Luludi/Estadão
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'Com Marcos Rey aprendi a olhar a cidade e a ouvir a fala do povo', diz Loyola Brandão

Nos 20 anos da morte de Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão escreve sobre o amigo - e autor de obras inesquecíveis - enquanto o fotógrafo Tiago Queiroz registra a cidade que foi tema de tantos livros do escritor

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2019 | 03h00

Sempre invejei os títulos de Marcos Rey. Você era fisgado por eles. Impossível esquecer O Enterro da Cafetina, Memórias de um Gigolô, Um Cadáver Ouve Rádio, O Último Mamífero do Martinelli. Ele foi o primeiro escritor profissional que conheci, vivia do que produzia e produzia intensamente para rádio, televisão, cinema, jornais e revistas. Além dos livros. Parece que não se levantava nunca da máquina de escrever. Não me lembro se Marcos Rey pegou a era digital. Fico a imaginar o que faria diante de um computador, dada a velocidade com que os textos fluíam. 

Sempre fiquei impressionado com as mãos dele, deformadas. Nunca toquei no assunto em vida, somente depois de sua morte e de uma biografia escrita por Carlos Maranhão soube da doença que o avassalou, mas nunca impediu que escrevesse delícias. Como era possível datilografar? Que sacrifício devia fazer! Mesmo assim, os textos jorravam. Como esquecer O Sítio do Picapau Amarelo que ele desenvolveu para a Globo como longa série. Ou os roteiros para cinema. Quantos gêneros dominou? E os contos policiais, líricos, satíricos, irônicos, enfezados, irados? Para mim, O Casarão Amarelo é obra-prima. Buscava na gente paulistana os temas.

Marcos tinha lido meu primeiro livro, Depois do Sol, que se passa inteiro na noite paulistana, daí o seu título, que me foi sugerido por Roberto Freire, o psicanalista, autor e telenovelista, não o político. “Gostei, você conta sobre o que conhece, sua cidade é esta, seu assunto é São Paulo, os paulistas e os interioranos que aqui vêm vencer na vida, como você e os nordestinos. Olhe para eles.” Assim fiz, assim ainda faço, e esta minha aldeia gigante sempre foi meu tema, e por meio desta mostrei o Brasil estas décadas todas. 

Lembro muito o entusiasmo e a alegria de Marcos Rey quando leu os contos de João Antônio. Este, certa madrugada, sugeriu que fôssemos todos a uma sinuca perto da Praça da Sé, porem Rey acabou recusando. Outra vez, estávamos na mesa ao lado de Maysa Strang da Rocha, chamada a Françoise Sagan brasileira, Luiz Thomazi e David Auerbach, cronistas políticos de Última Hora, José Roberto Penna, jornalista e um dos criadores dos roteiros de rodovias do Brasil na revista Quatro Rodas, quando ouvimos o crítico Sérgio Milliet dizer ao Marcos: “Você é o Nelson Rodrigues paulista”. E o elogiado sorriu, pareceu ter gostado, mas disse: “Deixe para lá”.

Quase um ano depois de conhecer Marcos Rey no Clubinho e passar a, ocasionalmente, participar de sua mesa, fiquei atônito ao ver entrar Mário Donato, que minha geração tinha endeusado após ler Presença de Anita. Ele entrou, nos cumprimentou e perguntou: “Então, já conhecem meu irmão?”. Dois bons escritores numa mesma família, era demais.

Nos anos que antecederam sua morte, lembro-me de Marcos Rey nas manhãs de sábado na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Ali chegávamos pelas 11 horas e íamos puxando cadeiras da choperia, acho que se chamava algo como Gel’s. Vinha Lygia Fagundes Telles, Ives Gandra Martins – que a certa altura buscava uma bandeja de coxinhas e empadas – Mário Chamie, Gilberto Mansur, Ivan Ângelo, Wladyr Nader, Marcia Denser, Claudio Willer, Ronivalter Jatobá. Juro que também Raduan Nassar esteve ali por duas vezes e até falou bastante. O curioso é que nunca discutíamos literatura. Nunca alguém ficou a contar o livro que escrevia ou o poema que tinha feito. Conhecíamos essas chatices. Falávamos de alguma crítica de jornal. Ou daquele famoso editor de jornal, magro, seco, óculos redondos, sempre com o New York Times ou o Magazine Litteraire dobrado debaixo do braço, que nos olhava de longe e nunca se aproximava. Um dia, Pedro Herz trouxe um litro de uísque, que evaporou rapidamente. Para quê? Daí em diante, cobrado, teve de fazer do uísque companhia habitual. Justificávamos: “Ele ganha bem com nossos livros”. Como se fôssemos best-sellers.

Nas minhas contas, enquanto aquele sábado (teve até a Thereza Collor uma vez, todo mundo siderado) existiu, Marcos Rey não faltou uma só vez, ao lado de Palma, sua esposa. Ali foi recriado um velho lema. Dizíamos: “À frente de um bom homem sempre existe uma grande mulher”. E ela foi, até a morte dele, defendendo o trabalho do marido com garras e dentes.  

Com Marcos Rey aprendi a olhar em volta de mim na cidade, a capturar elementos para crônicas e contos e romances, a ter disciplina, a espantar a preguiça, a cumprir prazos, a ouvir a fala do povo e incluí-la na literatura. E principalmente a ter algum humor.

* Ignácio de Loyola Brandão é colunista do Caderno 2

Autor revela uma metrópole de medo e decadência 

Mesmo após 20 anos da morte de Marcos Rey (o autor partiu em 1º de abril de 1999), muito da alma da sua literatura ainda está presente em cada esquina, cada penumbra da noite, cada boêmio. Sua inspiração não se detém nos cartões-postais óbvios, prefere o anonimato de botecos de quinta categoria em que os desvalidos se abrigam com sua tristeza.

A intimidade do escritor com as dores da metrópole está refletida no conto O Cão da Meia-Noite, no qual Rey descreve a ‘amizade’ de (mais) um solitário morador de rua com (mais) um cão abandonado. Cenário que agora se repete em cada sofrido canto de São Paulo. 

Alguns dos bairros citados por Marcos Rey sofrem hoje de uma decadência crônica, com péssima qualidade de moradia. E é na beira do Minhocão, em uma minúscula quitinete, que mora o protagonista de Esta Noite ou Nunca, Willian Ken Taylor, um escritor brilhante, mas falido, que vive de escrever versinhos para strippers se despirem em cabarés, além de tramas para pornochanchadas e o que mais aparecer para ajudar a pagar o aluguel.

É com medo e desespero que Rey impregna seu personagem de O Último Mamífero do Martinelli, que, perseguido pela ditadura, se refugia no arranha-céu do centro paulista. Olhar a cidade com os óculos de aros grossos e lentes de muitos graus de Marcos Rey é sempre saboroso e revelador. / TIAGO QUEIROZ

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