Companhia das Letras manda recolher livro infantil após críticas

Companhia das Letras manda recolher livro infantil após críticas

Forma como 'Abecê da Liberdade' retratou período da escravidão com leveza desagradou leitores

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 13h36

O grupo Companhia das Letras anunciou o recolhimento do livro infantil Abecê da Liberdade, que retrata "a história de Luiz Gama, o menino que quebrou correntes com palavras", dos autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta. "Interrompemos o fornecimento de nosso estoque atual. Esta edição agora está fora de mercado e não voltará a ser comercializada", afirmou a editora, em nota divulgada neste sábado, 11.

A decisão veio à tona após publicação de reportagem do site Uol que mostra relatos de pessoas que compraram a obra para seus filhos e se revoltaram com o conteúdo, que traz trechos em que crianças negras brincam e demonstram felicidade dentro de um navio negreiro, o que foi visto como uma romantização do período da escravidão. Sem citar diretamente os comentários, a editora afirmou que considera a crítica "correta e oportuna".

"Assumimos nossa falha no processo de reimpressão do livro, que foi feito automaticamente e sem uma releitura interna, e estamos em conversa com os autores para a necessária e ampla revisão. [...] Estamos atentos aos processos de mudança em nossa sociedade e temos buscado formas de reler, a partir de uma perspectiva mais democrática e inclusiva, as obras infantis da Companhia", continua a editora na nota.

Ao Uol, os autores se defenderam das críticas. "É um romance, uma obra de ficção. Não há a busca de exatidão história. A ideia é ter liberdade para criar. Se as crianças não soubessem o que ia acontecer [na escravidão], talvez elas brincassem. Crianças brincam em velórios, por exemplo. É uma forma de fugir da dor. Também tínhamos que ser fieis ao Luiz Gama, um homem que tinha muito humor, tanto que escreveu Trovas Burlescas. Talvez fosse mais fácil fazer algo dramático. Mas resistimos a essa tentação. Uma criança é mais complexa do que isso", afirmou Torero.

Pimenta, por sua vez, comentou: "É difícil uma pessoa não se emocionar com a história [de Luiz Gama] e comigo não foi diferente. O José Roberto Torero também se encantou com o persnagem e fomos fazer as pesquisas. Não havia muitas fontes, nem tantas informações novas, mas era o suficiente para se preparar uma estrutura".

O Estadão entrou em contato com Torero, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. 

Quem foi Luiz Gama

Luiz Gama foi um abolicionista negro, morto em 1882, que libertou mais de 500 pessoas escravizadas. Atualmente, sua imagem passa por um processo de reparação histórica. Nos últimos anos, foi oficialmente reconhecido como advogado (pela OAB, em 2015), herói da pátria (2018, no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria), como jornalista (pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em 2018) e como intelectual, tornando-se o primeiro brasileiro negro a receber o título de doutor honoris causa da USP, em 2021. Sua obra completa deve ser publicada em uma coleção pela primeira vez em dez volumes até dezembro de 2022, dsegundo a editora Hedra. 

Confira abaixo a íntegra do comunicado divulgado pela Companhia das Letras:

"São Paulo, 11 de setembro de 2021 – Recentemente, o Grupo Companhia das Letras recebeu críticas importantes ao conteúdo do livro Abecê da liberdade, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, do selo Companhia das Letrinhas.

Lamentamos profundamente que esse ou qualquer conteúdo publicado pela editora tenha causado dor e/ou constrangimento aos leitores ou leitoras. Assumimos nossa falha no processo de reimpressão do livro, que foi feito automaticamente e sem uma releitura interna, e estamos em conversa com os autores para a necessária e ampla revisão.

De toda maneira, como consideramos a crítica correta e oportuna, imediatamente disparamos o processo de recolhimento dos livros do mercado e interrompemos o fornecimento de nosso estoque atual. Esta edição agora está fora de mercado e não voltará a ser comercializada.

Aproveitamos para reforçar que estamos atentos aos processos de mudança em nossa sociedade e temos buscado formas de reler, a partir de uma perspectiva mais democrática e inclusiva, as obras infantis da Companhia, que são publicadas desde 1992, quando a Companhia das Letrinhas foi fundada. Há também um compromisso com os novos títulos: eles devem estar alinhados com as diretrizes de pluralidade e inclusão que vêm regendo o Grupo como um todo.

Reconhecemos nosso erro e pedimos, mais uma vez, desculpas aos leitores. Estamos dispostos e abertos para aprender com esse processo, para dele sairmos, todos nós, muito melhores.

Equipe Companhia das Letrinhas"

 

 

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