Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Como a pandemia incentiva a integração da literatura nos países lusófonos

Com Conceição Evaristo como homenageada, Fliaraxá e Festival de Poesia de Lisboa apostam em união de países de língua portuguesa em edições com formatos alternativos

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 18h36

Em outubro, o Festival Literário de Araxá (Fliaraxá) chega à 9ª edição e o Festival de Poesia de Lisboa chega à 5ª edição, ambos com Conceição Evaristo como homenageada e com o desafio de estabelecer novos parâmetros de um evento literário na pandemia. Desde o início do surto do novo coronavírus, festivais de livros, de Paraty a Frankfurt, responderam de forma diferente aos obstáculos impostos pela restrição de aglomerações, seja com cancelamentos, seja com edições alternativas inteiramente virtuais.

O Fliaraxá testará um formato híbrido para se destacar em meio à polifonia de lives, debates e palestras disponíveis na internet durante a quarentena. “Vamos explorar, com muita criatividade, todos os recursos criados e outros que a gente vai inventar, no campo do virtual”, afirma o jornalista Afonso Borges, idealizador do Fliaraxá, que será um dos apresentadores presenciais do evento que ocorre desde 2012 na cidade mineira de Araxá.

Além de Borges, o escritor e professor Leo Cunha (que faz a curadoria da programação infantil do festival) e o escritor e músico Tino Freitas estarão no Grande Hotel de Araxá comandando a transmissão ao vivo que durará cinco dias, de 28 de outubro a 1º de novembro. Os três apresentadores presenciais vão ancorar os debates, que ocorrerão remotamente, além de números musicais e performances com atores em um palco do lado de fora do hotel. Escritores de Araxá darão depoimentos gravados e ao vivo. 

Apesar da pandemia, e talvez até por conta dela, o evento anunciou sua maior edição até hoje. Com esse formato híbrido, o Fliaraxá contará com a participação de cerca de 100 autores brasileiros e de outros países lusófonos. Entre os destaques da programação estão Ronaldo Correia de Brito, Ailton Krenak, Lilia Schwarcz, Heloisa Starling, Mia Couto, Alberto Mussa, Sérgio Rodrigues, Paulo Scott, Luiz Ruffato, Noemi Jaffe, José Luís Peixoto, Elisa Lucinda, Sérgio Abranches, Yara Monteiro, Nélida Piñon, Marina Colasanti e Itamar Vieira Junior.

Neste ano, o evento homenageia Conceição Evaristo e José Eduardo Agualusa, e terá como patronos os centenários João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector, e o autor de Araxá Calmon Barreto. Originalmente, o Fliaraxá seria realizado em julho com o tema “Arte, leitura e tecnologias”, mas graças ao isolamento social acabou mudando de data e de conceito. Agora, a edição de 2020 é motivada pela frase "Não há uma língua portuguesa; há línguas em português", dita pelo escritor José Saramago no documentário Língua – Vidas em Português, de Victor Lopes. 

É por isso que o Fliaxaxá lançará o Manifesto pela Sinergia da Língua, que defende uma maior circulação de ideias entre os países de língua portuguesa, que abrangem 273 milhões de falantes espalhados por quatro continentes. O documento traz 13 propostas práticas para o estabelecimento de uma rede de escritores, músicos, atores, filósofos, gestores, cientistas, historiadores e intelectuais para elevar o nível do intercâmbio cultural entre os falantes da língua de Camões.

A integração entre os países de língua portuguesa, aliás, parece ser uma tendência a ser seguida pelos festivais em tempos de isolamento social. A 5ª edição do Festival de Poesia de Lisboa, que ocorre em formato virtual entre os dias 18 e 24 de outubro, também aposta aposta na promoção da lusofonia. 

“Temos o objetivo de romper paradigmas que dividem o português em português do Brasil, da Angola, de Portugal ou qualquer país que tenha o português como língua oficial. A ideia é mostrar às pessoas que nossa língua é uma só pátria e ela carrega séculos de história, costumes, modificações, que de uma forma ou outra, nos unem”, afirma Jannini Rosa, organizadora do festival e diretora da editora suíço-brasileira Helvetia Editions. “É escutar uma música do Timor-Leste e reconhecê-la, sem estranhamento, tal como reconhecemos tudo que diz respeito à cultura anglófona.”

“Muita gente não conhece a poesia de seu próprio país ou de sua própria região, quem dirá de outros países lusófonos. Logo, o Festival acaba sendo um lugar não só de celebração de nossa identidade comum, mas também de divulgação e troca entre poetas de diversos países lusófonos, e até de pesquisa para nós mesmos, que trabalhamos com literatura”, afirma o curador Gustavo Prudente.

Nesse sentido, pode parecer um contrassenso apostar em integração em um momento de isolamento forçado. Rosa conta que a pandemia ofereceu uma grande dificuldade para a organização do festival: “O maior obstáculo é trazer para o campo virtual a mesma sinergia que acontece em um evento literário presencial”, afirma ela. “Neste momento em que tudo é apresentado nas redes e somos ainda mais bombardeados por notícias, lives e storys, nosso maior desafio foi criar uma programação consistente.”

Entretanto, a limitação imposta pela quarentena se converteu em uma oportunidade de estreitar laços com a literatura do além-mar, como conta Prudente. “Um festival cultural implica a participação não apenas nas atividades propostas, mas também nos encontros de corredor”, reconhece ele. “Ao passar para o online, todas essas nuances foram perdidas, então, mais do que substituir o que não teríamos mais, pois seria impossível, precisamos pensar que outras nuances positivas um festival online traria. E aí entendemos que o online nos ajudaria a trazer artistas que talvez não conseguíssemos trazer, devido a agenda, custos etc, e que também conseguiríamos levar o Festival para um público mais amplo.”

Graças à possibilidade de reunir virtualmente autores que não necessariamente conseguiriam viajar a Lisboa em uma versão presencial do festival, Rosa e Prudente perceberam o potencial de integração lusófona nesse formato digital, e pretendem estender a ideia mesmo para depois da pandemia, criando edições híbridas do festival, que tradicionalmente ocorre no Instituto Camões.

Em 2020, o Festival de Poesia de Lisboa conta com 90 poetas lusófonos residentes no Brasil, em Portugal e em países como Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Grécia e Suíça. A homenageada desta edição, assim como no Fliaraxá, será Conceição Evaristo, e alguns dos autores de destaque na programação são Lubi Prates, Mailson Furtado Viana, Mel Duarte e João Innecco. 

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