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Cena do filme '1984', com John Hurt Lume Filmes

Como George Orwell fundiu ficção e realidade na literatura e no jornalismo

Barreira entre real e imaginário é porosa na obra do escritor inglês que investigou como ninguém a noção de 'verdade'

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2020 | 05h00

Na verdade, o escritor inglês George Orwell não nasceu na Inglaterra e não se chamava George Orwell. Nascido em Motihari, na Índia britânica, Eric Arthur Blair (1903-1950) foi para a Inglaterra com um ano de idade. Apesar de se esconder sob um pseudônimo, sua obra literária, tanto ficcional quanto jornalística, é incontornável para se compreender a noção de “verdade”.

Orwell viveu como um verdadeiro cidadão do mundo: foi policial em Mianmar (antiga Birmânia), combateu o regime de Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola e cobriu o duro cotidiano dos indigentes como repórter. Dessas vivências, tirou inspiração para seus romances de cunho altamente político, como Dias na Birmânia, 1984 e A Revolução dos Bichos, que gravaram no imaginário coletivo a ideia de que a verdade torna-se mutável sob a ubiquidade do autoritarismo.

Por exemplo, o Ministério da Verdade do distópico 1984, que altera fatos históricos para beneficiar o governo do Grande Irmão, tem relação com o período em que sua mulher, Eileen O'Shaughnessy, trabalhou para o departamento de censura do regime britânico na 2ª Guerra.

Se a ficção conta mentiras em busca de uma verdade mais profunda – ou uma verdade inventada, como pontuou Clarice Lispector –, é interessante que a outra metade fundamental da obra de Orwell tenha sido dedicada à reportagem, gênero em que nada cabe para além da verdade.

No final dos anos 1920, ele viveu entre os miseráveis, experiência que quase o levou à morte em um hospital popular, mas lhe rendeu diversos ensaios (Como Morrem os Pobres, O Albergue, etc.) e uma grande reportagem. Na Pior em Paris e Londres antecipou em décadas o experimentalismo formal de Gay Talese, Tom Wolfe e outros expoentes do New Journalism, movimento que uniu o rigor da apuração jornalística a técnicas de narrativa literária – algo que, diga-se de passagem, Euclides da Cunha e João do Rio já faziam no Brasil.

O interesse genuíno de Orwell pela vida dos personagens que ele retratava, sua empatia e agudeza ao narrar as injustiças sociais são traços comuns ao bom repórter e ao bom ficcionista. “Especulou-se muito sobre a proporção entre fato e ficção nos ensaios de Orwell”, afirma o crítico literário James Wood. E isso não surpreende.

No ensaio O Enforcamento, Orwell descreve como um condenado caminha em direção ao cadafalso e, “apesar dos homens que o agarravam pelos ombros, desviou-se uma vez ligeiramente para evitar uma poça de água.” A partir dessa observação trivial para um escritor menos habilidoso, ele constrói uma meditação sobre a extinção de uma vida saudável. Terá mesmo o condenado evitado sujar os pés antes de morrer? Não importa. Verdadeira, com V maiúsculo, é a reflexão que o texto propõe. A mesma verdade que se lê na ficção de Eric Blair.

SOBRE A VERDADE

Autor: George Orwell

Tradução: Claudio Marcondes

Editora: Companhia das Letras

208 páginas

R$ 29,90

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Textos de George Orwell sobre a verdade são mais necessários que nunca

Autor de '1984' e 'A Revolução dos Bichos' se preocupou com a questão da verdade e sua leitura é recomendada em tempos de fake news

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2020 | 05h00

George Orwell (1903-1950) escreveu romances, reportagens, cartas e ensaios variados, mas em todos tratou, de formas distintas, da verdade. E, em uma época em que as chamadas fake news ajudam a viralizar inverdades, que correm e põem em risco a sustentação da democracia, seus textos ganham uma importância exponencial. É o que justifica o lançamento de Sobre a Verdade, seleção inédita de escritos de Orwell que têm como eixo a ideia da verdade. O livro, que a Companhia das Letras lança inicialmente apenas em e-book, traz conceitos que, embora escritos há várias décadas, se mantêm vivos.

“Os ensaios comprovam a sua ternura essencial, parte de sua personalidade tanto quanto o distanciamento e a contrariedade”, observa Alan Johnson, político britânico, autor do prefácio. “E, ainda que ele esteja convencido de que conceitos como justiça, liberdade e verdade objetiva podem ser ilusórios, são ilusões poderosas nas quais as pessoas ainda acreditam.” 

Nascido Eric Arthur Blair (o pseudônimo deriva do rio inglês Orwell e teria nascido depois de ele vivenciar diversos conflitos armados e internos enquanto servia ao Império Britânico), o escritor é principalmente conhecido por duas obras hoje essenciais, A Revolução dos Bichos (poderosa sátira política em que denuncia o totalitarismo, publicada em 1945) e 1984 (assustadora distopia cuja ficção também reflete sobre a essência nefasta de absolutismos, lançada em 1949). Socialista, logo vislumbrou as distorções do regime (especialmente o culto a Stalin, que instalou um governo de terror e de vigilância constante), tornando-se um de seus principais críticos. 

Johnson observa que Orwell era um pensador político que jamais teve medo de adaptar suas ideias às novas circunstâncias, em vez de tentar submeter tais desenvolvimentos à rigidez de seu pensamento. “Provavelmente, no campo da esquerda, Orwell não era o único escritor que convivia com a atração pelo socialismo e a repulsa aos socialistas, mas foi o único a pôr no papel essa dicotomia”, afirma. “Em O Caminho Para Wigan Pier, por exemplo, ele dedica toda a segunda parte do livro para se opor ao socialismo, que defende na primeira parte.”

Sobre a Verdade traz textos que, além de saborosos, tratam de temas pontuais, mas que poderiam perfeitamente ser adaptados à atualidade, em especial quando se trata de fake news. Na resenha A Invasão Marciana, publicada em outubro de 1940 no The New Statesman and Nation, Orwell analisa a famosa irradiação radiofônica que Orson Welles fez, dois anos antes, baseada em A Guerra dos Mundos, romance de H. G. Wells.

Para refrescar a memória, o programa de rádio teve uma repercussão espantosa e imprevista, pois milhares de pessoas acreditaram ser, de fato, um programa de notícias que anunciava a invasão de marcianos em território americano. Acredita-se que cerca de 6 milhões de pessoas ouviram o programa e que mais de 1 milhão delas experimentaram algum tipo de pânico.

O programa se estruturou como uma sucessão de boletins de notícias, fato jornalístico habitualmente considerado verídico. “O mais espantoso foi que pouquíssimos ouvintes americanos fizeram algum esforço de verificação”, escreve Orwell, ao analisar uma pesquisa feita pela universidade de Princeton, constatando que as pessoas mais suscetíveis de ser afetadas eram os pobres, os menos instruídos e, sobretudo, aqueles que enfrentavam problemas financeiros ou eram infelizes no âmbito privado. 

“A conexão evidente entre infelicidade pessoal e prontidão para aceitar o inacreditável é aqui o achado mais interessante”, observa Orwell. “Pessoas que estavam desempregadas ou à beira da falência por uma década talvez ficassem aliviadas ao saber do fim iminente da civilização. É um estado de espírito que levou nações inteiras a se lançar nos braços de um Redentor.”

Entre 1942 e 1948, Orwell colaborou com exatos cem textos para o jornal britânico Observer, compreendendo um período crucial na história da humanidade, ou seja, os anos finais da 2.ª Guerra Mundial e o início da Guerra Fria – termo, aliás, cunhado por ele no ensaio Você e a Bomba Atômica, publicado em outubro de 1945.

Alan Johnson nota que a eclosão da 2.ª Guerra Mundial marcou a cristalização das concepções de Orwell. “Ele era um patriota que entendeu as ameaças do fascismo e do comunismo (o pacto entre Hitler e Stalin foi um ponto de inflexão crucial), e isso inspirou os seus dois romances mais conhecidos.”

A Revolução dos Bichos é apontado como um alerta contra os males da revolução, enquanto 1984 era considerado pelo próprio Orwell como um alerta contra o totalitarismo de direita e de esquerda, e não de uma profecia. “No romance, ele imagina as consequências de uma filosofia política que coloca o poder acima da lei e sacrifica a liberdade individual pela interpretação de bem coletivo imposta pelo Partido”, diz Johnson. “Surpreendente é o quanto continua a ser extraordinariamente relevante mesmo no século 21. A limpidez e a precisão da prosa preservaram o frescor do livro, e os seus temas – a importância da verdade objetiva e da distinção entre patriotismo e nacionalismo – continuam muitíssimo pertinentes na nossa época.”

Johnson declara que a trajetória literária, política e filosófica de Orwell culminou numa derradeira obra magistral, que acabou sendo incorporada às nossas vidas. “A luta em defesa da verdade objetiva ainda é fundamental e, embora Eric Blair tenha morrido em 1950, George Orwell continua bem vivo.”

SOBRE A VERDADE

Autor: George Orwell

Tradução: Claudio Marcondes

Editora: Companhia das Letras

208 páginas

R$ 29,90

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