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O escritor Stephen King fala na conferência da Amazon sobre o Kindle, em 2009, Nova Iorque Mike Segar/Reuters

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Com ‘Carrie’, livros de Stephen King ganham novas edições

Projeto inclui ainda publicação dos sete volumes da série ‘Torre Negra’ e do inédito romance ‘Fairy Take’

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Ubiratan Brasil , O Estado de S.Paulo

Atualizado

O escritor Stephen King fala na conferência da Amazon sobre o Kindle, em 2009, Nova Iorque Mike Segar/Reuters

Era início de 1972 e um jovem Stephen King rascunhava um conto sobre uma garota chamada Carrie White que apresentava poderes telecinéticos, ou seja, era capaz de mover objetos com a força da mente. Enquanto escrevia, o autor sentia-se incomodado pelo que julgava ser a assombração de duas amigas do colégio apontadas como “diferentes” (ou seja, alvo de bullying) que já estavam mortas. O texto, recuperado do lixo por Tabitha, mulher do escritor que o encorajou a continuar a escrita, logo se tornou o livro Carrie que, publicado em 1974, iniciou uma vitoriosa carreira que hoje conta com 62 romances, além de 12 volumes de contos, seis de não ficção, quatro de HQs e um musical.

É justamente com Carrie que a Suma, selo da Companhia das Letras, inicia a reedição da obra de King que, em setembro, completa 75 anos. O projeto prevê ainda uma edição da série Torre Negra, saga épica em sete volumes publicada a partir de 1982 e que é um dos trabalhos mais ambiciosos do autor. Também a publicação de A Longa Marcha (1979) dará início ao relançamento dos livros esgotados de Richard Bachman, pseudônimo usado pelo autor. 

Finalmente, no segundo semestre, a editora pretende publicar o novo livro inédito de King, Fairy Tale (ainda sem título em português), que conta a história de Charlie Reade, rapaz de 17 anos que herda as chaves de um universo paralelo onde o bem e o mal travam uma guerra. 

 Ainda que contestado por críticos (Harold Bloom o considerava um dos piores autores dos EUA), King é um best-seller mundial, com mais de 400 milhões de cópias vendidas, publicadas em 40 países. Também é o escritor vivo que mais tem títulos adaptados para os mais diversos tipos de mídia, como cinema, televisão, streaming, teatro, quadrinhos. Uma vasta galeria que inclui Carrie, a Estranha, O Iluminado, It: A Coisa, À Espera de um Milagre e Misery (cuja versão teatral está em cartaz em São Paulo), entre outros.

“O maior desafio da tradução é o uso de recursos de fala nos personagens, como sotaques, gagueira, ceceio e outras questões de pronúncia”, diz Regiane Winarski, responsável pela tradução. “É preciso tomar cuidado para não cair no ridículo ou ficar uma caricatura.”

“Stephen King conhece a alma humana”, observa Rita Ribeiro, doutora em Geografia e especializada na obra do americano. “Seus livros são sempre e fatalmente sobre pessoas. Sobre como sucumbimos aos nossos medos, mas, na maioria das vezes, sobrevivemos a eles.”

De fato, o próprio escritor reconhece que a atenção que confere aos personagens humanos é o que explica o sucesso de suas histórias. “Uma das razões pelas quais funciona – a única razão pela qual esse tipo de história dá certo – é que o leitor ou espectador se importa com as pessoas envolvidas. É diferente, por exemplo, quando se assiste a filmes como Sexta-Feira 13 – ali, você torce para ver 12 jovens bonitos sendo mortos de 12 maneiras interessantes”, disse à agência AP, em 2017.

Na mesma conversa, King contou que o medo que sente ao escrever certas histórias serve como parâmetro para o efeito que provoca nos leitores. “Sou instintivo, não planejo com muita antecedência”, observou. “Tenho uma ideia do caminho da trama, mas deixo os detalhes aparecerem à medida que escrevo. Então, em alguns momentos, eu conseguia me assustar. Lembro de uma cena de O Iluminado (1977), quando o garotinho Danny entra no quarto 217 e vê a mulher na banheira. Aquilo me assustou de verdade.”

Apesar de apontado como Mestre do Terror, King não se considera um autor de tramas desse tipo. “Minha ideia é contar uma boa história e, se ela cruza certos limites e não se enquadra em um gênero particular, melhor ainda”, disse ele à AP. Como exemplo, cita The Colorado Kid (2005) que, a partir da narrativa sobre um garoto morto em uma ilha na costa do Maine, ele questiona por que certos assassinatos permanecem sem solução. “É a beleza do mistério que nos permite viver sãos à medida que pilotamos nossos corpos frágeis através deste mundo de corridas demolidoras”, ele escreve no epílogo.

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Obra literária revela o brilhantismo de uma mente muito poderosa

Autor costuma incluir ou até citar um mesmo personagem em romances distintos

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 05h00

A primeira lição que você aprende ao adentrar o universo de Stephen King é que se torna impossível ficar indiferente ao conteúdo da obra do autor. Ele tem uma capacidade enorme de enxergar histórias no mundo real e contá-las na ficção, quase sempre com uma pitada sobrenatural, incitando o debate, forçando uma reflexão.

São inúmeros exemplos. Das obras mais antigas, como Carrie, publicado em 1974, até Billy Summers, o mais recente publicado no Brasil, de 2021, quando King se deslocou mais uma vez do apodo de mestre do horror para escrever sobre um assassino de aluguel e o último trabalho antes da aposentadoria.

Relações abusivas, feminicídio, bullying, alcoolismo, abuso sexual e psicológico... As mazelas da sociedade contemporânea são discutidas por King em meio ao universo que apenas uma mente brilhante seria capaz de descrever. 

A telecinesia, capacidade de mover objetos com o poder da mente, está presente em Carrie como um dom para punir os responsáveis por bullying. O alcoolismo é o tema principal de O Iluminado (nesse caso, esqueça o filme de Stanley Kubrick, por favor). Em O Cemitério, King coloca em pauta o dilema da morte, na discussão entre o casal Louis e Rachel Creed sobre como tratá-la com os filhos.

Mas o sucesso de King não está apenas por conseguir se manter atual. É impossível ler uma obra sem se sentir parte da história. A experiência sensorial oferecida aos leitores é uma característica marcante. Aquele sentimento de não estar sozinho, que te faz levantar os olhos do livro para observar ao redor, se torna algo corriqueiro. 

Confesso que tive essa sensação recentemente. Depois de muitos anos, eu resolvi ler Dolores Claiborne, um livro de 1993, que foi publicado no Brasil com o nome de Eclipse Total. Era o único na lista de mais de 60 livros em que não sei por qual motivo nunca havia me debruçado. A obra trata de uma relação abusiva (tema atual) com o viés sobrenatural (figuras fantasmagóricas formadas na poeira). Fiz bastante uso do aspirador de pó naqueles dias.

O universo de Stephen King é tão complexo que, às vezes, é até difícil adaptá-lo para uma obra audiovisual. Há tempos, Hollywood se alimenta da mente do autor. Recentemente, os serviços de streaming também beberam (e continuam bebendo) bastante desta fonte. Séries são produzidas em uma velocidade alucinante.

A Torre Negra é o maior exemplo de fracasso. O diretor Nikolaj Arcel falhou grotescamente ao tentar contar na telona todo o calvário do pistoleiro Roland Deschain. Nem mesmo Idris Elba e Matthew McConaughey foram capazes de evitar o vexame. É impossível reproduzir em apenas 1h35 uma obra magnífica, dividida em sete livros (o primeiro de 1982 e o último em 2004), além de O Vento pela Fechadura (2012), uma história dentro da história.

O próprio Stephen King participa (como ele mesmo) em Torre Negra. Aliás, este é outro aspecto interessante nas obras do escritor. Diversos personagens ou passagens são colocados em outros livros, como Cujo, o temido cão São Bernardo que ataca mãe e filho em um ferro-velho, que é citado em O Cemitério. Annie Wilkes, de Misery (Louca Obsessão, no cinema), fala da família Torrance, de O Iluminado. Isso acontece inúmeras vezes. Não é necessário ler tudo o que ele escreveu para notar.

Por fim, deixo uma pequena lista dos livros que eu adoro do King para celebrar os seus 75 anos: Christine, Rose Madder, Novembro de 63, Duma Key, O Instituto, Gwendy’s Button Box, Mr. Mercedes (os três), Com Sangue (destaque para o conto que dá nome ao livro) e o conto Riding the Bullet

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Stephen King usa bem protagonistas crianças, diz tradutora

Regiane Winarski diz que, no trabalho da versão, fica assustada com os trechos que revelam maldade humana

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 05h00

Em sua escrita, Stephen King usa a expressão dos personagens para revelar sua condição social e mesmo seu estado de espírito. "São sotaques, gagueiras e ceceios que, muitas vezes, são difíceis transpor para o português", comenta Regiane Winarski, que traduziu os mais recentes livros de King para o idioma nacional - será dela também a tarefa de verter os próximos lançamentos.

Na seguinte entrevista, realizada por e-mail, Regiane lembra que seu maior desafio foi o de traduzir It - A Coisa. "Especialmente por abordar questões complexas como racismo, homofobia e violência contra a mulher, entre outras", argumenta. 

 

 

O que é mais desafiante na tradução dos livros de Stephen King? 

O maior desafio é o uso de recursos de fala nos personagens, como sotaques, gagueira, ceceio e outras questões de pronúncia. Muitos são difíceis de transpor para o português e é preciso tomar cuidado para não cair no ridículo ou ficar uma caricatura. Quanto a estilo, os livros do Stephen King costumam ter trechos bem descritivos e ter um bom desenvolvimento de personagem, detalhes que acabam tornando o texto dele bem familiar não só para mim, mas para os leitores que acompanham fielmente as obras dele. 

 

Qual foi a obra mais difícil de traduzir e por quê? E, se houve, qual a mais fácil?

A mais difícil foi It - A Coisa. Foi difícil por ter sido meu primeiro (e um começo desafiador, sendo uma das maiores obras dele, além de ser uma das mais icônicas) e também por abordar questões muito complexas e importantes como racismo, homofobia, violência contra a mulher e tantas outras. Eram trechos muito sofridos emocionalmente para mim, pois é impossível não me envolver com a história que estou traduzindo.

Acho que o mais fácil foi A Hora do Lobisomem, por ser curtinho e bem direto. Mas também considero que Depois foi bem fácil porque eu me senti "em casa" com o livro desde a primeira página. Foi como estar num parque de diversões.

 

Qual sua obra preferida? Por quê?

Essa é uma pergunta bem difícil. Eu gosto de vários livros dele. Depois se tornou um dos meus queridinhos porque o personagem principal é um menino, e eu sempre adoro quando Stephen King usa protagonistas crianças. Eu acho que ele faz isso muito bem.

 

Confesso que senti verdadeiros arrepios ao ler 'O Iluminado' - você sentiu isso traduzindo alguma de suas obras?

Em geral, não chego a sentir medo quando traduzo ou leio os livros do King, mas todas as partes que dizem respeito à maldade humana sempre me deixam assustada. Isso porque são coisas bem realistas, que podem acontecer de verdade. A maldade humana é o que há de mais assustador para mim.

 

Você gosta das versões para o cinema? Acredita que são, na medida do possível, fiéis à obra dele?

Eu fico dividida sobre isso. Há algumas versões de que eu gosto bastante, mas muitas de que não gosto. Acho que as que mais acertam são as que focam mais nas complexidades dos personagens e menos em dar susto.

 

Há algum livro que você identificaria como um momento de ruptura na obra dele?

Eu acho que A Metade Sombria é um livro bem impactante para quem conhece a história de vida do Stephen King. Eu tinha lido quando adolescente e não sabia de nada da vida do autor. Quando fiz a tradução uns anos atrás, já sabendo tudo pelo que ele tinha passado com alcoolismo e drogas, enxerguei nas entrelinhas do livro muita coisa importante que tinha deixado passar. Acho também que muita coisa mudou para ele como autor e como pessoa depois desse livro.

 

Você acredita que existe um parentesco profundo entre a literatura de suspense e a psicanálise, no sentido em que há sempre, em ambas, uma verdade encoberta a ser desvendada?

É um paralelo interessante. Acho também que ambas seguem o caminho do desconforto para chegar ao objetivo final. E nem sempre essa verdade é aquilo que esperamos ou imaginamos.

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Confira os melhores filmes do universo de Stephen King

Dos clássicos aos menos conhecidos, conheça mais obras de um dos maiores autores do terror

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

15 de fevereiro de 2022 | 05h00

Ele, certamente, não é uma unanimidade, mas se Stephen King for avaliado em números, pelos livros que vendeu, então existem poucos que podem ser comparados a ele. Seus livros venderam pelo menos 400 milhões de cópias, muitos viraram filmes e também renderam milhões (de dólares). O homem é uma fábrica de fazer dinheiro. Seu nome virou sinônimo de terror, como poderia ser de ficção sobrenatural, científica, suspense e fantasia. É o nono autor mais traduzido do mundo.  

A seguir, uma viagem pelos livros/filmes que constribuíram para estabelecer o mito de Stephen como King/rei do terror:

O Iluminado 

Jack Torrance isola-se com a mulher e o filho no Overlook Hotel. A função como caseiro é fachada para sua tentativa de romper o bloqueio criativo como escritor. Os corredores do hotel – e o jardim em forma de labirinto – somente contribuem parta desestabilizá-lo ainda mais. A chave do filme é o garoto. Atenção! Tudo o que Stanley Kubrick acrescentou à história foi para torná-la melhor. E o filme tem o tema do grande diretor - a destruição da palavra como elemento agregador das pessoas. Stephen King não gostou do filme e fez a sua versão, fraquinha, por final. Disponível na HBO Max.

Carrie a Estranha 

Outra história forte que foi muito bem filmada. A garota que sofre bullying na escola e em casa – a mãe é uma fanática religiosa – descobre ter poderes telecinéticos e os utiliza para se vingar, promovendo um banho de sangue. A versão de 1976, de Brian De Palma, é melhor do que a de Kimberly Peirce, de 2013. Um grande papel para Sissy Spacek e aquele twist final no cemitério. A versão de 2013 está disponível na Amazon Prime Video.

Um Sonho de Liberdade 

Para muita gente, esta história atípica é a melhor novela de Stephen King e o melhor filme adaptado de seus textos. Tim Robbins mata a mulher e o amante dela e vai para a penitenciária, onde Morgan Freeman o toma sob sua proteção. A história original, Rita Hayworth and the Shawshank Redemption, foi publicada na coleção DifferentSeasons. A direção de Frank Darabont, o elenco. Você nunca mais esquecerá Forest Whitaker como Brooks Hatlen. Mas, apesar do culto, o filme foi um raro fracasso de bilheteria no lançamento. Disponível na Nettflix.

It, a Coisa 

O palhaço que irrompe da imaginação de um grupo de crianças e as atormenta, além de promover um banho de sangue. A versão de 1990, de Tommy Lee Wallace, tinha suas qualidades, mas a de 2017, do argentino Andy Muschietti, é muito melhor. Assustador é pouco. Seus nervos ficarão à flor da pele. A versão mais recente está disponível na HBO Max.

Conta Comigo 

Outra história atípica de Stephen King, outro grupo de crianças. O rito de passagem dos garotos que tentam localizar cadáver numa floresta. Um filme cultuado de Rob Reiner, narrado em flash-back por Richard Dreyfuss – o próprio Stephen King? – e com aquele elenco jovem. River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O’Connell, etc. Um clássico dos anos 1980, disponível no Starz+.

À Espera de Um Milagre 

Tentando repetir o fenômeno A Um Passo da Liberdade, Frank Darabont adaptou outro texto atípico de Stephen King. Brutamontes negro acusado de matar duas crianças aguarda execução da sentença no corredor da morte. Possui poderes sobrenaturais. Michael Clarke Duncan é quem faz o papel, Tom Hanks é o policial que se torna seu amigo (e descobre que ele não matou). Meio longo, mas bom. 

A Torre Negra 

Pistoleiro percorre o mundo em busca de torre mágica que está para desaparecer, e com ela a liberdade e a criatividade. Garoto participa de sua busca. Considerado um dos grandes livros de Stephen King, virou um filme decepcionante de Nikolaj Arcel, com Idris Elba e Matthew McConaughey. Contribui para isso o fato de não ser conclusivo. A ideia era virar uma franquia com o misterioso Pistoleiro. Disponível na Netflix.

Cujo 

O dócil cão São Bernardo de um garoto vira máquina de destruição ao ser mordido por um morcego. Lewis Teague já dirigira Alligator/O Jacaré Assassino. Cria cenas inacreditáveis de tão brutais e violentas. Mas, atenção – o foco está na família e suas dificuldades. Outro clássico dos anos 1980. Disponível na Amazon Prime Video.

Christine, o Carro Assassino

Adolescente compra carro velho – um Plymouth modelo 1958 – para restaurar. Fica obcecado pela máquina, e o que não sabe é que Christine – o nome que dá ao carro – vira extensão de seus desejos e começa a matar. Na era de Encurralado e outros carros assassinos, muito antes de Crash e Titane, o filme é considerado dos melhores de John Carpenter, príncipe do terror. 

Cemitério Maldito 

Outra história de família, e terror. Animais enterrados num cemitério sagrado de indígenas retornam como monstros. Um pai desesperado enterra a própria filha e a garota... Prepare-se. É brutal. A versão antiga, de Mary Lambert, tem seus admiradores. Na mais recente, de Kevin Kolsch e Dennis Widmyer, a violência é mais gráfica, e assustadora. Disponível na Netflix.

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