WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Confira trechos do discurso de posse de Carlos Heitor Cony na ABL

Autor tomou posse na Academia Brasileira de Letras em maio de 2000

O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2018 | 17h08

Carlos Heitor Cony tomou posse da cadeira de número da Academia Brasileira de Letras em 31 de maio de 2000. Ele ocupou a vaga deixada por Herberto Salles. Em seu discurso de posse, o escritor destacou os desafios da literatura e sua paixão pela escrita. Veja os principais trechos de seu pronunciamento:

“Cinco anos passados, ao receber desta Academia o prêmio Machado de Assis, iniciei meu agradecimento citando o nosso mestre: ‘A vida não é completamente boa nem completamente má’. É um pensamento de Quincas Borba, não o homem, mas o cão que tem o mesmo nome do dono. Repito hoje a frase em outras circunstâncias, mas com a mesma convicção. (...)

Em 21 de setembro de 1971, ao empossar-se nesta mesma Cadeira, Herberto Sales teve melhores palavras e melhor estilo para homenagear aqueles que nos foram antecessores. Levo, porém, sobre Herberto uma involuntária vantagem. Preferia não tê-la.

É o bom assunto que ele me dá.

Este bom assunto é o próprio Herberto Sales, pois me cabe falar sobre um dos escritores contemporâneos cuja obra, traduzida em mais de 12 idiomas, representa um dos pontos altos da ficção brasileira.

Quero lembrar um pequeno episódio autobiográfico (...) Foi no início dos anos de 1960. Entrei na sala do Ênio Silveira, na Rua Sete de Setembro, 97, endereço histórico da velha Livraria Civilização Brasileira, na época a maior e a mais prestigiosa editora do País.

Com aquele estilo direto que lhe era próprio, ele me comunicou: “Você era para mim o autor mais vigoroso surgido no Brasil nos últimos anos. Mas agora apareceu um romancista maior e melhor: Herberto Sales, que ainda não é meu editado, mas o será brevemente.”

O entusiasmo do Ênio se justificava, mas não era correto. Ele acabara de ler Além dos marimbus. Não havia lido, ainda, a obra inaugural, e também obra-prima do escritor baiano, lançado pelas Edições O Cruzeiro.

Publicado em 1944, quando o autor tinha 27 anos, Cascalho é o imenso e formidável romance que logo se colocou, com mérito igual, ao lado das grandes obras do nosso ciclo nordestino, iniciado com José Américo de Almeida e prolongado em Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Adonias Filho e Rachel de Queiroz.” (...)

Faltando-me credenciais técnicas para analisar criticamente a literatura brasileira, mesmo assim não me falta coragem para afirmar que José Cândido de Carvalho e Herberto Sales, autores surgidos na virada dos anos de 1940 e 1950, deram dimensão nova à formidável geração nascida nos anos de 1930, hoje consagrada como momento excepcional da cultura brasileira.

Estava formado o grupo definitivo em torno do qual a vida e a obra de Herberto Sales prosseguiriam em sua segunda fase. Dataria deste período o aparecimento do contista. Um de seus livros, O lobisomem e outros contos folclóricos, apesar de o título ter sido dado pelo editor, não deixou de ser uma homenagem de Herberto a seu companheiro José Cândido de Carvalho, que estourara no cenário nacional com o antológico O Coronel e o Lobisomem. (...)

Fiz questão de marcar esta posse para o dia de hoje, final do mês dedicado a Maria – a jovem judia que aceitou participar, com a sua condição humana, no assombroso mistério de fé, no episódio que dividiria a história universal em antes e depois.

Continuo agnóstico, mas devoto dos meus santos tutelares. Considero-me em processo, doloroso mas sincero, de retorno à fé naquele Deus que o rei e profeta Davi dizia ter alegrado a sua juventude.

Não tenho disciplina mental para ser de esquerda, nem firmeza monolítica para ser de direita. Tampouco me sinto confortável na imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro.

Encontro em Eça de Queirós, em suas Notas contemporâneas, as palavras que poderiam me definir ideologicamente:

“A presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criança sem pão, a incapacidade da Monarquia e da República, da Ditadura e da Democracia para realizar a única obra urgente do mundo, a casa para todos, o pão para todos, lentamente me tem tornado um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo".

Menino do Lins de Vasconcelos, sou filho de um jornalista obscuro que transformei num personagem que todas as noites prometia a si mesmo: “Amanhã farei grandes coisas!”

Nunca fez coisas grandes, mas acreditava que viver era uma grande coisa.

Não lhe herdei a pureza nem a sabedoria. Este pai natural foi substituído por um pai espiritual, que colocou no pensamento do cão de Quincas Borba, o próprio cão sendo também Quincas Borba, a frase com que iniciei este discurso e o encerro: a vida não é necessariamente boa nem má.

Sendo este o pensamento de um cão cujo dono era um louco, não restou a Machado de Assis, em cuja Casa estamos hoje reunidos, senão a desculpa de que tudo no homem não passa de uma “poeira de ideias”.

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