Marcello Quintanilha
Marcello Quintanilha

Com prêmio na França e nova HQ, Marcello Quintanilha se mantém original

Obras do quadrinista têm relação intensa com a literatura e com o Brasil; 'Hinário Nacional' chega às livrarias em março

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2016 | 05h00

Os trabalhos mais recentes do quadrinista brasileiro Marcelo Quintanilha podem ser descritos como um sufoco – Tungstênio, de 2014, premiado no Festival de Angouleme, é um caso de polícia que simula a formação do Brasil enquanto país; Talco de Vidro, de 2015, usa tensões sociais para explorar com uma profundidade única temas pessoais; Hinário Nacional, que a editora Veneta publica agora em março, é uma apreensiva reunião de contos que tem no abuso sexual sua linha condutora. A pergunta é: como o quadrinista (e talvez, o ficcionista) que melhor capta o Brasil contemporâneo vive longe daqui há 15 anos?

“O fato de eu morar fora do Brasil não faz com que eu me sinta longe do País”, diz Quintanilha, em uma ligação, de uma cidadezinha no sul da França, uma das suas paradas na turnê francesa de divulgação de Tungstênio. Ele mora em Barcelona desde o início do século. “O Brasil que retrato não é o Brasil que eu vejo, é o Brasil que está comigo. Que me fez como ser humano.”

Tungstênio é uma graphic novel que se passa em Salvador, com foco em personagens mais pobres e de classe média baixa: um policial, um ex-militar reformado, pescadores, malandros. A coloquialidade das falas é de espantar – a tradução francesa ganhou o prêmio de melhor história policial no festival de quadrinhos mais importante do mundo. “É um impacto muito grande receber um prêmio como esse. Pela história que esse prêmio tem no mercado europeu. É magnífico em todos os sentidos. Nem com muito esforço vou conseguir ficar triste”, ri.

Talco de Vidro, por outro lado, tem como personagem principal uma dentista, de classe média alta, branca, casada, com filhos, estabilidade financeira – o que pega nela, e num nível que o leitor vai se sentir bastante incomodado, é o sorriso bonito da prima mais pobre. “O interesse era se aprofundar em alguns sentimentos humanos independentes da classe social”, explica Quintanilha. “Explorar o fato de alguém ser incapaz de lidar com aquilo que leva consigo. É difícil para muitas pessoas acordar sabendo que elas são quem são. Não existem muitas alternativas a essa realidade.”

O álbum mais recente, Hinário Nacional (em pré-venda), é feito de histórias curtas que exploram os silêncios para olhar, entre outros, um tema grave: abuso sexual. “Pretendi trabalhar como uma metáfora em relação à violência de viver a vida cotidiana. Coisas como a desvalorização da vida, o estoicismo diante de algumas situações, o fato de aceitar circunstâncias que nos subjugam como seres humanos.”

A temática ampla e profunda dos quadrinhos, bem como a qualidade da narração e dos diálogos, também evidencia a ligação que a produção de Quintanilha tem com a literatura. “Tive a possibilidade de caminhar pelas ruas e cenários de romances de Machado de Assis, de Lima Barreto, etc. Conhecer o subúrbio de Lima Barreto. Isso me marcou muito. Fez com que eu tivesse uma relação com a cidade a partir da literatura, e é muito difícil que isso desgrude de mim”, comenta. Mesmo assim, ele não planeja escrever ficção (“não se deve esperar nada de ninguém nunca”).

Nos dois trabalhos mais recentes, Quintanilha também fez outro movimento interessante e particular: a incorporação da retícula à confecção dos quadros. A retícula é a técnica de finalização e impressão que utiliza texturas (geralmente, pontinhos) para criar os desenhos na página. Comumente associada a um obstáculo a ser desviado, ela “seduziu” Quintanilha.

“Inevitavelmente tem a ver com o passado, especialmente se considerarmos o caráter artesanal do uso das retículas, toda a dinâmica de recortes e colagens que permitiam manusear a página como um objeto em si e não como mero receptor de uma expressão – ou como o ‘veiculador’, se você prefere, de um universo que o transcendesse”, explica. “É um fator que reduz meu desenho a uma concepção básica, sem margem a elementos supérfluos, uma vez que ela é efetivamente incorporada à própria construção da imagem e não como um elemento delimitador de planos ou tonalidades.”

Enquadramento e diálogos na obra de Quintanilha também são dois aspectos ressaltados pelo tradutor e especialista em quadrinhos Érico Assis. “Fica evidente no Tungstênio: leitores de Salvador falam de como ele captou o ritmo, as gírias, os coloquialismos da cidade. Em qualquer âmbito criativo brasileiro, da literatura ao cinema e às telenovelas, eu vejo medo, ou mesmo dificuldade, de reproduzir falas coloquiais. O Quintanilha não tem esse medo, nem dificuldade”, explica. Outra especialista em quadrinhos, a proprietária da loja Itiban, em Curitiba, Mitie Taketani afirma que o que mais a interessa nas histórias de Quintanilha é “a sua humanidade e sua capacidade de mover, despertar nossos sentidos para outras direções”. Rogério de Campos, ele próprio quadrinista e editor da Veneta, atesta a originalidade do trabalho. “Ele acreditou num jeito de pensar e fazer quadrinhos que não tinha espaço no Brasil. Ele fez o que quer fazer. Não tem facilidade, não tem personagem para virar merchandising. Certamente, (o prêmio) vai abrir espaço para brasileiros que façam quadrinhos... brasileiros.” Sem nacionalismo.

TALCO DE VIDRO

Autor: Marcello Quintanilha

Editora: Veneta (2015, 160 págs., R$59,90)

TUNGSTÊNIO

Autor: Marcello Quintanilha

Editora: Veneta (2014, 192 págs., R$ 54,90)

HINÁRIO NACIONAL

Autor: Marcello Quintanilha

Editora: Veneta (2016, 136 págs., R$ 49,90)

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