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Com 2 livros já lançados, 'Histoire des Émotions' cobre um vasto período da humanidade

Trajetória da obra começa na Antiguidade clássica

Denise Bernuzzi de Sant’Anna, ESPECIAL PARA O ESTADO

02 Dezembro 2016 | 21h34

As emoções atravessam a história da humanidade e aproximam as épocas. Tristes, alegres, pessoais e coletivas, elas aparecem nas artes e nos relatos religiosos, explodem em insurreições populares, movem guerras e duelos, marcam as festas e os funerais. Desde a descrição da cólera dos deuses e da fúria dos guerreiros da Antiguidade, até o entusiasmo revolucionário que ergueu barricadas no século 19, um verdadeiro continente emocional não cessou de comprovar a capacidade humana de temer, amar, odiar, invejar e se entusiasmar.

Contudo, nada mais ilusório do que acreditar que cada emoção tenha sido vivida e interpretada da mesma maneira ao longo do tempo. É o que demonstram os dois primeiros volumes, recentemente publicados na França, da coleção intitulada Histoire des Émotions. Trata-se de uma obra organizada por Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello, o mesmo trio que dirigiu as coleções História do Corpo e História da Virilidade, publicadas no Brasil, pela editora Vozes.

Ricamente ilustrada, História das Emoções cobre um vasto período histórico. O primeiro volume tem início com as paixões da Antiguidade clássica, quando não havia uma palavra correspondente à emoção, tal como hoje a entendemos. A cólera masculina podia ter tanta legitimidade quanto o choro de Aquilles diante da morte de Pátroclo. Enquanto as lágrimas dos heróis eram vistas como quentes e fecundas, chorar em público conferia-lhes poder e força. A seguir, o pathos grego encontrou ressonância nas paixões romanas, quando o “culto de fides” já evocava uma nova maneira de dominar a raiva, a inveja e o medo. Se havia uma ferocidade temerária entre os povos bárbaros, eram os seus reis que usavam de maneira bastante pragmática as emoções, transformando a cólera real em discurso político. Com o advento do cristianismo, uma esperança inédita na salvação modificou a visão do sofrimento e criou uma imagem inusitada da morte. A Idade Média não foi apenas uma época de flageladores e místicos andarilhos, mas o solo propiciador de novas normas de conduta, redigidas dentro dos mosteiros. Com o século 16, essas normas foram desenvolvidas por uma civilidade moderna, ansiosa por um controle emocional até então desconhecido.

Já no segundo volume, 15 autores se dedicam a estudar as emoções dos séculos 18 e 19, quando os volteios e ímpetos de uma “alma sensível”, foram transformados em objeto de autobiografias e romances. É também quando a família burguesa se tornou um teatro de emoções representadas pelas artes e analisadas por novas ciências. É ainda quando os prazeres populares e os sentimentos revolucionários passaram a ocupar o centro das atenções de políticos, policiais e educadores.

O terceiro volume, sobre o século 20, será publicado no segundo semestre de 2017. No conjunto, a obra revela o quanto a geografia do universo emocional é mutável, reveladora privilegiada das desventuras e ousadias humanas. Mais do que isso: os dois volumes publicados comprovam o quanto as emoções formam hoje um campo de estudos historiográficos sólido e relevante, com seus livros, teses e especialistas.

*DENISE BERNUZZI DE SANT’ANNA É PROFESSORA LIVRE-DOCENTE DE HISTÓRIA DA PUC-SP

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