Compromisso com a cumplicidade

O editor Roberto Feith e o escritor Marcelo Rubens Paiva falam sobre a necessidade de se criar uma franqueza total

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2014 | 03h00

A biografia de Max Perkins, escrita com base no acesso sem precedentes que A. Scott Berg teve à correspondência do editor e seus autores, é uma exceção em um meio no qual a discrição e os segredos imperam. “A relação entre editor e autor precisa ser protegida por um estrito compromisso de confidencialidade”, acredita Roberto Feith, diretor-geral da Objetiva. “Sem a confiança de que esse compromisso seja estritamente obedecido, fica muito difícil editor e autor dialogarem com total franqueza, confiança e cumplicidade.”

Assim como outros editores, Feith mantém uma íntima relação com seus autores, descobrindo os melhores caminhos para aprimorar essa amizade. “Alguns, como João Ubaldo Ribeiro, trabalhavam de modo mais solitário, escrevendo, reescrevendo e polindo seus textos até que estivessem à altura dos seus próprios e rigorosos critérios de qualidade”, conta. “Os textos chegavam prontos e muitíssimo bem estruturados e acabados. Muitos outros autores de ficção buscam um diálogo com o editor ao longo do processo, enviando versões iniciais de seus manuscritos para que um outro olhar, fresco, sem envolvimento com o processo da escrita original, mas qualificado e cúmplice, possa validar o trabalho feito ou indicar caminhos para aperfeiçoar o primeiro tratamento.”

“Sou dos que gostam de editores que se metem”, comenta Marcelo Rubens Paiva, colunista do Caderno 2 e autor de um dos grandes best-sellers da literatura nacional, Feliz Ano Velho, publicado em 1982. “Eu os s considero meus sócios e parceiros. Decidimos títulos e capas juntos, até a revisão.”

Ele relaciona três grandes editores com quem trabalhou: Caio Graco (1931-1992), que deu grande vitalidade à editora Brasiliense; Pedro Paulo Senna Madureira, com passagem importante pela Nova Fronteira, entre outras; e Isa Pessoa, que trabalhou com grande sucesso com Feith na Objetiva e hoje comanda a Foz. 

“Sempre quis deles mais do que palpites pontuais”, conta o escritor. “Nunca pensamos em vender mais, em como transformar a obra num best-seller, em como ser palatável, mas se a obra me representa, me deixa satisfeito. Não discuto o estilo, a curva da narrativa, por que escrevo aquilo. Mas gosto de saber do ritmo da obra, de barrigas, de digressões, de frases mal colocadas, de momentos que deixam dúvidas. Bom editor pra mim tem que participar. Como um copiloto.”

“Por mais que o editor se envolva, no entanto, o trabalho dele é acessório, complementar”, avisa Roberto Feith. “A visão e a voz narrativa, o impulso de contar aquela história é do autor. Para trabalhar bem, o editor precisa entender isso. Ele pode estimular, apoiar, indicar e ajustar, mas, no final das contas, a obra é do autor. O editor pode melhorar um livro, mas não é capaz de mudar a sua essência. O trabalho fundamental é do escritor.”

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