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Como Thomas Mann fugiu para a América e travou uma batalha moral contra Hitler

Livro detalha os últimos anos de vida do escritor alemão nos Estados Unidos

Costica Bradatan, The Washington Post

22 de fevereiro de 2022 | 15h00

“Sou americano”, disse Thomas Mann durante uma entrevista de rádio em 1940. Se parecia aliviado, era porque estava mesmo: passara os últimos anos no limbo.

Mann deixou a Alemanha em 1933, e o governo nazista o privou de sua cidadania alemã em 1936. Primeiro, ele morou na Suíça e, mais tarde, tornou-se cidadão da Tchecoslováquia. No final da década de 1930, à medida que as intenções expansionistas de Adolf Hitler ficavam mais claras, Mann deve ter percebido como vinha aumentando o risco de sua permanência na Europa. A ocupação da Tchecoslováquia em 1939 provavelmente selou sua decisão de se mudar para os Estados Unidos, quando ele estava na casa dos 60 anos de idade.

A primeira casa americana de Mann foi a Universidade de Princeton, que já havia atraído figuras alemãs proeminentes fugindo dos nazistas – sendo a mais famosa Albert Einstein. Em The Mind in Exile: Thomas Mann in Princeton, Stanley Corngold documenta com profundidade e excelente atenção aos detalhes esse importante estágio da vida americana de Mann, até ele se mudar para a Califórnia, em março de 1941. O que Corngold, também professor de Princeton, tenta fazer é “formar uma memória cultural de Thomas Mann durante seu exílio americano em Princeton – uma conexão, pela memória, com um continuum entre ‘nosso’ passado e presente”.

E ele consegue. A imagem de Mann que emerge de seu livro é rica, multifacetada e sempre fascinante. Como observou seu amigo e companheiro de exílio Hermann Broch, Mann tinha uma “esplêndida capacidade de trabalho”, o que lhe permitiu fazer bom uso de seu exílio. Ao longo desses anos, Mann foi altamente produtivo – em vários domínios ao mesmo tempo.

Existe, em primeiro lugar, o Mann acadêmico. O escritor fora contratado para dar uma série de palestras públicas na área de humanidades em Princeton, bem como alguns seminários mais especializados. Os tópicos das palestras variavam do Fausto de Goethe e O Anel do Nibelungo de Wagner até a Montanha Mágica do próprio Mann e atraíram um público entusiasmado. A ironia não deve ter passado despercebida a Mann: ali estava ele, “professor de humanidades” em uma das melhores universidades americanas (sem falar nos títulos honoríficos que havia recebido ou ainda receberia de outras), sem nunca ter recebido seu Abitur (o diploma do ensino médio alemão). Mas a ironia sempre foi algo natural para Mann, tanto em sua obra quanto em sua vida.

Por todo esse tempo, Mann continuou trabalhando em seus projetos literários. Durante a estada em Princeton, ele completou Lotte in Weimar (mais conhecido em inglês como The Beloved Returns) e escreveu uma “história indiana” (As cabeças trocadas), bem como os primeiros capítulos de José, o provedor (a última parte da tetralogia José e seus irmãos). Para o último, ele se inspirou nas políticas econômicas do New Deal. Muitas das ideias de Franklin Roosevelt sobre a “distribuição nacional de riqueza e mercadorias” fazem uma participação especial no trabalho de Joseph para o faraó.

A parte mais exigente da vida de Mann em Princeton, no entanto, e que constitui a maior parte do livro de Corngold, deve ter sido seu ativismo como intelectual público. Ele era um ensaísta político muito requisitado e escreveu para publicações importantes como New Republic, Atlantic e Nation. Ele também percorreu o país dando palestras sobre uma ampla gama de tópicos. E, de 1940 até o fim da guerra, teve um programa mensal de rádio que era gravado nos Estados Unidos, levado para a Inglaterra e depois transmitido para a Alemanha pela BBC.

Por meio desses esforços, Mann aparece como um dos “humanistas militantes” mais prolíficos e impactantes que trabalham contra o regime de Hitler no exterior. A vida na Alemanha sob a República de Weimar e, depois, seus anos de incerteza e exílio após 1933 foram sua formação em humanismo burguês e democracia liberal. O mesmo homem que, em 18 de setembro de 1914, falara da “grande, decente e até mesmo solene guerra popular da Alemanha” agora atacava o governo nazista por iniciar e conduzir uma guerra completamente injustificável. A falta de oposição do povo alemão aos nazistas fez Mann se envergonhar de seu país, e ele quis evocar uma Alemanha diferente, da qual qualquer um pudesse se orgulhar. Ele acabou encontrando esse país em seu próprio trabalho: “Minha casa está nas obras que trago comigo (...) São a linguagem, a língua alemã e a forma de pensamento, artigos tradicionais do meu país e meu povo. O que sou, a Alemanha também é”.

Depois da guerra, Mann diria que seus “anos de batalha contra [Hitler] foram, moralmente, uma boa época”. Ele tinha suas razões para ser nostálgico. Sua vida pós-guerra na América (que está além do escopo do livro de Corngold), com o início da Guerra Fria e depois os anos McCarthy, foi ficando cada vez mais decepcionante. O mesmo “humanismo militante” que ele havia empregado tão brilhantemente contra Hitler agora o fazia parecer positivamente “antiamericano” para algumas pessoas no poder. “Tive de chegar aos 75 anos e viver em um país estrangeiro que se tornou meu lar só para ver os queimadores de bruxas me chamarem publicamente de mentiroso”, ele observou com certa amargura em 1951.

Mann voltou para a Europa em 1952, para nunca mais sair. Ironicamente, foi a política que o trouxera para a América e a política que o afastara. A mente está sempre no exílio. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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