Renato Parada/Divulgação
Renato Parada/Divulgação

Com 'Te Vendo Um Cachorro', Juan Pablo Villalobos completa trilogia em que ironiza os problemas do país

Humor corrosivo dá o tom do novo livro do mexicano

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

10 de setembro de 2015 | 05h00

Herdeiro do temperamento artístico do pai, Teo, de 78 anos, muda-se para um prédio decadente, povoado de baratas e onde vivem apenas aposentados como ele. Apesar de recebido como um escritor, ele, que jamais teve a intenção de lançar um livro, mata o tempo entre torrar um pecúlio com cervejas e fugir das tertúlias literárias, promovidas pelos anciãos.

Velhice, literatura, juventude, problemas sociais, todos são temas que pipocam em Te Vendo Um Cachorro (Companhia das Letras), terceiro romance do mexicano Juan Pablo Villalobos, que será lançado nesta quinta, 10, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Como de hábito, o humor corrosivo dá o tom, conseguindo o raro efeito de provocar gargalhadas seguidas por um sentimento de culpa. E Villalobos é craque em provocar contradições.

Com o livro, o autor completa sua trilogia crítica sobre o México, completada por Festa no Covil e Se Vivêssemos em Um Lugar Normal, em que também o recurso da farsa não deixa pedra sobre pedra, como observou o jornal El País. Villalobos já morou em Campinas e hoje vive em Barcelona. Esse olhar distante certamente lapida uma narrativa que beira o tragicômico em grau exponencial, a ponto de transformar o caos em joia da narrativa. Por e-mail, ele respondeu às seguintes questões.

Por que gosta de tratar de temas sérios de forma sarcástica?

Tenho uma atitude diante da literatura, quase ideológica, que poderia se resumir numa frase de Adorno: “A arte avançada escreve a comédia do trágico”. Essa frase inspira, até hoje, toda minha atividade literária. O que me interessa é a convergência entre o sublime e o jogo, a irreverência contra uma ideia solene da literatura, as posições antiartísticas. Te Vendo Um Cachorro é meu romance mais ambicioso: nele tento percorrer 80 anos da história da arte e da política do México numa comédia que fala de memória, sexo, revolução e morte.

Desaparecidos não buscados pela polícia, fato normal para a sociedade, também despontam como tema da novela, certo?

Os grandes temas do romance são a memória e o esquecimento. No começo, eu queria contar a história de um artista esquecido, um pintor que nasceu em minha cidadezinha e que morreu abandonado na rua, em 1960. A pergunta que me obcecava era: como é que alguns artistas são marginalizados e outros viram estátuas num parque, nome de rua, tema da enciclopédia? Como, desde o poder, se estabelece um cânone, uma regra com a qual vão ser cinzeladas as páginas da história? Na escrita do romance, acabei encontrando um paralelismo entre esses esquecidos da história da arte e da literatura e os nossos milhares de desaparecidos: os da guerra suja de 1968, os corpos insepultos do terremoto de 1985, as pessoas que sumiram na guerra contra as drogas nos últimos anos. O maior ato de patriotismo e cidadania que um mexicano pode ter hoje, o maior ato de rebelião, é fazer memória, não parar de lembrar, se negar a esquecer.

Adorno é lembrado por sua teoria estética sobre a infantilização da arte, e o exemplo vivo está no grupo de velhos que se reúne para ler em tertúlias?

O protagonista do romance é Teo, um velho de 78 anos que queria ser pintor e acabou sendo taqueiro, vendedor de tacos numa barraquinha. Teo usa a Teoria Estética de Adorno como arma para se defender no cotidiano. Se uma operadora de telemarketing liga para oferecer um novo plano de celular, por exemplo, ele responde com frases críticas de Adorno. Há uma brincadeira no romance sobre o livro como objeto, como arma física com a qual é possível, entre outras coisas, matar baratas. Além de Teo, estão Juliette, uma quitandeira revolucionária que só vende tomates estragados, e Francesca, líder de uma tertúlia literária. Juntos formam um triângulo sexual que, como digo no romance, “teria arrepiado a barba do próprio Freud”. O romance acontece num prédio onde só moram velhos que tentam ocupar seus dias com atividades recreativas, como se a aposentadoria fosse um segundo jardim de infância.

Aliás, ao grupo de velhos se contrapõem os jovens Mao, Dorotea e Willem, que aparecem de forma mais caricata que os demais, no romance. Por quê?

Os jovens são militantes, como deve ser: Mao, um estudante que mora num acampamento de greve na universidade, é militante da insurreição; Dorotea, inspirada na heroína de Cervantes, no Quixote, do idealismo; Willem, um mórmon de Utah, da religião. Os três são, de diferentes maneiras, inocentes, ingênuos. No romance, há uma pergunta que me interessa: por que os jovens são os que têm que “fazer a revolução”? Quer dizer, por que acreditamos que só a juventude é o momento de militar na esperança de um mundo melhor? Os jovens têm tudo a perder, têm uma vida pela frente. E são inexperientes. Mas os jovens do romance também se contrapõem ao cinismo e desencantamento de Teo, eles vão entrar na vida dele para abrir as janelas e deixar entrar ar.

O uso do absurdo é, de fato, o modo mais eficaz de tratar determinados assuntos espinhosos?

Às vezes, acho que os ficcionistas mexicanos estão em uma concorrência contra a realidade, uma concorrência, de fato, desleal, em que sempre vamos perder. Quem poderia ter imaginado todas as desgraças que aconteceram no México nos últimos 15 anos? Nem a imaginação mais desaforada conseguiria se aproximar da realidade. É como se o roteirista da história recente de México fosse um escritor numa viagem de ácido, uma bad trip para ser exato. O absurdo, para mim, é uma estratégia para ridicularizar as figuras do poder, sejam políticas, criminosas ou até literárias. Nosso país está cheio de estátuas, de personagens intocáveis: o presidente, os caciques, os líderes dos cartéis, os grandes empresários... Eu quero ser a pomba que caga na estátua.

TE VENDO UM CACHORRO

Autor: Juan Pablo Villalobos

Tradução: Sérgio Molina

Editora: Companhia das Letras (248 págs., R$ 44,90 papel, R$ 30,90 e-book)

Lançamento Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073. Tel. 3170-4033. Às 19 h

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