ALBERT GEA/REUTERS
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Coleção destaca o lado jornalístico de Gabriel García Márquez

Gabo, jornalista? Livro revive o primeiro chamado do romancista, profissão da qual tinha muito orgulho

Dwight Garner THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 03h00

O romancista Gabriel García Márquez, “Gabo” para seus amigos, viveu para o jornalismo. Escreveu para jornais e revistas durante toda a sua vida e fundou seis publicações. Ele disse uma vez, contra a sabedoria dos séculos: “Eu não quero ser lembrado por Cem Anos de Solidão, nem pelo Prêmio Nobel, mas pelos jornais.”

García Márquez (1927-2014) inalou tinta fresca no caminho de se tornar crítico de imprensa da mesma forma como A.J. Liebling inalava a fumaça de charuto. Ele chamou o jornalismo de “o melhor trabalho do mundo” e “uma necessidade biológica da humanidade”. Ele entendeu que jornais e revistas não apenas trazem dados, mas contribuem, por meio de comentários de toda a variedade, para a alegria de uma sociedade.

Uma profunda nova coleção do jornalismo de García Márquez, The Scandal of the Century: And Other Writings (O Escândalo do Século, em tradução de Portugal), demonstra como ele levou a sério a reportagem e o que às vezes é chamado (será que Liebling aprovaria?) narrativa de longo formato.

Há intrincadas histórias aqui sobre a morte de uma jovem que parecia levar uma dupla vida; sobre o cerco político de 1978 do Palácio Nacional da Nicarágua pelos sandinistas; e sobre os esforços internacionais para salvar um menino que precisava de um soro contra raiva, difícil de encontrar, que chegou a ele em 12 horas.

São artigos que, em sua graça, colocam o leitor na mente de Relato de um Naufrágio, o livro de García Márquez, publicado pela primeira vez em inglês em 1986, baseado em uma série de artigos escritos para um jornal de Bogotá em 1955 sobre um marinheiro colombiano arrastado ao mar do convés de um contratorpedeiro.

A maior parte de seu jornalismo, como a maior parte de sua ficção, está centrada em sua Colômbia natal. Muitas das melhores peças de O Escândalo do Século, porém, são ensaios, meditações despretensiosas e espirituosas sobre temas como barbeiros e viagens aéreas, tradução literária e filmes.

Você tem a impressão de que, se ele tivesse permissão para começar uma última revista além do túmulo, García Márquez editaria uma versão de uma dessas publicações casuais, como The Spectator, The New Statesman ou The Oldie, que os ingleses fazem melhor do que o resto do mundo. Revistas que são compostas inteiramente de comentários, o conteúdo combinado do que quer que esteja na mente de seus colunistas.

O Escândalo do Século compreende 50 artigos, publicados entre 1950 e 1984. É um dos dois novos livros que tratam do trabalho e da vida de García Márquez. O outro é Solitude & Company (Solidão e Companhia em tradução livre), uma história oral encantadora e tumultuada, embora leve, editada pela jornalista colombiana Silvana Paternostro e traduzida para o inglês por Edith Grossman.

Solitude & Company não pretende substituir a biografia fidedigna de García Márquez, de Gerald Martin, em 2009. É um livro que reúne seus velhos amigos, como se estivesse em volta de uma mesa, e os deixa falar. Poucos podem acreditar no grande sucesso que seu velho amigo de bebidas Gabo acabou sendo, como ele flutuou para longe deles e fez tanto sucesso. Eles ainda não estão dispostos a lançar folhas de palmeira à frente dele ainda.

García Márquez escreveu algumas de suas primeiras ficções em rolos de papel de jornal que ele liberou de seus trabalhos diários. Talvez isso explique, de alguma maneira, a maneira pela qual sua ficção e não-ficção parecem sangrar juntas.

Os artigos de O Escândalo do Século demonstram que sua voz franca e levemente irônica simplesmente parecia estar lá, desde o início. (A ironia era o leque que resfriava de forma confiável o intenso projetor da mente de García Márquez.)

Ele escreveu seu jornalismo, disse ele, com “a mesma consciência, a mesma alegria e muitas vezes a mesma inspiração com as quais eu deveria ter escrito uma obra-prima”. O velocista e o corredor de longa distância encontravam nele uma estranha sincronia. Ele está entre aqueles raros grandes escritores de ficção cujo trabalho auxiliar quase sempre vale a pena ser encontrado; ele não sabia como ser indiferente.

Ele era um observador de categoria mundial. Ao ver o presidente Dwight D. Eisenhower desembarcar de um avião em Paris em 1958, ele observou não apenas seu “sorriso largo de um bom sujeito”, mas, melhor ainda, “seu longo e seguro caminhar Johnnie Walker". 

Os aviões figuram frequentemente no jornalismo de García Márquez. Ele odiava voar. Sobre viagens aéreas depois que ficou famoso, ele escreveu: “Eu sempre voo tão apavorado que nem percebo como alguém me trata, e toda a minha energia afunda em meu assento com as mãos para segurá-lo, a fim de ajudar o avião fique no ar, ou tente impedir que as crianças corram nos corredores por medo de que eles rompam o chão. “

A influência jornalística de García Márquez ainda é sentida. Em 1994, fundou a Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, mais conhecida como Fundação Gabo, em Cartagena, que continua prosperando. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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