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'Coleção Vaga-Lume', que revolucionou a literatura juvenil, está de cara nova

No imaginário do brasileiro há mais de quatro décadas, ‘Vaga-Lume' lança agora os 10 primeiros títulos com novo projeto gráfico

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2015 | 03h00

Partindo da ideia de que uma boa história não sai de moda e de quem é pai, mãe ou professor de crianças hoje teve seu primeiro contato com a literatura nos anos 1970 e 1980, e, portanto, com a coleção Vaga-Lume, a Ática decidiu dar uma nova cara à série de livros que revolucionou a leitura nas escolas. Estão chegando às livrarias, com novas capas e projeto gráfico reformulado, 10 títulos emblemáticos da coleção. Entre eles, os três mais vendidos de sua história: A Ilha Perdida, livro publicado por Maria José Dupré (1898-1984) em 1944 e que foi incluído na primeira leva da série, em 1973; O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida (1910-2005), que saiu como folhetim na revista O Cruzeiro, em 1956, chegou à Vaga-Lume em 1974 e está prestes a estrear no cinema; e A Turma da Rua Quinze, escrito pelo então redator do Jornal da Tarde, Marçal Aquino - que se destacaria, depois, também por seus roteiros e romances adultos (O Invasor, Eu Receberia as Piores Notícias dos Teus Lindos Lábios, etc).

“Os índices de venda sempre foram muito expressivos, mas percebemos um distanciamento entre as boas histórias e a apresentação visual. Era, então, preciso renovar, mas mantendo algum elemento que a ligasse ao passado”, explica Paulo Verano, gerente editorial de paradidáticos da Ática, que faz 50 anos em 2015. As novas capas trazem um detalhe das ilustrações originais. As imagens internas, que acabavam por entregar o enredo, foram deixadas de lado. “Era uma característica editorial da época e preferimos privilegiar o texto, com um bom trabalho tipográfico e uma mancha de melhor legibilidade”, completa Verano. Outra novidade é o verniz da capa, que brilha no escuro. Luminoso, o mascote da coleção, que já vestiu calça boca de sino, colete e boina, também está diferente. Hoje, depois do redesenho feito por Marcelo Martinez, responsável, também, pelo projeto gráfico, ele usa boné, calça verde e camiseta preta. O sorriso, mais aberto antigamente, ficou um pouco blasé.

A Vaga-Lume chegou a ter por volta de 100 títulos em catálogo - de autores como Marcos Rey, Orígenes Lessa, Luiz Puntel e tantos outros. Hoje, são 75 - 55 para leitores entre 11 e 14 anos e 20 com o selo Vaga-Lume Jr., para a faixa dos 10, 11 anos. A coleção da Ática reinou sozinha em sua primeira década e depois a concorrência começou a aparecer. Foi quando Marcos Rey, já escritor consagrado, chegou para dar novo gás com seus romances policiais - também copiados pela concorrência.

Há sete anos, um novo título não é publicado - o último foi O Mestre dos Games, de Afonso Machado. “Temos a intenção de retomar a prospecção de autores”, garante Verano. Existe a ideia, também, de relançar outros volumes com esse novo projeto gráfico - talvez 10 ou 15 por ano. Nem todos, porém, encontrarão leitores hoje. Como meninos e meninas de 12 anos leriam agora, por exemplo, um policial dos anos 1980, quando o contexto tecnológico era outro?

Marçal Aquino acredita que apenas um dos quatro livros que escreveu para crianças funcionaria hoje - justamente A Turma da Rua Quinze. Lançada em 1990, a obra é datada, o que dá a ela uma certa proteção. No dia em que o homem pisa na lua, Marcão desaparece. E os amigos partem para desvendar o mistério. “O mundo era daquele jeito, as fantasias eram aquelas. Os outros, se considerarmos a existência do celular e da internet, deveriam ser revistos. E isso acontece com qualquer policial. Se vai ler Raymond Chandler, você fica pensando que, se houvesse WhatsApp, acabaria a aventura”, diz o autor.

“Os tempos mudaram e, com o passar dos anos, ela se tornou uma coleção simples, tradicional. Não sei se ela corresponde ao modelo de sensibilidade do jovem de hoje”, comenta Fernando Paixão, editor de uma das fases áureas da série. 

A Vaga-Lume surgiu num momento em que as crianças eram apresentadas à literatura por meio dos clássicos. Na reforma educacional de 1971, quando o ensino obrigatório se estendeu até a 8.ª série, o número de alunos aumentou. Além disso, foi incluída na Lei de Diretrizes e Bases uma cláusula que recomendava a preferência pela adoção de obras nacionais. E, nesse momento, as escolas já pediam obras contemporâneas. A editora não perdeu tempo. A proximidade com os professores, que liam os livros antes de serem impressos e os testavam com seus alunos, foi um importante passo para o sucesso imediato, comenta Jiro Takahashi, o nome por trás da Vaga-Lume. As tiragens eram enormes - de cerca de 80 mil exemplares, que se esgotavam em menos de um ano. Takahashi destaca, ainda, os bons autores e o suplemento de trabalho que acompanhava as edições - hoje corriqueiro - como diferenciais. Na nova configuração, o suplemento será online. Afinal, a ideia é perder a cara de obra paradidática e ganhar as livrarias.

Números

7,5 milhões de exemplares foram vendidos desde o lançamento da coleção

3,5 milhões foi o número de cópias vendidas de ‘A Ilha Perdida’, publicado por Maria José Dupré em 1944, incluído na primeira leva da Vaga-Lume e o best-seller da coleção

Mais vendidos

1. ‘A Ilha Perdida’

Maria José Dupré

2. ‘O Escaravelho do Diabo’

Lúcia Machado de

Almeida

3. ‘A Turma da Rua Quinze’

Marçal Aquino

4. ‘Meninos Sem Pátria’

Luiz Puntel

5. ‘Tráfico de Anjos’

Luiz Puntel

6. ‘O Caso da Borboleta

Atíria’

Lúcia Machado de Almeida

7. ‘Deu a Louca no Tempo’

Marcelo Duarte

8. ‘Açúcar Amargo’

Luiz Puntel

9. ‘A Guerra do Lanche’

Lourenço Cazarré

10. ‘Menino de Asas’

Homero Homem

(Atualizada às 19h44)

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