Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

Conceição Evaristo repassa sua trajetória em mesa concorrida da Flip

Em evento marcado pela diversidade, escritora falou de literatura, fé, afetividade e maternidade

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2017 | 16h56

ENVIADO ESPECIAL / PARATY - A mesa de encerramento da 15.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty foi uma homenagem a Conceição Evaristo, num debate que repassou sua vida e lhe deu oportunidade de falar sobre a relação da literatura com a fé, a afetividade e maternidade, entre outros assuntos.

“A Josélia (Aguiar, curadora da Flip) teve bastante sensibilidade para nos colocar aqui, mas, além do agradecimento, não podemos deixar de afirmar que não foi concessão. Esse lugar é nosso por direito”, disse Conceição, que pediu “Josélia 2018”.

No ano passado, Conceição protagonizou um protesto coletivo contra a ausência de escritores negros na programação principal da Flip. Em 2017, numa Flip que se mostrou preocupada com a diversidade e tentou botar em discussão a questão racial por meio da literatura, Conceição brincou que a “Flip não tem mais jeito, não vamos abrir mão do que foi e do que está”.

A escritora recuperou personagens negras da literatura brasileira, como Rita Baiana, Bertoleza e Gabriela, e lamentou o fato de elas não serem retratadas como mães. As duas mulheres centrais da tradição judaico-cristã, Eva, que representa a perdição, e Maria, a salvação, também serviram de comparação. “Se vivemos sob esses mitos, e a literatura brasileira não dá conta de criar mulheres negras fecundantes, o corpo delas é sempre colocado no lugar do mal.”

Criada num ambiente católico, Conceição disse que nem toda a força do cristianismo no Brasil apagou a memória coletiva das religiões de matriz africana. “Por medida de segurança, sou devota de Imaculada Conceição”, disse. “Mas toda vez que estou com ela, negocio o espaço de Oxum.”

A escritora reforçou a importância da afetividade para a sobrevivência em sociedade. Quando disse que o homem negro só é igual ao homem branco no machismo, foi aplaudida.

Carolina de Jesus também foi celebrada. “Ela lembra muito Lima Barreto, que sabia que não conseguia extravasar toda sua potencialidade”, disse. Comentando a recepção da obra de Carolina, que tende a realçar o relato, ela questionou: “Por que os críticos conseguem perceber a angústia humana na obra de Clarice Lispector, e não percebem isso em Carolina? Ela é uma grande escritora brasileira”.

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