente, os contos nasceram como um pedido de socorro, uma válvula de escape para eu expressar a angústia, a preocupação e as reflexões sobre o cenário ambiental, político e social brasileiro, com especial atenção para o Estado do Pará. Eu vejo diariamente a devastação ambiental, o assassinato dos rios, os conflitos de terra, mas também vejo um povo resistindo, por meio de sua cultura, ancestralidade, artesanato e uma relação íntima com o rio e as florestas”, comenta o autor. 

Ele continua: “Então, o fio condutor é o processo de devastação a que estão sujeitos os nossos corpos, afetos e geografias, em contraposição a uma reza ancestral que persiste entre nós, como um pedido de socorro, uma tentativa de reconstrução dos sentimentos e geografias”.

O júri final que premiou o livro de Pedro foi composto pelos escritores Natalia Borges Polesso e Paulo Scott.

  • Leia trecho de 'Mikaia'

Abro o formulário de solicitação de visto na página do consulado de Moçambique. Como se consegue um visto de entrada para sua terra natal? Como pedir um documento legal concedente do direito de ir e vir sobre o solo que deveria lhe pertencer?  Nome completo. Mikaia Mshango, eu digito na barra selecionada. Nacionalidade. Não é óbvio? Minha origem não está estampada na escolha pouco brasileira de meu nome próprio? O aglomerado de consoantes que compõe meu sobrenome sempre foi meu carimbo de procedência, agora isso não é suficiente? A grafia que me denomina não me faz moçambicana? 

Eu nunca soube o que é ser moçambicana. 

Olho para o formulário na tela como se algo naquelas perguntas institucionais fosse capaz de me dar pistas do que é ter um sentimento de origem, me questiono se as memórias que me faltam trarão consigo uma resposta. Não sou capaz de imaginar que uma menina de nove anos saiba o que é ser moçambicana, uma menina de nove anos não deveria saber o que é ser moçambicana. Aos nove anos eu deveria ser Mikaia e isso seria o bastante. Em vinte anos no Brasil nunca fui brasileira. Fui sim angolana, senegalesa, haitiana, africana. Já fui tantas e tantas vezes africana que talvez eu até já tenha começado a acreditar. Sim, o Brasil me fez africana, e por vezes quero que o Brasil me explique o que isso significa. 

  • Leia trecho de 'Corpos Benzidos em Metal Pesado'

(extraído do conto Reza Benzida em Metal Pesado)

Mercúrio, chumbo, alumínio, invasão silenciosa ao meu corpo. Estou enterrada aqui. Do útero para a sepultura, o meu corpo é o vestígio da invasão. 

Hoje você entra no cemitério e mira a câmera do celular na minha sepultura, o retângulo de madeira enfiado na terra, o mato lardeando a cruz envelhecida. Você contempla as iniciais do meu nome, a tinta quase apagada. A sua mente cansada reconhece as iniciais, lidas incansavelmente na tela do seu notebook.

Durante os últimos meses em seu escritório na redação do jornal, você contemplava o meu nome e digitava detalhes (alguns) ao redor dele; checava as informações, planilhas, relatórios, mapas, folhas de pagamento. Você não desistiu, vasculhou o dossiê enviado anonimamente ao editor. Os documentos informavam que eu havia sido professora na escola da comunidade quilombola aos arredores da mineradora. Durante a minha vida, eu recebi um salário irrisório, e não as cifras salariais invejáveis que constavam ao lado do meu nome na folha de pagamentos do gabinete parlamentar do candidato à presidência do país. 

Genealogia dos funcionários fantasmas, o editor sugeriu o título da reportagem. Mas o título lhe causava um certo incômodo, pois à medida que você reunia mais informações sobre o local do meu nascimento, você recordava as vozes da sua infância, os relatos repetidamente contados pela sua mãe ao longo de toda a sua vida, e sobre os quais ela garantia: eu ouvi tudo isso da sua avó.

Quando a sua mãe morreu, aqueles relatos ficaram dentro de você, por alguns meses, como um sussurro que se enfraquece ao longo dos dias. E quando o dossiê indicou o local onde eu estava enterrada, avidamente você checou os mapas e fotos áreas. Aquela geografia fez ressurgir a voz de sua mãe – os relatos sobreviviam em você, resistentes ao soterramento. Então você comunicou ao editor a sua decisão de viajar ao Norte: 

“Irei encontrar as ossadas”

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