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Com Cortázar no Arouche

Em 'Vivos na Memória', Leyla Perrone-Moisés relembra seus encontros com grandes escritores

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

10 de novembro de 2021 | 03h00

Paris, dezembro de 1968. Com um pacote de livros na mão, que Haroldo de Campos estava mandando para um amigo, Leyla Perrone-Moisés sobe as escadas de um prédio charmoso, toca a campainha e o que ela vê à porta é um homem muito muito alto, vestindo um pulôver bordado com âncoras e barquinhos. Atrás dele, um pôster do Snoopy com a clássica imagem do cãozinho em sua máquina de escrever e os dizeres “Era una noche oscura y tormentosa...”. 

Esta foi a primeira vez que a crítica literária brasileira esteve com Julio Cortázar (1914-1984) e a lembrança desse e dos encontros seguintes é resgatada em Vivos na Memória, que ela lançou em junho com textos escritos “a partir de seus afetos”. Ao longo de sua vida de leitora, pesquisadora e professora, Leyla conviveu, como ela coloca na apresentação, com muitas pessoas notáveis e que eram, também, indivíduos “extraordinários no cotidiano”.

Não era sua ideia fazer, aqui, minibiografias dessas grandes figuras, mas, sim, contar histórias que ela viveu com essas pessoas – e a invejável lista vai de Roland Barthes e Derrida a José Saramago, Eduardo Lourenço, Lévi-Strauss, Gilles Lapouge, Wally Salomão e Leminski. E segue. 

Mas voltando a Cortázar. Leyla conta sobre a convivência em Paris e sobre a vinda dele, em 1975, a São Paulo – porque não podia ir para a Argentina, ele encontrou a mãe e a irmã em Campos do Jordão. Em seu texto, a autora comenta a tensão daquele momento e relembra os passeios descontraídos que ela, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman fizeram com o ilustre visitante, incluindo um almoço no Bexiga e um aperitivo no Arouche, antes da partida repentina do escritor.

São 25 textos e alguns “flashes” reunidos no final. Em suas memórias com Saramago, ela fala sobre a crítica que fez de O Evangelho Segundo Jesus Cristo e reproduz a carta que recebeu do escritor. Conta ainda sobre um encontro num lugar improvável: o Canadá. E de um jantar em São Paulo, quando teve seu momento tiete. Ela estava num sofá, sentada ao lado de Raduan Nassar, e Saramago parou para conversar com eles. Leyla não teve dúvida: tirou a maquininha da bolsa e pediu para alguém que estava passando (e essa é outra boa história que ela conta) registrar o momento. 

Com os textos de Leyla, viajamos ao México com Wally Salomão, vamos à casa de Paulo Leminski e Alice Ruiz, conhecemos o escritório caótico de Lapouge em Paris. Participamos de momentos, conversas, jantares. Conhecemos um pouco mais suas vidas, histórias, alegrias e angústias, sua humanidade. 

Vivos na Memória

Autora: Leyla Perrone-Moisés

Editora: Companhia das Letras (256 págs.; R$ 69,90; R$ 39,90 o e-book)

* JORNALISTA ESPECIALIZADA EM LITERATURA

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