Pixabay/Jill Wellington
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Como um escritor vê sua obra e seu ofício?

Discursos dos escritores ganhadores do Nobel dão pistas sobre seus processos e bastidores de criação; o de Kazuo Ishiguro virou livro

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

11 de maio de 2022 | 03h00

Quando a poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012) ganhou o Nobel de Literatura em 1996 e precisou fazer um discurso de agradecimento, ela parecia tímida e disse que seria breve: “Todas as imperfeições são mais fáceis de tolerar se servidas em pequenas doses”, justificou. E falou sobre seu ofício.

Dois anos depois, foi a vez do português José Saramago (1922-2010) discursar na Academia Sueca, e o autor de Ensaio Sobre a Cegueira optou por uma fala mais política. A certo ponto, ao destacar nossa indiferença diante da fome de milhares de pessoas, ele disse: “Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso semelhante”. E deu uma ideia do que fazer para tornar o mundo melhor.

Esses dois textos – e muitos outros – estão no site do Nobel (e alguns no YouTube) e são uma leitura interessante se você tem curiosidade sobre processos criativos e bastidores. Ao ler esses discursos, nos vemos diante de um escritor que volta no tempo, reflete sobre suas dúvidas e escolhas, desafios, avanços e retrocessos. Seu ofício e sua obra. O que os levou até ali – e quem ajudou neste caminhar. E muitas vezes nos deparamos com esse escritor diante de um mundo em transformação – para o bem ou para o mal – e questionando seu papel na construção de um mundo melhor.

Vez ou outra, esses discursos viram livro. Em 2018, a Companhia das Letras publicou Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços, com a transcrição do texto lido por Kazuo Ishiguro no ano anterior (é possível ler em diversos idiomas, exceto em português, aqui).

Nascido no Japão em 1954 e vivendo desde os cinco na Inglaterra, o autor de Os Vestígios do Dia nos leva para um passeio pelos momentos-chave de sua vida de escritor, conta as reviravoltas e mudanças de rumo de sua carreira, a descoberta de sua voz e dos temas e abordagens que mobilizavam sua criação e também de novos modos de fazer seu trabalho – e ele conta que aprendeu isso lendo Em Busca do Tempo Perdido, ouvindo Tom Waits e vendo filmes de Howard Hawks, por exemplo. Aprendeu, também, que o essencial é que histórias comuniquem um sentimento, “que apelem ao que compartilhamos como seres humanos, atravessando divisões e fronteiras”. Ele diz que no fim das contas, “as narrativas são sobre uma pessoa dizendo para a outra: é assim que eu sinto. Você entende o que estou dizendo? Também sente assim?”.

Ishiguro termina preocupado com o rumo do mundo, mas dizendo que tem fé nas novas gerações de escritores, que saberão nos “inspirar” e “conduzir”, e reafirmando que “literatura é importante, e que será especialmente importante enquanto estivermos atravessando este terreno tão difícil”. 

Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços

Autor: Kazuo Ishiguro

Trad.: Antônio Xerxenesky

(48 págs.; R$ 42,90; R$ 23,90 o e-book)

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