Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Como ‘O Complexo de Portnoy’ escandalizou e mudou a literatura americana para sempre

Romance que Philip Roth lançou em 1969 é até hoje uma de suas obras mais conhecidas e impactantes

Kyle Swenson, The Washington Post

23 Maio 2018 | 12h08

O público seguia martelando o escritor. As palavras raivosas permaneciam. Aos olhos deles, ele era um traidor.

Era março de 1962, e Philip Roth participava de um painel sobre literatura na Universidade Yeshiva. Com apenas 29 anos, o escritor judeu havia embolsado prêmios e elogios com seu primeiro livro, Adeus, Columbus, de 1959.

Mas para os estudantes e professores da faculdade judaica da cidade de Nova York, os retratos de judeus nascidos na América, se livrando da cultura do seu velho mundo enquanto navegavam pelas fios de ativação sexual e cultural dos anos 1950, eram reais demais e pouco favoráveis — uma desgraça, até.

“Sr. Roth, você escreveria as mesmas histórias se vivesse na Alemanha nazista?”, perguntaram membros da audiência, segundo a autobiografia de Roth, Os Fatos.

“Você cresceu com literatura antissemita!”, dizia outro, enquanto Roth fugia do prédio. “A literatura inglesa é antissemita!”

No jantar com amigos naquela noite, Roth refletiu sobre a contundente experiência pós Adeus, Columbus.

“Eu nunca mais vou escrever sobre judeus”, prometeu.

Roth — que morreu na terça-feira, 22, em Manhattan — quebrou a promessa sete anos depois com um romance que transformou para sempre a cena literária americana.

Publicado em 1969, O Complexo de Portnoy é uma granada provocativa arremessada diretamente no establishment judeu e literário.

Com um monólogo cômico e hiperativo entregue pelo personagem principal ao seu psicanalista, as páginas do livro divagam entre as cenas de masturbação obscenas e desejo erótico, culpa judaica e brigas familiares.

O romance, que tinha cenas de auto-amor envolvendo tudo entre luvas de beisebol e carne de fígado, detonou o muro entre comédia de baixo calão e belas artes. Também transformou Roth numa celebridade literária.

+ Philip Roth: trechos

Mas o livro esquisito também causou as mesmas reações negativas que Roth tinha enfrentado em 1962 em Nova York. De acordo com a New Yorker, o estudioso da Cabala Gershon Scholem escreveu que o romance era pior do que os Protocolos dos Sábios de Sião, o infame texto conspiratório antissemita. “A coisa mais cruel que qualquer um pode fazer com O Complexo de Portnoy”, escreveu o romancista Irving Howe em sua resenha mordaz, “é lê-lo duas vezes”.

Após sua morte na terça-feira, Roth foi celebrado como o último dos leões literários (homem e branco) a rugir nas letras americanas no século 20, de um grupo que incluía Norman Mailer, John Updike, Joseph Heller e outros. Com 27 romances, Roth provou ser um cronista versado da pesada bagagem da história americana — o que o escritor denominou num livro de “a loucura natural da América”.

Mas sua carreira demorou um tempo para se erguer após o sucesso inicial, parcialmente por conta da sua promessa depois do incidente na Yeshiva. O trabalho premiado do começo era situado na mesma vizinhança judaica de classe média de Newark onde o autor havia crescido. Seus dois livros após Adeus, ColumbusLetting Go, de 1962, e When She Was Good, de 1967 — eram ponderados, ordenados e influenciados por Henry James. A reação às suas primeiras histórias o fizeram andar cuidadosamente.

“Eu me defendi, mas fui sugado por isso”, Roth disse ao Guardian em 2008. “Eu conseguia lidar, mas não gostava.”

Conforme Roth contou a David Remnick, da New Yorker, em 2000, depois de um tempo ele começou a experimentar com a forma do romance, tentando encontrar a maneira perfeita de abordar os tópicos sobre os quais ele realmente queria falar — família, sexo e morte.

“Eu precisava de permissão, e a permissão veio ao fazer o livro ser uma confissão psicoanalítica”, disse Roth a Remnick. “O teatro do escritório do analista diz que a regra é não ter regras, a regra é não ter inibições, a regra é não ter limites, não ter decoro.”

A atmosfera radical da época também influenciou sua decisão de jogar no lixo as convenções literárias tradicionais.

“Eu rasguei tudo”, Roth disse a Scott Raab, da Esquire, em 2010. “Eu tinha escrito três livros antes que eram todos cuidadosos de um jeito. Cada um diferente do outro, mas eles não rompiam nada, e agora era a minha chance. Escrevi no finalzinho dos anos 1960, então tudo aquilo estava acontecendo, e eu vivia em Nova York, o teatro ao meu redor me deu confiança.”

O narrador do livro, Alexander Portnoy, desata todos seus complexos sexuais e luxuriosos na narrativa. Mas as cenas vulgares e a comédia são uma maneira de Roth escavar uma condição mais profunda: a frustração que vem de ser encurralado por todos os lados por várias formas de vergonha, a vergonha das urgências corporais, a vergonha de abandonar as tradições familiares, ou a vergonha da sobrevivência.

“A histeria e a superstição!”, grita Portnoy no livro. “Os ‘atenção’ e os ‘cuidado’! Você não deve fazer isso, não pode fazer aquilo — calma! não! você está quebrando uma regra importante! Que lei! Lei de quem!”

“Na visão do Sr. Roth, culpa é apenas e sempre uma substância alienígena na composição humana, introduzida para a destruição da nossa alegria e a perpetuação de antigas tristeza”, escreveu a crítica Diana Trilling, na Harper’s. “E porque a culpa intervém de maneira tão nojenta entre nós e nossa completa humanidade, ela necessariamente nos torna incapazes de ter relações com outras pessoas, especialmente com pessoas de outro sexo.”

O conteúdo escandaloso do livro elevou suas vendas — O Complexo de Portnoy vendeu mais de 400 mil cópias em seu primeiro ano de publicação. Os críticos eram amplamente favoráveis ao trabalho explosivo aos tabus. No New York Times, Josh Greenfeld o nomeou como “o exato romance que todo escritor judeu americano vem tentando escrever de um jeito ou de outro desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

Ao empacotar vulgaridade para ilustrar um ponto mais fundo, Roth rompeu os padrões literários, provando que mesmo piadinhas sobre masturbação poderiam levar os leitores para um lugar profundo. Assim, O Complexo de Portnoy continuou a ser lido e celebrado. O livro é regularmente listado entre os melhores romances do século 20.

Escrevendo para a NPR em 2013, o escritor Lucas Mann argumentou que o romance fez o que todo grande livro faz: “ele abriu caminho para conversas secretas, bate-papos internos sobre o lado espinhoso de ser humano, do tipo que eu tinha tanto medo de falar mesmo num sussuro. A vida é dolorosa, e às vezes nojenta, e frequentemente divertida… e foi necessário um livro doloroso, nojento e divertido para passar a mensagem”.

Ainda assim, reações negativas também estouraram após o lançamento do livro em 1969, particularmente pelo seu retrato de um homem judeu louco por sexo consumido por problemas com a mãe. “Esse é o livro pelo qual todos os antissemitas têm rezado”, escreveu Gershom Scholem. “Uma coleção de piadas amarradas ao clamor de um paciente, o livro prospera melhor nas respostas casuais; ele pede pouco mais do leitor do que uma dançarina de boate”, escreveu Howe no seu texto.

“Eu não tenho certeza de que Philip sempre percebe que está sendo ultrajante”, disse o escritor vencedor do Prêmio Nobel Saul Bellow a David Remnick, mais tarde. “Ele sente que um escritor deve provocar — e ele deve, se é para isso que está inclinado — mas ele não pode esperar se evadir dos resultados dessa provocação. Philip é um radical. Ele sente que deve tratar o bizarro como se fosse perfeitamente normal.”

O livro também criou a falácia — uma que seguiria Roth pelo resto de sua carreira — de que seus narradores desequilibrados eram dublês do próprio autor. “Eu gostaria de encontrá-lo”, disse a escritora Jacqueline Susann a Johnny Carson, no The Tonight Show, depois do lançamento do livro. “Mas eu não apertaria sua mão.”

Depois que O Complexo de Portnoy chegou às livrarias, Roth confessou se sentir “visível e exposto”. O autor disse a Remnick: “Alguém que havia acabado de ler O Complexo de Portnoy chegaria para mim e diria: ‘Eu não como mais fígado’. Foi divertido nas primeiras sete mil vezes que ouvi isso”.

Mas ele também consolidou o lugar do autor não só na cena literária, mas no círculo mais alto da cultura americana. Conversando com a Esquire, Roth relatou uma história de estar sentado nos bastidores do Madison Square Garden depois que O Complexo de Portnoy foi lançado. Após assistir a uma entrevista de B. B. King, Roth se levantou para ir embora.

“B. B. King olhou para os seus amigos nos seus ternos azuis, limpou a minha cadeira e disse: ‘Esse cara acabou de ganhar um milhão de dólares por escrever um livro’.” / Tradução Guilherme Sobota

Mais conteúdo sobre:
Philip Roth literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.