Sunny Shokrae/The New York Times
Sunny Shokrae/The New York Times

Colson Whitehead conta história de reformatório inspirado em fatos reais

'O Reformatório Nickel', seu sétimo romance, parte de história real de internato para jovens na Flórida com histórico de abusos, torturas e espancamentos, e faz reflexão sobre o estado atual da sociedade

Entrevista com

Colson Whitehead

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2019 | 20h01

Colson Whitehead está aliviado – esta terça-feira, 30, foi o último dia de uma jornada de três meses de entrevistas, eventos de lançamento e palestras sobre O Reformatório Nickel, seu sétimo romance, lançado em julho, simultaneamente por aqui, pela HarperCollins Brasil. 

O livro é o primeiro desde The Underground Railroad, história marcante de escravos no século 19 – o livro venceu dois dos principais prêmios literários americanos (National Book Award e Pulitzer), vendeu mais de um milhão de exemplares e vai virar série com a direção de Barry Jenkins (Moonlight). A expectativa, portanto, era alta, mas Whitehead conseguiu de novo. Elogiado, O Reformatório Nickel fez o autor parar na capa da revista Time, o primeiro escritor ali desde 2010, entre outros reconhecimentos.

O novo livro acompanha a história de Elwood e Turner, dois garotos negros que por motivos diversos vão parar em um reformatório, segregado, na Flórida em 1963 – o local foi inspirado na Florida School For Boys, que existiu de fato até 2011, e onde pesquisadores descobriram restos mortais clandestinos de pelo menos 100 crianças, além de um histórico enorme de abusos, torturas e espancamentos. O que Whitehead faz aqui, porém, é ficção, e sobre isso ele conversou com o Estado por telefone.

Você diz que os dois personagens são como partes da sua própria personalidade, é isso?

Todos nós temos um lado otimista e esperançoso, e o outro um pouco mais ciente de como as coisas podem ser ruins. Na primavera de 2017, três meses depois de Donald Trump assumir a presidência, eu estava refletindo para onde o país estava indo, e para onde poderia ir, e me pareceu que o livro seria um bom jeito de abordar partes diferentes da minha personalidade. Uma que tem esperança por um mundo melhor, para meus filhos, e outra que não tem tanta certeza ou que ao menos entende que o progresso é muito lento. 

Ainda jovem, Elwood se apaixona pelos direitos civis, mas em seguida eles são retirados dele. Como você diria que essa quebra de expectativa tem a ver com o movimento dos anos 1960 e a sociedade americana?

A geração do meus pais cresceu num ambiente com discriminação racial muito severa, mas houve ganhos no período da vida deles. Mas aí você acorda um dia e entende que as coisas não mudaram. Ainda há supressão de votos, ainda há segregação em cidades diferentes, ainda há barreiras de oportunidades para pessoas negras. Nos termos do livro, na vida de Elwood e na sua adolescência, é possível ver boicotes e protestos funcionando, e pessoas se colocando por mudanças sociais efetivas. Quando ele vai para o Nickel, todas suas crenças em progresso social são testadas e frustradas.

O livro se passa em 1963, antes de muitos desenvolvimentos importantes nessa história.

Sim, antes de Martin Luther King ser assassinado. John F. Kennedy é morto enquanto o personagem está no reformatório. Mas é um ano antes do Voting Rights Act e do Civil Rights Act (leis americanas que colocaram fim aos sistemas de segregação racial), então já houvera alguns movimentos em direção à igualdade, mas os fatos mais importantes ainda estavam no horizonte.

No primeiro capítulo, Elwood ganha uma aposta cujo prêmio seria um conjunto de enciclopédias. Mas ele logo descobre que as enciclopédias estão vazias. Como você acha que isso se relaciona com essa discussão?

É o primeiro grande desapontamento de Elwood depois que seus pais saem de casa. É uma lição. Porque o que está nas enciclopédias é o conhecimento, e isso está sendo mantido longe dele. Assim como oportunidades e igualdade. Então é um momento em que ele tem contato com a realidade.

Há um motivo para você ter mantido o julgamento do garoto de fora do livro (Elwood é mandado para o reformatório após uma coincidência injusta e infeliz)?

Ele não teria um julgamento real, porque ele era um garoto negro na Flórida de 1963. Então não havia sentido.

Umas das resenhas elogiosas do livro diz que ele fala sobre a “consciência coletiva nacional de negação”. Qual a força dessa consciência na sua opinião?

Em termos da escola do livro e de locais assim, as autoridades olham para o lado e fingem que nada acontece. Em termos da realidade política, seja na fronteira com o México, seja nas eleições e na corrupção do governo, as autoridades são cúmplices no que acontece, e não há muito o que possamos fazer até a próxima eleição. Não é um fenômeno novo.

Como a eleição de 2016 nos Estados Unidos foi importante para você escrever esse livro?

Eu tinha duas ideias para romances depois de The Underground Railroad, e na primavera de 2016 já parecia que tínhamos ido para um lugar mais terrível em termos de divisão e ódio. Eu estava questionado para onde o país estava indo, e não estava sozinho. Resolvi que com esse livro poderia examinar as forças da esperança e as forças do desespero. 

Os dois últimos romances se destacam dos seus outros livros na questão temática. Eles são uma resposta, partindo de um escritor de ficção tentando dizer algo para o mundo?

Eu escrevo para tentar entender alguma coisa sobre mim mesmo, às vezes para entender algo sobre o mundo. Às vezes, os livros são reações, às vezes não. The Underground Railroad não tinha nada a ver com onde estávamos em 2015. Mas esse livro sou eu tentando descobrir onde estamos. 

O novo livro foi muito aguardado, por conta de todos os prêmios, e então veio toda a repercussão positiva, com a capa da Time e tudo o mais. Isso muda o seu raciocínio como escritor?

Não, eu ainda tenho uma depressão leve (risos). Ainda é uma luta para colocar palavras na página. Obviamente, o sucesso é bom, mas não torna o trabalho nem um pouco mais fácil. 

PARA LEMBRAR - Reformatório na Flórida existiu até 2011

A Florida School For Boys, conhecida como Dozier School for Boys, funcionou na cidade de Marianna (Flórida) entre 1900 e 2011, mas muitos dos seus abusos, incluindo tortura e estupros, eram conhecidos por décadas. O estado abriu uma investigação em 2009 e, em 2012, uma apuração da University of South Florida descobriu dezenas de túmulos clandestinos no local. A estimativa é que mais de 100 crianças foram mortas ali. As investigações continuam até hoje.

Trecho de 'O Reformatório Nickel':

“Aquele último verão em Tallahassee passou rápido. No último dia de aula, o sr. Hill deu a ele um exemplar de Notas de um Filho Nativo, de James Baldwin, e a cabeça do garoto entrou em ebulição. Os negros são americanos, e o destino deles é o destino do país. Ele não tinha participado do protesto em frente ao Cine Flórida para defender os seus direitos nem os direitos dos negros, grupo do qual ele fazia parte; Elwood protestara pelos direitos de todos, até mesmo daqueles que gritavam contra o protesto. A minha luta é a sua luta, o seu fardo é o meu fardo. Mas como dizer isso às pessoas? Ele ficou acordado até tarde escrevendo cartas sobre a questão racial para o Tallahassee Register, que não publicou nenhum, e para o Chicago Defender, que publicou uma. ‘Nós perguntamos para a geração mais velha: ‘Vocês aceitam o nosso desafio?’’ Tímido, não contou a ninguém e assinou sob um pseudônimo: Archer Montgomery. Soava ranzinza e inteligente, e ele só percebeu que tinha usado o nome do avô quando o viu impresso no jornal.”

O REFORMATÓRIO NICKEL

Autor: Colson Whitehead

Tradutor: Rogerio W. Galindo

Editora: HarperCollins Brasil (240 p., R$ 54,90)

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