Acervo Estadão
Acervo Estadão

Complexidade e controvérsia de Ernest Hemingway inspiram documentário

Embora sua influência sobre gerações de escritores seja algo incontornável, ele acabou sendo visto como um avatar de masculinidade tóxica, o “papa” pomposo e arrogante das letras americanas

Gal Beckerman, The New York Times

06 de abril de 2021 | 05h00

Poderia haver algo mais subversivo do que, neste momento, focar a atenção em Ernest Hemingway?

Embora sua influência sobre gerações de escritores seja algo incontornável, ele acabou sendo visto como um avatar de masculinidade tóxica, o “papa” pomposo e arrogante das letras americanas, sacrificando todos em prol do seu trabalho, obstinado e volátil, continuamente abandonando uma mulher por causa de outra.

Mas é esta contradição que o tornou uma figura interessante para os cineastas Ken Burns e Lynn Novick, que realizaram um documentário, e que já trabalharam juntos em séries de grande profundidade como A Guerra do Vietnã e Baseball.

O fato de Hemingway (1899-1961) ser um escritor que contribuiu tanto para a forma, mas que também é uma figura repleta de complexidades, ou, tomando emprestada uma outra palavra do nosso momento atual – “problemática”, o torna mais atraente.

Hemingway, série em três partes, que será exibida pela emissora americana PBS, focaliza o homem e o escritor sem retoques. O alcoolismo, o indivíduo mulherengo, seu nada sutil antissemitismo e racismo; os muitos leões e elefantes alvejados – está tudo ali. Mas seus dons literários também são reverenciados e há um desejo de nos lembrar deles e até introduzir novas dimensões, como o aparente interesse do escritor na fluidez de gênero.

Em entrevista realizada por vídeo, no mês passado, Ken Burns e Lynn Novick falaram de suas casas, com aparente prazer em relação ao desafio de reviver Hemingway e abordar seus “mistérios”, como apontou Burns, coexistindo com o mito do homem que ainda perdura. Eles também falaram das relações do escritor com as mulheres, e ainda o que de Hemingway eles veem neles próprios, como também o livro ao qual sempre retornam.

Por que Hemingway agora?

Ken Burns – Bem, você sabe, não temos um “agora”. Falamos sobre ele há muito tempo, desde o início dos anos 80. Eu encontrei uma anotação num pedaço de papel, depois que decidimos fazer a Guerra Civil, que dizia “Faça Hemingway, Beisebol”, e então essa tarefa apareceu no final da lista. Não sabíamos que levaria seis anos para realizarmos este documentário. Não prevemos um cronograma para o filme. Apenas sabíamos que cada projeto em que trabalhamos vai repercutir no presente porque a natureza humana não muda.

Mas vocês estavam conscientes de que talvez Hemingway não fosse o tipo de figura histórica pelo qual um público em 2021 pudesse se interessar?

Lynn Novick – Tínhamos consciência de que realmente ele é uma figura controversa. E que há pessoas que têm repulsa por sua persona pública, que não leram sua obra e nem desejam ler. Mas estamos vivendo uma época em que estamos reavaliando todos esses ícones do nosso passado. E não há uma maneira melhor de fazer isso do que voltar os olhos para Ernest Hemingway. Em alguns aspectos, ele é muito desagradável e difícil. E se você é uma mulher ou uma pessoa não branca, ou é judeu ou um nativo americano, há coisas em Hemingway que são realmente difíceis. Mas ele é tão importante como uma figura literária e influente que ignorá-lo parece apenas uma fuga do problema.

O que é mais revigorante no trabalho dele é essa habilidade que ele tinha de acreditar totalmente no leitor.

Burns – É algo belo. E o que eu retomo com frequência é o fato de ele ser um sujeito que emerge de uma tradição modernista em que todo mundo é complicado. Joyce e Faulkner, são realmente super complicados. E como afirma no filme o estudioso de literatura Steve Cushman, Hemingway se atreveu a personificar a simplicidade. Em sua compreensão, você poderia usar sentenças aparentemente simples e elas seriam tão eloquentes quanto qualquer parágrafo longo de Joyce ou qualquer frase de Faulkner que se prolonga indefinidamente. Muita coisa que estava abaixo da superfície requer que você procure um significado. Não se trata apenas de como pedir um prato francês ou atirar com uma metralhadora. Tem também a ver com vida e morte e essas questões humanas que são fundamentais. E ele está dizendo, não vou explicar isso a você. É fascinante isso para mim, quando funciona. Não há nada melhor.

Na série inteira, as esposas também pontuam e se tornam uma grande parte da estrutura à medida que ele deixa Hadley Richardson para viver com Pauline Pfeiffer e depois a troca por Martha Gellhorn e, em seguida, por Mary Welsh. Fica claro que ele sempre precisa de uma mulher em sua vida, como se fosse uma âncora, um contraste.

Burns – Você tem de ter essa mulher e tem de deixá-la, tem de fazer mal a ela. Edna O’Brien, (escritora irlandesa que aparece em Hemingway) diz na abertura do filme: adoro ele ter sido apaixonado. Mas ela também sabe que ele tem de fugir de tudo, para se tornar prisioneiro de um novo material.

Se Hemingway é um dos nossos grandes arquétipos de artista, existe algo nele que vocês se identificaram?

Burns – Apenas uma coisa. Acho que temos, e sempre tivemos, uma ética e uma disciplina de trabalho muito fortes. E uma tendência a não ficar satisfeitos enquanto o trabalho não estiver concluído. E não tememos tirar uma cena que já está funcionando e desconstruí-la porque tivemos novas informações. Nossos roteiros estão repletos do mesmo tipo de emendas e trechos riscados como Hemingway fazia.

Novick – Hemingway tem você na palma da mão desde a primeira palavra. E você sabe, eu pessoalmente sinto que teria muita sorte em poder fazer isto. Nós somos contadores de histórias e a obsessão e o refazer a que Ken está se referindo está a serviço de tentar contar uma boa história. E este é um exemplo do que ele deixou para nós quando se oferece o melhor de si, com todas as falhas.

E vocês saíram deste processo com alguma obra favorita de Hemingway?

Novick – É a mesma obra que era a minha favorita quando começamos, o que surpreende porque li e reli praticamente tudo dele. Comecei com Adeus às Armas e terminei com o mesmo livro. Adoro essas histórias curtas, na verdade adoro mergulhar num grande romance. E Adeus às Armas é um dos grandes romances de todos os tempos na minha opinião. É poesia pura desde o início. Não é o clássico estilo minimalista de Hemingway. É uma grande história épica e dá a você tudo o que você precisa saber. E mesmo sabendo como vai terminar, adoro reler esse livro porque acabo vendo coisas diferentes cada vez que releio. É belo. Devastador. Épico. E, para mim, é atemporal.

Burns – Eu aprecio histórias curtas e posso listar 10 que realmente me empolgaram, como As Neves do Kilimanjaro e as duas partes de O Grande Rio de Dois Corações. Mas no caso de citar um romance favorito, então tem de ser Adeus às Armas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.