Ana Cuba/The New York Times
Ana Cuba/The New York Times

Com 'Livre', autora de ‘Cinquenta Tons de Cinza’ termina o que ela começou (e reiniciou)

E. L. James fala sobre seu novo romance, Livre, lançado agora em inglês e que chega ao Brasil pela Intrínseca no dia 18, e também sobre participar do Clubhouse e se reconectar com Christian e Anastasia

Entrevista com

E. L. James

Alexandra Alter, The New York Times

02 de junho de 2021 | 10h00

Para uma escritora que se tornou famosa por escrever romances eróticos, E.L. James é surpreendentemente introvertida. “Sou incrivelmente tímida por baixo de tudo isso”, disse ela.

É difícil conciliar a ideia de E. L. James como uma pessoa caseira e reservada com a franquia fetichista de bilhões de dólares que ela criou. Desde que Cinquenta Tons de Cinza foi lançado em 2011, a trilogia escrita por ela vendeu 165 milhões de cópias em todo o mundo e foi adaptada para uma série de filmes que E. L. James coproduziu. Isso ajudou a popularizar fetiches sexuais de nicho envolvendo submissão, olhos vendados e pinças de mamilos, trazendo-os para o mainstream cultural e comercial. E.L. James registrou e licenciou a marca Cinquenta Tons de Cinza para vinhos, lingeries, chicotes, vibradores e algemas, tendo ela mesma criado muitos desses produtos. ("Comecei a registrar tudo porque não queria que a marca acabasse em alguma lancheira", ela brincou. "Só não coloquem no McLanche feliz.")

Os fãs ainda queriam mais. Então E.L. James atendeu aos pedidos deles. Em 2015, ela publicou Grey: Cinquenta Tons de Cinza Pelos Olhos de Christian, que reconta a saga quente do bilionário Christian Grey e sua "submissa", a recatada Anastasia Steele. E. L. James, que começou a escrever Cinquenta Tons de Cinza como fanfiction de Crepúsculo, reformulou o mesmo enredo, mas, desta vez, o narrou do ponto de vista de Christian, no lugar do de Anastasia.

Depois, ela publicou Mais Escuro - Cinquenta Tons Mais Escuros Pelos Olhos de Christian, um segundo livro sob a perspectiva de Christian. E, então, fez um desvio desta segunda trilogia e escreveu o romance sem continuações intitulado Mister. Leitores insatisfeitos imploraram que ela terminasse a trilogia centrada em Christian, às vezes postando fotos de suas estantes com um espaço vazio para preencher.

Quando a pandemia surgiu na primavera passada, ela decidiu que era hora de terminar o projeto.

Em Livre: Cinquenta Tons de Liberdade pelos Olhos de Christian Grey, que a Bloom Books lançou nesta terça-feira, 1ª, e será publicado no Brasil pela Intrínseca em 18 de junho, Anastasia e Christian estão planejando seu casamento e discutindo sobre seus votos, enquanto ex-namorados obsessivos, rivais corporativos implacáveis e pais autoritários ameaçam a felicidade do casal.

Livre parece ser o fim da história deles - casamento, felizes para sempre - de novo. Mas E.L. James ainda não está pronta para dar fim a tudo, ao que parece. Quando questionada se isso marca o fim da história de Christian e Anastasia, ela disse: "Nunca digo nunca". "Vamos ver."

Durante uma recente entrevista em vídeo direto do escritório dela na casa onde vive, no oeste de Londres, E. L. James falou da evolução e do impacto da série.  Esses são trechos editados dessa conversa.

O livro 'Cinquenta Tons de Cinza' em si surgiu como uma fanfiction, e seus leitores já estavam escrevendo suas próprias versões do ponto de vista de Christian. Foi isso, em parte, o que lhe inspirou?

Foi uma coisa interessante porque, quando era uma fanfiction, escrevi alguns capítulos do ponto de vista dele. Então, as pessoas disseram: Oh, queremos um pouco mais disso. Em seguida, é claro, eles fizeram os filmes e como todos sabem, o primeiro filme foi uma época muito difícil para mim, então eu voltei e acabei de escrever o livro, e não contei a ninguém. Eu apenas pensei, eu preciso voltar a ter contato com esses personagens, e foi isso que eu fiz. Não sabia se as pessoas iriam querer mais. Isso provavelmente foi um pouco sem noção de minha parte, mas sempre fico surpresa que as pessoas leiam o que escrevo.

Então a ideia de querer recuperar o contato com os personagens surgiu para você depois de ficar insatisfeita com o primeiro filme?

Sim, com certeza. Não foi uma experiência feliz. Eu não me posicionei muito a respeito disso e, particularmente, não quero dizer nada quanto ao tema. Mas, só para deixar claro, fiquei muito satisfeita por estar de volta ao mundo dos livros.

Os livros sob a perspectiva de Christian têm tido uma boa recepção entre seus leitores, mas alguns fãs disseram que parece que você está tentando desenvolver essa franquia sem avançar na trama. O que você acha que o novo livro adiciona à história?

Ele foi escrito para os fãs hardcore que o desejavam. Não foi escrito para quem não quer lê-lo, sabe?  É muito simples. Além disso, remonta aos cinco livros anteriores. Tenho a sensação de que não estava completo e agora está, e isso volta à questão 'será que terminei com tudo?' Sim, por ora. Espero que isso me dê alguma liberdade para explorar outras coisas.

Reescrever seus próprios livros é quase como escrever uma fanfiction de seus próprios romances, mas é complicado também, porque você não quer contradizer o enredo de seus trabalhos anteriores, certo?

Exatamente. E é assim que é escrever fanfiction. É tão engraçado porque agora estou no Clubhouse. Adoro! E há muitos autores falando em grupos e perguntando o que você tem feito e se percebe a diferença entre aqueles que são arquitetos ou jardineiros. Os primeiros planejam tudo antes mesmo de começarem a escrever e os jardineiros simplesmente vão lançando ideias como sementes, escrevendo e vendo no que dá. Sou completamente o segundo caso. Tenho uma vaga ideia de para onde estou indo, não tenho certeza se vou chegar lá.

Quando você entrou no Clubhouse? O que você faz por lá?

Provavelmente, talvez desde março, abril ou talvez fevereiro deste ano, mas como o tempo não tem mais significado, é assim que funciona. Hoje é quinta-feira? Sábado? Quem sabe! Então, em algum momento deste ano, estou por lá há pelo menos dois meses. Levei muito tempo para falar algo, porque sou incrivelmente tímida. Existe uma comunidade fantástica de autores. E há um monte de mágicos e comediantes com quem eu também falo. Eles são hilários. Uma amiga minha, ela é uma comediante de stand-up e estava no Clubhouse, e eu fiquei um pouco com o pé atrás em relação ao aplicativo, mas acabei acompanhando-a em uma sala, que estava cheia de mágicos e comediantes. Que melhor companhia?

O que você acha do impacto que seus livros tiveram no meio editorial, depois que ajudaram a trazer um romance erótico mais intenso para o mainstream?

Isso sempre me surpreende. Nunca deixarei de ficar surpresa com esse acontecimento fora da curva. Eu teria ficado muito feliz em vender 5 mil livros, e pensei que continuaria trabalhando para a televisão, fazendo todas essas coisas, e vivendo minha vida pacificamente. Mas aí aconteceu tudo isso e mudou completamente a minha vida. Sim. É uma lição de humildade e impressionante. Não consigo acreditar até hoje.

Eu também acho que a série de livros ajudou a apagar o estigma que estava anteriormente ligado aos romances eróticos e provou que essa pode ser uma área extremamente lucrativa.

As mulheres querem ler esse tipo de coisa, sabe? Não é nenhum segredo. Todos nós queremos nos apaixonar novamente. Se você pode fazer isso em um livro, ele é um lugar bastante seguro para fazer algo a mais também. Então, eu acho que qualquer coisa que seja centrada na mulher é geralmente desprezada, e você meio que se acostuma com isso mesmo, mas é, na verdade, uma indústria de bilhões de dólares. Estou pasma como às vezes as pessoas podem ser desdenhosas quanto a isso. E então, você vê que os filmes também fizeram um sucesso incrível, porque as pessoas querem ver uma história de amor que tenha alguns toques picantes. Agora dizemos picante. Esta é a palavra. Picante é a palavra. Isso é o que estou aprendendo no Clubhouse. Picante.

Dada a dimensão com que alguns fãs abraçaram 'Cinquenta Tons de Cinza' não apenas como uma história que eles gostam, mas como uma vida que eles imitam de alguma forma, você se vê como uma guru de estilo de vida?

Não. Não. Não. Não é um manual. Não é uma lista. É apenas uma história interessante para mulheres. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

Veja o trailer dos filmes da trilogia 'Cinquenta Tons de Cinza'

 

 

 


 

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