Joshua Bright/The New York Times
Joshua Bright/The New York Times

Colm Tóibín analisa influência paterna na obra de Joyce, Yeats, Wilde e Butler

'Mad, Bad, Dangerous to Know' ainda é inédito no Brasil

Thomas Mallon, Bloomberg

29 Outubro 2018 | 06h00

A preocupação de Colm Tóibín com os laços sanguíneos está evidente em suas obras de ficção como Mães e Filhos, Família Vazia, e de crítica literária (um livro de ensaios que publicou em 2012 teve o título Novas Maneiras de Matar Sua Mãe). Neste mais recente trabalho, Mad, Bad, Dangerous to Know (Louco, Mau, Perigoso Conhecer), o escritor irlandês trata de dilemas paternos – a devoção, rebelião e a desafeição subserviente que Oscar Wilde, William Butler, Yeats e James Joyce nutriam com relação a seus pais. “Eles criaram o caos, esses três pais”; no entanto, cada um deles foi uma necessidade imaginativa para seu filho crescer artisticamente.

Tóibín dá um enfoque pessoal à descoberta biográfica, ligando reminiscências dos próprios dias em Dublin, com histórias sobre seus biografados. Em uma longa introdução, ele conduz o leitor numa caminhada associativa e digressiva pela cidade: “O que é estranho, à medida que ando por esta rua à escassa luz de inverno, é o quão vazia Westland Row parece se você não olhar adequadamente, quão normal e simples ela é”. Na verdade ela está repleta de pontos de referência e aparições: a casa onde Wilde nasceu, o local de trabalho do pai de Joyce, o correio onde Leopold Bloom vai buscar uma carta em Ulisses – um romance que contém, junto com dezenas de milhares de outras coisas, rápidas aparições das irmãs de Yeats, Lily e Lolly.

Apesar de todas essas interconexões, Tóibín dá a cada pai literário uma seção exclusiva, começando com William Wilde (1815-1876) um homem com conhecimento profundo de várias ciências, com interesses “onívoros”: viajante, naturalista, escritor, antiquário e, sobretudo, um famoso otorrino e oftalmologista. Ele era também, excentricamente, um indivíduo bastante sujo (Tóibín menciona um relato de Yeats sobre um velho enigma em Dublin : “Por que as unhas de Sir William Wilde são tão escuras? Resposta: “Porque ele se coça”. Alternando depressão com hiperatividade, William Wilde mantinha um distanciamento de sua mulher Jane (escritora cujo pseudônimo era Speranza) cujas obras estavam repletas de patriotismo romântico e um sentido exaltado de si mesma. Seu filho Oscar reverenciava seu pai e sua mãe como aristocratas que venceram pelo próprio esforço.

No centro da sua história, segundo a narrativa de Tóibín, está o julgamento em 1864 decorrente de uma acusação de abuso sexual contra William Wilde feita por uma das suas pacientes, Mary Travers, que vingativamente importunou tanto William e sua mulher que levou a um contra-ataque por escrito de Jane. Tóibín realiza um bom trabalho ao mostrar como alguns elementos do processo – especialmente os temerários comentários jocosos de Jane ao depor como testemunha – prefiguraram o espetáculo do litígio de Oscar Wilde contra o Marquês de Queensberry em 1895. A principal diferença, da qual ele também está consciente, é que Oscar Wilde acabou na prisão, ao passo que seus pais, que perderam o processo e tiveram de arcar com os custos, não sofreram nenhum opróbrio social por parte de seus camaradas dublinenses.

Tóibín se concentra na história de John Butler Yeats (1839-1922) e seu filho William no exílio autoimposto pelo pai, no final da sua vida, em Nova York. John, um advogado que se tornou pintor, famoso por não concluir muitas das coisas que começou, era um pai “exasperante, mas também inspirador” para seus quatro diligentes filhos. Durante sua longa estadia na West 29th Street em Manhattan, ele passou grande parte dos seus 80 anos terminando seu autorretrato.

As hesitações e o fato de refazer suas pinturas sem dúvida estenderam seu período de vida, transformando-o numa variante do Dorian Gray de Oscar Wilde. Um maravilhoso criador de monólogos e escritor ainda melhor, ele conseguiu o que Tóibín considera uma “extraordinária originalidade”. Suas cartas mais estimulantes foram para uma mulher da sua idade chamada Rosa Butt. Nelas ele imaginava o casamento que poderiam ter tido: “Você pensaria em querer um quarto separado, não o que você realmente queria dizer com isto, mas apenas como demonstração”.

Antes de emigrar, John achava que a companhia do seu filho era um “peso”. Ele pegou dinheiro emprestado de Willie e se opôs aos seus “passatempos mágicos” que deram origem a boa parte da sua poesia. Mesmo assim seu filho tinha inveja da saudável propensão do pai à felicidade, e mais tarde, depois de muita tensão transatlântica, deixou que essa qualidade impregnasse seus próprios poemas sobre velhice, como The Spur (A Espora) e An Acre of Grass.

Tóibín avalia o relacionamento de John Stanislaus Joyce (1849-1931) e seu filho James como o mais complicado dos três. O sempre raivoso Joyce pai, dissoluto e perdulário, fez com que sua mulher e filhos mergulhassem na miséria e no medo. Financeiramente arruinado por volta dos 40 anos, ele, no entanto, forneceu ao filho abundante matéria prima para sua obra de ficção e se tornou uma espécie de musa, meio monstruosa, uma figura que James Joyce metamorfoseou em um livro após o outro, desde Dublinenses até Stephen Herói (num duro retrato), Retrato de um Artista quando Jovem (mais sutil) e finalmente Ulisses, em que temos lampejos mais atrativos e socializados de John Stanislaus. A bonança do capital literário fez com que o jovem Joyce se sentisse grato e culpado, com necessidade de perdoar, não importava o quanto sua família sofreu nas mãos do pai.

O último trecho do livro é o mais direto, mais próximo em termos de método, da crítica literária convencional. Mesmo na sua parte final, que é mais direta, este livro agradável, absorvente, mantém a erudição literária para ser uma busca celestial sincera. /Tradução de Terezinha Martino

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