Bob Peterson via The New York Times
Bob Peterson via The New York Times

Com sua voz narrativa autêntica, Philip Roth investiga a história e o coração humano

Quando 'O Escritor Fantasma' (1979) vem à tona, entra em cena o autor de infalível produção extraordinária

Felipe Franco Munhoz, Especial para O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2015 | 03h00

Ao publicar Adeus, Columbus, o jovem Philip Roth - com apenas vinte e seis anos - conquistou um disputado espaço no mercado editorial. Seu talento, presente em cada parágrafo, era incontestável; suas temáticas, perturbadoras: Newark (a cidade do autor), famílias judaicas (Roth judeu), sinagogas, rabinos, vidas comuns, comportamentos satirizados, sexo, anseios, angústias.Temas que hoje não motivariam discussão. Mas naquele momento, em 1959, a fria sombra do Holocausto ainda pairava densa demais.

Adeus, Columbus, portanto, que recebeu o prestigiado National Book Award, foi uma estreia provocante e controversa. Durante as próximas duas décadas - a partir do extenso, jamesiano, Letting Go (1962), passando pelo sucesso comercial O Complexo de Portnoy (1969), até O Professor de Desejo (1977) -, o jovem, disciplinado, burila seu talento. Há deslizes e ápices. No entanto, quando O Escritor Fantasma (1979) vem à tona, entra em cena o Philip Roth de infalível produção extraordinária.

De múltipla expansão, potencializada em O Avesso da Vida (1986). O Philip Roth que, romance após romance, demarcando a mesma voz narrativa autêntica, esmiúça a recente história americana e o coração humano. Seguro, honesto; que explora, dentro da ficção, a própria ficção - criação exaustiva, dilemas, dificuldades, consequências, fracassos - e que, em 2010, com Nêmesis, tem coragem suficiente para se aposentar. Claudia Roth Pierpont, na introdução de Roth Libertado, descreve: o arco da obra do autor está completo.

E podemos equipará-la, a obra rotheana, às maiores realizações da literatura. Podemos equipará-la, em dimensão e importância, à Comédia Humana de Balzac ou à Divina Comédia dantesca. Panoramas definitivos de específica abrangência. Pensando bem, talvez a obra de Roth não desenhe um arco - mas um círculo. Por ser quase inteira entrelaçada, emaranhada; impondo-se tão consistente a ponto de formar um monumento único.

Pierpont conheceu Philip Roth na festa de aniversário de Stanley Crouch; no meu caso, em 2013, conheci Philip Roth na festa de aniversário de Philip Roth. Superando quaisquer expectativas. Convidado pela The Philip Roth Society, devido às comemorações de oitenta anos do escritor, eu estava em Newark para ler trechos do romance Mentiras - que elaborei inspirado no trabalho de Roth; inserindo, inclusive, um protagonista Philip.

No saguão do Newark Museum, local da celebração, fomos apresentados e - honra surreal - conversamos sobre o Mentiras. Como se, de repente, páginas concretizadas, meus personagens Felipe e Philip ficassem cara a cara.Conversando sobre o texto que habitavam. Extasiado, agradeci ao mestre pela experiência que me proporcionara: garimpar nos detalhes do monumento Pastoral Americana, O Teatro de Sabbath, Indignação e Kepesh e Zuckerman.

19 de março de 2013. O "leão literário de Jersey" atravessa o salão de baile do museu e posiciona-se diante do bolo, em formato de máquina de escrever e livros empilhados. Livros que eu devorara no lugar-comum do sentido figurado. Sem metáforas, agora, eu devoraria um pedaço de Nêmesis - de chocolate, creme, doce de leite -; ao passo que minha esposa, Eliane, uma fatia-parágrafo de Adeus, Columbus, saboreando as linhas propulsoras de tudo.

FELIPE FRANCO MUNHOZ É ESCRITOR, AUTOR DO ROMANCE MENTIRAS, INSPIRADO NA OBRA DE PHILIP ROTH

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