Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com livrarias fechadas, editoras descobriram a força e a necessidade do e-commerce

Em 2020, festas literárias também se adaptaram ao mundo digital

Guilherme Sobota e Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2021 | 05h00

O mercado editorial, que vinha tentando driblar a crise – que era macroeconômica, mas foi agravada pelos processos de recuperação judicial das redes Saraiva e Cultura –, precisou desacelerar ainda mais em 2020. Sem suas principais vitrines, as livrarias, fechadas por mais de três meses como medida para conter o avanço do coronavírus, as editoras diminuíram o número de lançamentos, foram para a internet para tentar falar ainda mais diretamente com seu cliente (e vender para eles) e, em alguns casos, iniciaram ou aderiram a campanhas de apoio a pequenos livreiros.

Um desses projetos, aliás, o Retomada das Livrarias, encabeçado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), arrecadou R$ 530 mil, que foram distribuídos para 53 pequenas e médias livrarias afetadas pela pandemia.

Nesse período, o setor como um todo sofreu um baque. Livreiros aprenderam a vender livro por telefone ou WhatsApp. Quem não tinha e-commerce correu para começar a vender online. E então, com a possibilidade de reabertura das lojas, fizeram as adaptações necessárias. Foi um ano de aprendizado.

Para Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel), o fechamento das livrarias foi justamente o momento mais difícil do ano. “Isso teve um impacto muito negativo para a indústria editorial. A esperança de uma recuperação das grandes redes (Saraiva e Cultura) praticamente terminou e com isso perdemos mais um número expressivo de lojas e vitrines. Durante os primeiros três meses as editoras reduziram seus lançamentos, e fechamos o ano com muita dificuldade de colocar novos livros no mercado, apesar da recuperação das vendas em geral e abertura de novas lojas”, comenta.

Saraiva e Cultura sobreviveram a este estranho ano, mas sua permanência ainda está em xeque, como novas assembleias com credores previstas para o início do ano. Enquanto isso, a rede Leitura cresce país afora, a Livraria da Vila experimenta novos espaços dentro e fora da cidade de São Paulo, a Travessa amplia sua loja de Pinheiros e outros livrarias independentes começam a surgir aqui e ali – uma delas é a Megafauna, no Copan.

Nos primeiros três meses da pandemia, a autoajuda dominou a preferência dos brasileiros e o gênero foi o mais vendido – dos 15 best-sellers, 10 eram de autoajuda. Na lista, havia também obras como Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, e duas ficções de George Orwell, as únicas entre os top 15: A Revolução dos Bichos e 1984 – títulos que fazem coro às discussões que mobilizaram, no Brasil e no exterior, o debate.

E o que o mercado aprendeu em 2020? “Que o livro é resiliente, que o Brasil pode ser um país de leitores, e que devemos continuar a estimular a leitura no ‘novo normal’”, responde Pereira. Ele continua: “Aprendemos que nossas empresas estão mais preparadas para as crises, talvez calejadas pelos últimos cinco anos. E que a proximidade entre editores e livreiros é fundamental para nosso crescimento.”

Foi o pior ano da história de muitas pessoas e de diversos negócios. E o mercado sai dele com um misto de alívio e angústia, diz o editor, sócio da Sextante. Alívio pela proximidade da vacina e angústia pelo aumento do número de casos de covid-19. “Mas acredito que 2021 será um ano positivo, com a retomada das programações de lançamentos das editoras, a recuperação do varejo físico e o crescimento econômico do Brasil”, ele espera – apesar das duas pedras no sapato que ainda deixam o setor apreensivo – o projeto de reforma tributária proposto pelo Ministério da Economia e que abriu uma brecha legal para a taxação do livro e a sobrevivência das redes Saraiva e Cultura.

Retratos da Leitura. A nova pesquisa Retratos da Leitura, coordenada pelo Instituto Pró-Livro em parceria, pela primeira vez, com o Itaú Cultural e realizada pelo Ibope, apontou muitos dados ruins – e o principal é que diminuiu de 56% para 52% o número de leitores no Brasil. A pesquisa entende o leitor como alguém que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Quem não leu deu os seguintes motivos, entre outros menos significativos: falta de tempo (34%), não gosta (28%), não tem paciência (14%), prefere outras atividades (8%), tem dificuldade para ler (6%).

Caiu o número de leitores no geral, mas cresceu o de crianças leitoras entre os 5 e 10 anos – a única faixa etária que teve um desempenho melhor em 2019 do que em 2015.

Os poucos números positivos podem apontar para soluções e posições em que a sociedade pode se apoiar para melhorá-los, nesse caso, a influência positiva de pais e professores, por exemplo.

Perdemos. Rubem Fonseca se foi e motivou diversas leituras críticas de sua obra, e houve até quem culpasse o escritor por ter contribuído para a construção do imaginário violento no Brasil que hoje se manifesta praticamente sem amarras. Sérgio Sant’Anna sucumbiu à covid no ponto alto da sua carreira brilhante, completamente indignado com os rumos do País e sobre como o Brasil lidava com a pandemia.

Outros nomes brasileiros que se foram em 2020: Olga Savary, Fernando Py, Luiz Alberto Mendes e o editor Raul Wassermann, fundador do Grupo Editorial Summus. 

No ano de uma pandemia mortal, perdemos astros da literatura internacional, mas é verdade que não só para a covid. John Le Carré, Eduardo Lourenço, Carlos Ruiz Zafón, Juan Marsé, Luís Sepúlveda, Albert Uderzo, George Steiner e Mary Higgins Clark.

Prêmios. Num ano em que se esperava que o Prêmio Nobel de Literatura pudesse começar a abrir seus horizontes – depois que um caso de abuso sexual dentro da Academia Sueca abalou a premiação literária mais reconhecida do mundo –, o comitê decidiu entregar o prêmio a Louise Gluck, uma poeta norte-americana com forte presença no meio universitário.

No Brasil, pelo contrário, os olhos dos prêmios literários se abriram para a diversidade. O belo livro Solo Para Vialejo, de Cida Pedrosa, venceu o prêmio de livro do ano no Jabuti, e o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, levou o Jabuti de romance e também o Oceanos. Claudia Lage e Marcelo Labes levaram o São Paulo de Literatura. O português Vítor Aguiar da Silva, também com forte presença na universidade, levou o Prêmio Camões 2020, que em 2019 havia celebrado Chico Buarque.

Expandindo sua presença a nível nacional, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) premiou na 5.ª edição do seu Prêmio Cepe de Literatura quatro mulheres em cinco categorias.

Festas online. Quando a pandemia impôs a necessidade de isolamento social, as grandes aglomerações esperadas para o meio do livro, incluindo a Bienal de São Paulo, a Festa Literária Internacional de Paraty e até a CCXP, tiveram que se adaptar ao contexto.

Em Paraty, nenhum escritor ou leitor enfrentou o acidentado calçamento da cidade histórica, mas as tradicionais mesas, agora gratuitas, puderam ser acompanhadas pelo site e redes sociais da Flip, num formato sem muitas inovações mas que atraiu debates muito interessantes, como a conversa entre Caetano Veloso e o escritor espanhol Paul B. Preciado.

Com público médio de 600 mil pessoas por edição, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo deste ano foi adiada para 2022 assim que o coronavírus começou a mostrar a sua força. Mas, em dezembro, a Câmara Brasileira do Livro realizou uma versão enxuta e online da maior feira de livros da América Latina: a 1ª Bienal Virtual do Livro de São Paulo. Mais enxuta, mas, ainda assim, foram cerca de 120 expositores e 330 autores.

Já a CCXP, terreno fértil para quadrinistas exporem seus trabalhos e conversarem com os fãs, a solução foi um novo evento totalmente digital. A CCXP Worlds: A Journey of Hope ocorreu em uma plataforma na web em que os visitantes virtuais da feira puderam navegar entre palcos e espaços, como o tradicional Artists’ Alley, onde quadrinistas e escritores de diversas origens compartilham e falam sobre seu trabalho.

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