MOCO FYA/ESTADAO
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Começa a festa dos 50 anos de escrita de Ruth Rocha

Escritora defende a formação do jovem leitor sem o moralismo das fábulas

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2015 | 03h00

A grande comemoração vai acontecer em 2017, quando se comemoram, de fato, os 50 anos da escrita de Ruth Rocha. Mas os festejos já começam no próximo dia 29, quando será oficialmente anunciado, no Itaú Cultural, o projeto 50 Anos Ruth Rocha. Como já antecipou o Estado, trata-se de uma série de ações culturais em homenagem a uma das principais autoras de literatura infantil do País. 

“Eu sabia que daria certo quando, ao propor o projeto, percebi um brilho nos olhos dela”, conta o ator e produtor Jô Santana, idealizador da ação, que vai contar com a montagem de três peças infantis baseadas em livros de Ruth, um documentário já em fase de produção, dirigido por Evaldo Mocarzel, e uma grande exposição que terá a cenografia de J. C. Serroni (veja detalhes abaixo). No encontro do dia 29, Regina Duarte vai ler um texto em homenagem à escritora e ocorrerá a leitura da peça O Reizinho Mandão.

Uma justa homenagem para a autora de mais de 130 livros que valorizam a criança como um ser inteligente e dotado de espírito crítico. O mundo criado por Ruth Rocha está distante do universo das fábulas e sua rígida divisão entre bons e maus - são borboletas coloridas, reizinhos mandões e meninos que criam palavras esquisitas. Tipos que, por meio de uma linguagem lúdica e direta, passam noções de igualdade racial, democracia e liberdade de expressão. Sem forçar.

“E olha que comecei tarde, aos 38 anos”, ela comenta, balançando em sua cadeira favorita, com aquele sorriso generoso de sempre, capaz de transformar quase cinco décadas de trabalho em um alegre passeio. Aos 84 anos, Ruth Rocha pode se orgulhar de ter construído uma obra marcada por uma linguagem simples e ideias profundas. 

Tudo começou em 1967, quando começou a escrever artigos sobre educação para revistas. Um texto específico, em que utilizava o método criado por Ana Maria Poppovic para determinar a maturidade mental de cada criança, despertou atenção: colegas da redação queriam conhecer a autora, enquanto chegava uma enxurrada de cartas elogiosas.

“Fui convidada então para escrever histórias para criança. No início recusei, até ser surpreendida por um problema em casa”, relembra. “Certo dia, eu brincava com minha filha pequena, Mariana. Tudo ia bem quando ela me perguntou por que preto é pobre. Foi quando percebi que era chegado o momento de eu começar a escrever.”

Era 1969 e Ruth trabalhava como orientadora pedagógica de uma nova revista, Recreio, destinada às crianças. O regime militar arregaçava as mangas e impunha seu poder à força. Em meio a uma acirrada censura, a edição de número 10 da Recreio trazia uma história sobre preconceito. Romeu e Julieta mostra a difícil convivência entre duas borboletas apaixonadas, mas impedidas de se amarem por serem de cores diferentes, uma azul, a outra amarela. “Uma história ingênua, mas que funcionou bem entre as crianças pequenas.”

Foi o ponto de partida para uma coleção de narrativas criativas (O Dono da Bola, Catapimba e Sua Turma, Teresinha e Gabriela, Meu Amigo Ventinho). Algumas, como Marcelo Marmelo Martelo, transformaram-se em clássicos e best-sellers (mais de um milhão de exemplares vendidos). 

“Ruth Rocha não conta apenas ‘historinhas para as crianças’”, atesta o também escritor Pedro Bandeira. “Seus textos são umbilicalmente formadores, apontam caminhos para o ser humano em construção, fazendo-o perceber-se como alguém a quem ninguém poderá mandar calar a boca, ninguém poderá ocultar-lhe informações sobre a vida e sobre o mundo, alguém que crescerá com a consciência de que poderá vir a ser o que quiser, alguém que poderá tornar-se um adulto livre.”

Essa vertente, na verdade, é um dos aspectos mais interessantes na obra de Ruth. Em O Reizinho Mandão, por exemplo, ela foi mais longe, quase beirando o protesto explícito ao mostrar um reino em que ninguém é feliz por conta de um monarca autoritário. A provocação chegou a intimidar certas escolas que, temerosas, vetaram a leitura do livro por seus alunos.

O curioso é que Ruth não se julga uma escritora teórica, que pensa exaustivamente antes de começar a escrever. “Quem é assim é Ana Maria (Machado). Ela é uma schollar, uma intelectual, enquanto eu sou mais intuitiva”, diz Ruth sobre outra grande escritora para jovens e que foi, aliás, sua cunhada. Depois de refletir um pouco, completa: “Sou mais distraída” e abre o famoso sorriso.

Já faz algum tempo que Ruth não escreve ficção para crianças, ainda que mantenha um caderno onde anota potenciais ideias. “Mas ainda não usei nenhuma”, confessa a autora, que tem se empenhado, ao lado da também escritora Anna Flora, em projetos pedagógicos como o Pessoinha, destinada a crianças a partir de 3 anos.

A ficção, no entanto, continua imbatível - as vendas de seus livros para os mercados público e privado em 2014 foram de cerca de 580 mil exemplares, o que dá uma média de mais de 1.500 livros por dia. Desde 2009, a obra de Ruth Rocha é editada pela Salamandra, que coleciona recordes: só nessa casa, Marcelo Marmelo Martelo já vendeu 700 mil exemplares.

EVENTOS

 Peças

1) Reizinho Mandão, estrelado por Luciana Vendramini, Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Joana Mocarzel, Jô Santana, Tiago Leal, Rico Malta, Ricardo Gamba e Sonia Ferreira. Música de Aluísio Oliveira e direção de Roberto Lage. Estreia em agosto de 2015, no Theatro Net

2) Dois Idiotas Sentados Cada Qual No Seu Barril, com Paulo de Pontes e Giuliano Caratori. Música será composta por Fernando Esteves e a direção do espetáculo será de Stella Tobar

3) Romeu e Julieta, o elenco ainda deve ser definido e a direção será de Rachel Ripani

 Documentário

Ruth Rocha, direção de Evaldo Mocarzel, com depoimentos de Mauricio de Sousa, Maria Adelaide Amaral, Dib Carneiro Neto, entre outros. Estreia em 2016

 Exposição

Cenografia de J. C. Serroni, estreia em 2017

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